Ator, realizador, dramaturgo e agora também escritor de novelas. Tim Blake Nelson é um dos rostos mais reconhecíveis do cinema norte-americano, não apenas por ter trabalhado com a Marvel em “The Incredible Hulk”, mas também por diversos papéis em filmes dos irmãos Coen, de Steven Spielberg e até de Guillermo Del Toro.
Jurado no Festival de Locarno na Competição Internacional, Tim Blake Nelson falou ao cinema sobre a sua carreira, o seu mais recente filme, “Bang Bang”, onde interpreta um antigo pugilista, e o seu papel no filme “Captain America: Brave New World”, que marca o seu regresso ao papel de Samuel Sterns (Leader).
No “Bang Bang” interpreta o papel de um antigo pugilista com raízes polacas. Essa personagem é inspirada em alguém?
É uma personagem ficcional, mas aquela área de Detroit tem muitos polacos a viver nela. É uma área muito particular. A classe trabalhadora norte-americana é preenchida, fundamentalmente, por migrantes. A minha família chegou à América como emigrantes e a do argumentista também. Somos ambos judeus. A família do meu pai veio de Mariupol, na Ucrânia, enquanto parte da família da minha mãe veio de uma cidade polaca perto da fronteira com a Ucrânia.
Como tem raízes familiares na Ucrânia, como vê a situação atual no país?
Genericamente sou pessimista, pois para mim é difícil ver otimismo nas circunstâncias que envolvem a guerra. Não sou um pacifista. Creio que o ocidente, as nações aliadas, se têm sido pacifistas desde a 2ª Guerra Mundial teríamos uma Europa muito diferente. Não sou pacifista, mas é difícil falar de forma otimista quando uma guerra está a decorrer. Dito isto, prefiro politicamente mostrar as minhas ideias pelas escolhas dos filmes que participo, ao invés de pensar que alguém quer saber as opiniões das questões políticas da boca de um ator ou realizador. Sabe, sinto que o facto de aparecer no (pequeno e grande) ecrã transmite uma falsa ideia de autoridade. Por isso, acho que devemos abordar as nossas ideias políticas através do nosso trabalho.

Olhando para o seu currículo observamos uma grande diversidade de papéis. Com a carreira que tem e o que conquistou, como escolhe participar num filme hoje em dia? É por intuição ou tem um método, um plano?
Depende de muitas circunstâncias, mas neste ponto da minha vida tenho de sentir que não consigo viver sem interpretar essa personagem. Vou fazer agora um filme onde tenho apenas um pequeno papel, mas sinto que será uma obra marcante. Vou só trabalhar cinco dias, mas é um papel muito interessante. Será um musical filmado em Budapeste, cidade onde nunca estive. Adoro visitar o leste europeu. Já fiz um filme na Bulgária e na Rússia (São Petersburgo), além de ter passado por Moscovo quando estudava. Logo após esse filme, vou ter outro onde terei um grande papel. Não é o tamanho do papel que me interessa, mas o projeto. Se for um papel de alguém que nunca fiz antes, ou um papel que exija de mim algo único, então sinto-me agarrado a ele. Com o “Bang Bang” foi assim. Quando sinto que não vou estragar um papel, pois tenho de sentir que não vou estragar o filme do realizador, avanço.
O que estudou em Moscovo?
Tchekov e Ostrovsky. Estudei drama na Juilliard e no 3º ano tínhamos um programa de intercâmbio, neste caso com Moscovo, para aprender numa escola de teatro.
Tem também uma enorme carreira no teatro. Qual foi o seu primeiro papel no teatro?
O meu primeiro papel foi numa encenação do “Ricardo III”, no Central Park em Nova Iorque. Foi fantástico. O Denzel Washington era o Ricardo III e ele tinha acabado de ganhar o Oscar.
E qual era o seu papel?
Era o segundo assassino (risos). Era um papel pequeno, mas muito engraçado. O Ricardo contrata dois assassinos para matar o Clarence e os seus filhos. O Clarence tenta persuadir os dois a não o fazerem. É uma cena muito engraçada.
O meu primeiro grande papel no teatro foi numa peça da Caryl Churchill, chamada “Mad Forest”. Era sobre a revolução romena contra o Ceausescu. Essa peça é aquela que considero fundamental para o que chamo o início da minha carreira.
Houve algum período da sua vida em que teve de abandonar o teatro para poder ganhar dinheiro no cinema?
Nunca houve um período da minha vida que tive de deixar o teatro exclusivamente por razões financeiras. Porém, quando eu e a minha esposa tivemos filhos, nesse período, fazer teatro não tinha tanto valor como fazer cinema. Se fizesse teatro, isso significava que estaria sempre ausente à noite e não podia deitar os meus filhos. E, provavelmente, dormiria mais de manhã, o que implicava não passar esse período do dia com eles. Sentia que apesar de estar perto deles, parecia que estava longe. Por isso, pensámos: Bem, se é para estar longe dos meus filhos, então é melhor ganhar mais dinheiro com isso, do que estar num teatro sem ganhar nada. Além disso, tinha também muito interesse em realizar filmes. Estar nos filmes era uma forma de aprendizagem para mim. Não estudei realização na escola, apenas atuação.

E aprendeu muito com os realizadores com quem trabalhou?
Aprendi com todos. Dos irmãos Coen a Spielberg, passando pelo Terrence Mallick e até realizadores em estreia. Bastava uma ideia, uma forma de expressão, um diretor de fotografia em cena para poder aprender algo com eles. O Tom Waits usa uma metáfora em que diz que tem uma antena sempre ligada para captar tudo. Tudo o que passa por ele, não interessa de onde, ele capta. Vejo também as coisas assim. Como pessoa criativa, tens de estar aberto a novas aprendizagens.
E isso também se manifesta na forma como aborda a arte. É ator, realizador, escritor de peças e agora também de novelas…
Penso sempre que diferentes formas artísticas enriquecem uma pessoa noutras formas artísticas. Escrever um livro vai-me ajudar a ser melhor realizador. Escrever peças ajuda-me a escrever novelas. Realizar filmes ajuda-me a ser melhor ator.
E ser júri de um festival também o ajuda nisso?
É um privilégio ver em 8 dias 16 filmes de todo o mundo. Estou perante cinema topo de gama de todos os sítios. Ontem vimos um filme português, com 72 minutos, de uma cineasta em estreia, e depois vimos o do Wang Bing, que tem mais de quatro horas. Nos dois filmes havia um tópico em comum: o papel do trabalhador e a relação entre ele e o patrão, o seu “dono”, de duas maneiras muito diferentes. Não podia ser mais sortudo em poder ver um filme do Ben Rivers e de um cineasta lituano em estreia, que mostra a vida de aspirantes a modelos numa pequena cidade (Toxic).
Participou em muitos westerns. Pode falar um pouco do amor que tem por esse género de filmes?
O primeiro cineasta a ensinar-me que os filmes eram subjetivos foi o Sergio Leone com os seus westerns. O meu amor pelos filmes veio dos westerns. Creio que esse é o género mais americano. Uma verdadeira forma de arte originária da América. Como norte-americano, quero fazer parte disso.
Por outro lado, sinto que a cada geração se reiventam os westerns. E gosto de fazer parte dessa reivenção e vou brevemente filmar, com o Guillermo Navarro, um western em Espanha, falado em inglês. Acho que vai ser um filme extraordinário. Aborda o poder da arma, o significado da arma quando se infiltra numa comunidade. Adorei o guião e vou ajudar na produção.
E vê westerns de outras partes do mundo?
Vejo e gosto muito, são formas de reinvenção do género. Por exemplo, os australianos têm feito ótimos westerns. Os filmes de gangsters vêm dos westerns e realizadores como o Guy Ritchie inspira-se muito neles.

Acabou de filmar o novo filme da saga Capitão América. Pode nos falar um pouco mais da sua personagem?
A minha personagem surgiu no Hulk do MCU, o filme com o Edward Norton. É um papel que estava à espera de voltar há quase 20 anos e nunca imaginei que poderia regressar. Mas, do nada, recebi uma chamada do meu agente a propor-me esse retorno. Não entendi bem o que isso significava, sinceramente. Tinha esperança que fosse um filme e não uma série de TV. Confesso, sou da velha guarda e prefiro filmes. Eles voltaram a ligar-me e disseram que o regresso seria num filme do Capitão América. “Queremos que sejas o vilão”, disseram. Fantástico, disse eu. Eles escreveram de forma muito emocionante e imaginativa a razão pela qual a personagem esteve 18 anos afastada. Envelheci entretanto e a personagem também. Sinto-me agora melhor ator. Este papel tem uma série de desafios que não funcionariam tão bem do primeiro “Hulk” para um segundo, por isso acho que este regresso é melhor assim.
A franquia Capitão América é mais terra a terra, como o “Logan”. Mesmo que o Capitão América esteja lá com o seu escudo, há mais realismo. O realizador de “Captain America: Brave New World” levou isso muito a sério e contribuiu para que a minha personagem fosse mais terrena.
Os seus filhos são agora adultos, mas quando eram mais jovens como viam a sua presença no universo Marvel? Eles instigaram-no a voltar a esse universo?
Sim, eles ainda adoram estes filmes. Agora têm 25, 21 e 19 anos e ainda estão obcecados com os filmes da Marvel. O de 19 anos está a estudar relações internacionais na universidade e tudo o que queria, quando soube que eu ia à Comic Con, era vir comigo (risos). Foi como se fosse uma criança novamente. É isto que gosto nos filmes da Marvel. Eles celebram a magia do cinema de uma forma particular: trazem de volta a criança que há em nós. Quando fiz o “The Incredible Hulk” apenas um deles tinha capacidade de entender as coisas que se passavam e estava muito excitado com isso.
Fora desse universo, em 2004 tinha um filme que ia realizar, mas que não avançou. Por isso telefonei ao meu agente e pedi para ele me arranjar uns trabalhos de ator nesse verão. Uns dias depois, ele ligou e disse que tinham o “Scooby Doo 2”. Estou eu ao telefone preparado para negar a oferta e mostrar que não era bem isso que queria fazer quando ouço o meu filho, todo contente, a dizer “Tu podes estar no Scoobie Doo where are you?”. Pensei para mim, ‘oh não!’ Mas claro que fiz o papel. (risos).
Houve algum filme que teve de negar a participação, por razões de agenda ou outras, que se arrepende?
Sim, o “Dogville”. Estava em São Petersburgo a fazer um filme e tinha combinado com a minha esposa que, quando essas filmagens terminassem, regressava a casa e ficava uns tempos por lá. Estávamos a pensar ter o nosso segundo filho. Recebi uma chamada a dizer que o Lars Von Trier queria-me para o “Dogville”, o que me obrigaria a sair de São Petersburgo e ir para a Suécia. Falei com a minha mulher, mas ela queria-me de volta. Bem, ainda estou casado com ela (risos).
Recusei participar no filme e ele acabou por se tornar um marco no cinema. Acabei por regressar aos EUA e participar no “Holes”. Mas sim, gostava de ter estado no “Dogville”.
Outro papel que tive de recusar foi no “No Country For Old Men”, dos irmãos Coen, pois entrava em conflito na agenda com um filme que ia realizar. Tive de dizer que não o fazia e foi pena, pois o filme que ia realizar nunca aconteceu.
Como se ultrapassa a desilusão de um projeto que não consegue levar para a frente ou de um filme, como os que mencionou, que consegue encaixar na sua agenda?
Foi duro, em especial o caso do “No Country For Old Men”. A Frances McDormand disse-me que quando estas coisas acontecem devemos seguir em frente e não nos arrependermos de nada. É algo fácil de dizer, mas, no caso dela, por exemplo, recusou participar no “Holes”. Depois viu o filme e arrependeu-se (risos)…

