Quatro anos depois de estrear nos cinemas “Marguerite et Julien”, a atriz, argumentista e realizadora Valérie Donzelli regressou num registo bem diferente no seu “Notre Dame de Paris”, filme estreado no Festival de Locarno em 2019 que agora chega aos cinemas nacionais.
Conhecida principalmente pelo premiado “Declaração de Guerra” (2011), a realizadora apresenta neste seu novo filme a história de uma arquitecta falhada e mãe solteira, Maud Crayon, que sonha com um milagre que mude a sua realidade. Esse milagre acontece e uma maquete de Maud – em torno da renovação do adro da catedral de Notre Dame de Paris – “voa” (literalmente) para o sucesso.
Uma comédia hilariante com um toque de fantasia e romance interpretada pela própria Donzelli, com quem falamos este ano em Paris:
Porque escolheu fazer uma comédia após um drama como o “Marguerite et Julien”?
Justamente porque queria mudar de registo, de género. O Marguerite era trágico. Imaginei-o e concretizei-o como um filme triste e trágico. Quando fazemos um filme assim pesado precisamos de algo ligeiro a seguir. Por isso pensei em algo mais suave, uma verdadeira comédia.
E há elementos autobiográficos neste “Notre Dame”?
Sim, existem sempre elementos autobiográficos nos meus filmes e é verdade que cheguei a fazer os meus estudos em arquitectura. O ponto de partida do filme era fazer o retrato de uma mulher. Após uma conversa com um produtor para filmar rapidamente, imaginei uma arquiteta que vivia em Paris, tinha filhos e atravessava um sentimento de fracasso.
E como foi escrever o argumento do filme com o Benjamin Charbit?
Escrevi uma primeira versão sozinha e depois, sim, chegou o Benjamim, principalmente porque a produtora, a Alice Girard, achava que era preciso algo mais que a comédia. Assim chegou o Benjamim e reescrevemos o filme juntos.
A música é particularmente importante nos seus filmes, como a trabalha?
Escrevo muito com música, com músicas que me inspiram e depois experimento essas músicas na sala de montagem. Trabalhei com o Philippe Jakko com quem já colaborara no “Que d’amour!” (2013), que me ajudou a trabalhar na música em função dos lugares.
Existem momentos no filme que são de puro teatro. Esses momentos são inspirados em algo em particular, uma peça?
Não, de todo. Desejava que certas partes do filme fossem dançadas, notavelmente um momento em particular. Assim pedi uma coreografia específica à Maud Le Pladec, que desenvolveu aquela sequência magnífica. Para realizar essa cena não era possível ser na rua, por isso decidi executar esse momento numa espécie de estado mental, longe da realidade . Existia ainda a hipótese de filmar tudo num apartamento, mas os décors que encontramos eram demasiado caros. Assim, optamos por esse registo de fantasia mental. Filmamos toda essa dança num estúdio e foi toda uma sequência de comédia musical.
E os elementos de fantasia no filme, como os concetualizou e criou?
São tudo elementos do meu imaginário. Gosto muito de “motorizar” as coisas no cinema, uma coisa que nos faz acreditar – por exemplo – que a maquete arquitetónica voa e aterra no sítio certo. O bom do cinema é que é uma arte onde isso é permitido, jogar com essas fantasias imaginárias. O lado féerico do Cinema deslumbra-me, todas essas coisas que não são de todo realistas.
E depois do incêndio de Notre Dame, que pensou em relação ao seu filme?
Bem… Antes do incêndio, Notre Dame era apenas mais um monumento em Paris. Agora é uma figura lendária. Forçosamente, o filme agora carrega essa figura lendária.
Numa entrevista à Madame Figaro, disse que com o Notre Dame quis falar sobre as mulheres da sua geração que nem sempre pensam em si mesmas…
Não só as da minha geração, acho que as mulheres em geral pensam antes primeiro noutras coisas que nelas. Elas dão filhos ao mundo [e pensam muitas vezes primeiro neles]. É algo que não é simples. A maternidade é algo que me interessa muito e no “Notre Dame” quis mostrar alguém com filhos, grávida que continua a fazer a sua vida. As mulheres são uma série de coisas [não apenas mães]. Queria mostrar isso.
A Maud é uma personagem maravilhosa e peculiar. Alguma vez pensou nela como centro de uma série de TV, por exemplo?
É engraçado. Já me perguntaram se podia fazer uma continuação dela, visto ser uma personagem de ficção. Talvez, não sei….
E tem algum projeto novo a caminho? Também como atriz?
Tenho uma série de coisas em mente, como realizadora e também como atriz. Mas é cedo falar nelas…

