Jean-Paul Salomé sobre ‘O Falsificador’: “Bojarski era um artista”

"O Falsificador", de Jean-Paul Salomé, passou pela Festa do Cinema Francês e estreia comercialmente nos cinemas portugueses a 22 de outubro.

Regressando a um território que atravessa boa parte da sua filmografia, o das personagens com vidas duplas, como vimos em Le Caméléon (O Camaleão, 2010) e La Daronne (Agente Haxe, 2020), o cineasta francês Jean-Paul Salomé leva agora ao ecrã a história de Czesław Jan Bojarski, um engenheiro e falsificador de moeda que, na França dos anos 1950 e 1960, desafiou durante anos as autoridades.

Com L’Affaire Bojarski (O Falsificador, 2025), Salomé volta a procurar histórias reais capazes de alimentar a ficção, como também vimos em La Syndicaliste (A Sindicalista, 2022) e até no seu primeiro filme, Les Braqueuses (1994), inspirado num caso descoberto nas páginas do Libération, tendência que o próprio associa ao fascínio pelos jornais adquirido ainda na infância.

Com Reda Kateb no papel principal, o filme procura recuperar tanto o engenho do falsificador como a vida familiar escondida por detrás da sua atividade clandestina.

Na entrevista que se segue, realizada em Lisboa por ocasião da Festa do Cinema Francês, Jean-Paul Salomé fala-nos das vidas duplas que povoam o seu cinema, dos limites entre realidade e invenção e do trabalho com Reda Kateb.

Jean-Paul Salomé

Ao longo da sua carreira, tem olhado frequentemente para personagens, reais ou não, com uma vida dupla. O que o atrai nessas personagens?

Há qualquer coisa nelas que é extremamente cinematográfica. São personagens comuns que escondem uma vida extraordinária. À partida, não são heróis, mas, quando escavamos um pouco, percebemos que fazem coisas incríveis. Há esta relação com o quotidiano e com pessoas que não se satisfazem com ele e precisam de inventar outra vida para encontrarem um equilíbrio.

Demorei algum tempo a perceber que este era um dos meus temas favoritos. Agora sei, disseram-me e reparei nisso. É uma atração que tenho apesar de mim próprio. Quando encontrei a história de Bojarski e comecei a trabalhar nela, lembro-me dos meus filhos me dizerem: “É um filme para ti, há uma vida dupla, etc.” E pensei: “Ah, sim, é verdade.”

Portanto, este é um dos meus temas, apesar de mim próprio. Revejo-me nele e é algo de que gosto de tratar no cinema.

Como estudou a história de Bojarski?

Tive a sorte de ter acesso a uma documentação extremamente vasta, com documentos, fotografias, filmes da época, entrevistas com alguns dos protagonistas, as atas do julgamento, os interrogatórios da polícia, enfim…

Havia também toda uma documentação sobre a forma como Bojarski tinha feito as suas invenções, como tinha criado tudo aquilo. Havia muito pouca coisa de natureza íntima sobre ele e a sua família, mas todo o seu percurso desde a Polónia, a chegada a França, as suas invenções e a sua vida como falsificador de moeda estavam muito bem documentados.

Isso permitiu-nos ter imediatamente uma visão bastante clara daquilo que queríamos fazer. Depois, a vida familiar interessava-me muito, precisamente por causa dessa vida dupla. E aí tivemos de inventar mais, mantendo-nos psicologicamente realistas, perguntando: o que aconteceu com a mulher e os filhos? Portanto, essa foi uma parte em que houve mais invenção da nossa parte, enquanto argumentistas.

E como trabalhou a personagem com Reda Kateb?

O Reda é um ator com quem queria trabalhar há muito tempo. Para mim, é um dos grandes atores franceses. Quando temos a sorte de fazer dois filmes seguidos com Isabelle Huppert, queremos continuar a trabalhar com atores de alto nível, continuar acima das nuvens. E o Reda tinha essa qualidade.

Falei-lhe do filme antes sequer de ter terminado o argumento, como tinha feito com Isabelle Huppert. Contei-lhe a história de Bojarski, uma personagem que ele também não conhecia, e disse-lhe: “Quero escrever isto a pensar em ti.” Ele aceitou e escrevi realmente o filme a pensar no Reda Kateb.

Era importante ter a imagem dele na cabeça e saber que seria ele a interpretar a personagem. É um luxo e, ao mesmo tempo, um desafio, porque nos obriga a um maior rigor. Com atores assim, sabemos que conseguem fazer tudo, por isso não nos limitamos na escrita nem nas cenas difíceis. Ao mesmo tempo, queremos oferecer-lhes algo que ainda não tenham feito, pelo menos daquela maneira, o que nos obriga a uma maior inventividade e profundidade psicológica.

Quando escrevemos algo abstrato, ter imediatamente a imagem e o talento de um ator faz-nos pensar: “Vou ter a sorte de ter este talento, é melhor saber explorá-lo” — entre aspas —, alimentá-lo e dar-lhe coisas para fazer. É muito agradável escrever nestas condições. Hoje tenho o luxo de poder ir ter com um ator e dizer-lhe: “Quero escrever para ti.” É algo que tento fazer regularmente.

Reda Kateb interpreta Jan Bojarski em O Falsificador

Quando escreve sobre uma personagem real, coloca-se a questão da ficção. Como trabalha essa dimensão?

É verdade que a relação com a ficção, quando trabalhamos com histórias reais, pode ser bastante ambígua. Ao mesmo tempo, digo sempre a mim próprio que esta é a minha visão de uma personagem. Não tenho a ambição de dizer que este é o biopic oficial de Bojarski.

Penso que é mais complicado quando abordamos personagens conhecidas, como De Gaulle, por exemplo, ou figuras históricas, porque aí pode chamar-se revisionismo. Isso é mais complicado. Mas quando temos a sorte, como eu, de abordar personagens que são desconhecidas do público e que não fazem parte da História com H maiúsculo, isso deixa-nos mais liberdade para dizer: “Esta é a minha versão.”

Aquilo que tentei fazer com Bojarski, como noutras histórias, mas talvez ainda mais com Bojarski, foi dizer: isto é aquilo que senti ao descobrir a vida deste homem, estes são os pontos que me interessaram e são estas emoções que quero transmitir através do cinema. Algumas partem talvez de coisas muito verdadeiras e outras do meu imaginário.

E como trabalharam a relação entre Bojarski e o polícia que o persegue?

Na realidade, houve um polícia que perseguiu Bojarski durante 15 anos. Chamava-se Émile Benhamou [no filme, a personagem inspirada nele chama-se André Mattéi] e era o responsável pelo Gabinete Central de Repressão da Contrafação de Moeda. 

Era um polícia que realmente o perseguiu e, como o descrevemos no filme, era casado com uma mulher rica. Levava uma vida de polícia, como hoje se diria, upgraded, porque usava fatos magníficos. Enfim, tinha dinheiro graças à mulher. Ainda assim, era um verdadeiro polícia, um bom polícia. Perseguiu-o e nasceram daí uma fascinação e uma admiração mútuas entre Bojarski e este polícia.

Tiveram acesso a elementos que documentaram essa relação?

Ao longo de todos esses anos, houve algo que nos ajudou muito: tivemos acesso a uma entrevista com a mulher de Benhamou, já depois da morte do marido. Ela disse-nos duas coisas que nos orientaram muito no argumento, a mim e ao argumentista Bastien Daret.

A primeira foi que, no fundo, viveu esses 15 anos com o marido e também com Bojarski, entre aspas, porque o marido não falava de outra coisa. Era o grande caso da sua vida enquanto polícia. A certa altura, chegou a perguntar-se se ele queria realmente prendê-lo. Estava tão entusiasmado com o caso que tinha medo de que acabasse, quase como uma história de amor, e de depois pensar: “Mas o que é que vou fazer?” De facto, nunca mais teve um caso tão importante e estimulante.

A segunda foi que, quando finalmente prendeu Bojarski, o marido lhe disse que lamentava não ter falado mais com ele. Sentia uma verdadeira fascinação e admiração por aquele homem, que considerava, de certa forma, um génio incompreendido em França.

Como nasceu a decisão de criar encontros entre os dois, como a cena do bar?

Enquanto argumentistas, quisemos criar algumas cenas que não tinham existido, dando mais tempo para que as duas personagens se encontrassem. Daí aquela cena do bar que escrevemos e inventámos e que hoje é uma espécie de cena de culto do filme, que os espectadores, pelo menos, adoram.

Não aconteceu, mas penso que os dois teriam gostado que tivesse acontecido e de a ter vivido.

Até que ponto, então, aquilo que vemos no filme aconteceu realmente?

É uma mistura, porque penso sinceramente que 80% de tudo o que é mostrado no filme aconteceu de uma forma muito próxima daquela, e houve outras coisas que, por vezes, tivemos de inventar.

E em relação à vida familiar, onde tiveram de inventar mais?

Foi aí que fiquei muito tranquilizado. Na vida familiar, nas relações com os filhos e com a mulher, tivemos de inventar psicologicamente as coisas.

Quando mostrámos o filme à filha de Bojarski — que vemos no filme dos 0 aos 16 anos e que hoje tem 77 —, ela ficou muito emocionada. Achou que o filme fazia justiça ao génio do pai, até então desconhecido em França, e disse uma frase de que gostei muito: “Sei que nem tudo é verdade no filme, mas tudo me parece justo.”

Até as coisas que inventámos lhe pareceram justas e algumas das coisas que viveu pareceram-lhe engrandecidas pelo cinema. Reconheceu a vida familiar, os retratos do pai e da mãe e a relação complicada do casal e de Bojarski com a família. Ele queria constituir uma família, algo totalmente incompatível com a sua vida de fora da lei e de falsificador de moeda. Era precisamente essa vida dupla que me interessava. Anne Bojarski foi muito sensível ao filme.

Segundo o filme, Jan Bojarski terá falsificado o equivalente a cerca de cinco milhões de euros, a valores atuais.

Acha que hoje seria possível vermos uma história como a de Bojarski em França?

Não sei, porque a moeda já não tem a importância que tinha naquela época, embora a contrafação continue a existir. Falámos disso no Banco de França quando preparámos o filme e confirmaram-nos que ainda hoje existem falsificadores que fazem euros.

Simplesmente, na época de Bojarski, atacar a moeda era muito mais grave. Aquilo que Bojarski fez podia ser economicamente extremamente embaraçoso, ao ponto de obrigar o Banco de França a mudar várias vezes as notas.

Era algo grave porque estava em causa toda a economia. O facto de a população de um país perder a confiança na própria moeda, perguntando-se se era verdadeira ou falsa, criava uma verdadeira perturbação económica, o que já não aconteceria da mesma maneira hoje.

Essa perturbação económica e essa desconfiança explicam as penas… Quando vemos escrito nas notas que a contrafação era punida, na época, com 30 anos de prisão, percebemos que era um dos crimes mais severamente punidos naquele tempo. Não sei quais são as penas hoje, mas os falsificadores já não apanham prisão perpétua.

E por que razão Bojarski ficou conhecido como um dos maiores falsificadores de moeda?

Sobretudo porque as notas francesas da época, nos anos 1950 e 1960, eram extremamente difíceis de falsificar. É também por isso que Bojarski é hoje reconhecido como um dos maiores falsificadores de moeda.

Havia a caligrafia, a finura do traço, as técnicas utilizadas, as tintas, as diferentes cores, as nuances de coloração. Tudo isso tornava as notas francesas muito difíceis de imitar. Pegue num dólar americano: é uma nota extremamente simples. É preta e branca, tem um pouco de verde. O grafismo não mudou desde… a época dos westerns, pelo menos é essa a impressão que temos. Enfim, perceba, são notas muito simples.

As notas francesas da época eram muito, muito difíceis de imitar. É por isso que ganhou essa reputação de ser um dos maiores, porque eram consideradas das mais difíceis de falsificar.

Considera Bojarski um artista?

Claro. É um artista da falsificação. Não criou uma obra, mas, enquanto engenheiro, teve de inventar todas aquelas máquinas para fazer o papel, a tinta e a impressão. Tinha um espírito cartesiano extremamente brilhante.

E, sobretudo, trabalhou completamente sozinho. Não era um gangue. Estava na cave a fazer as notas, a criar as máquinas e o papel, numa espécie de produção em circuito fechado que o impedia de cometer erros. Foi isso que fez com que ninguém conseguisse apanhá-lo durante tantos anos. Era também brilhante na forma como punha as notas a circular por toda a França e, como o filme mostra, só foi preso quando, de certa forma, quis ser preso.

É isso que acho fascinante no seu percurso: começa por fazer dinheiro falso para alimentar a família, mas, na procura da perfeição, torna-se um artista e acaba por desejar o reconhecimento que todos os artistas querem ter.

Vai continuar a trabalhar no futuro sobre personagens reais?

Sim e não. Também é uma espécie de acaso. Penso que não, mas a verdade é que, quando olho para a minha filmografia, muitos dos filmes que fiz são inspirados em histórias reais.

Hoje toda a gente repara nisso, mas, se recuarmos aos meus primeiros filmes, era igual. O meu primeiro filme chamava-se Les Braqueuses. Era um caso que tinha lido no Libération, sobre quatro mulheres que tinham filhos, que já não sabiam como pagar as contas e que assaltaram bancos. Era uma história verdadeira.

E não sei, penso que a força do real me permite projetar-me menos na ficção. Quer dizer… intriga-me imediatamente.

Pierre Lottin entra em O Falsificador como Anton Dowgierd, o melhor amigo de Jan Bojarski.

Essa atração por histórias reais vem do seu hábito de ler jornais?

Tentei perceber um pouco isso. Desde criança que tenho o hábito de ler jornais. Os meus pais eram grandes leitores, assinavam imensos jornais, e eu não lia necessariamente livros, mas lia os jornais que estavam sempre espalhados pela casa.

Penso que desenvolvi aí uma fascinação pelos casos e pelas histórias, que punham imediatamente a trabalhar o meu imaginário. Mantive esse hábito e continuo a encontrar histórias assim, como aconteceu com La Syndicaliste, com Bojarski ou com o próximo filme. Leio alguma coisa e penso: “Esta história é louca, quero dá-la a conhecer ao grande público, quero dar a conhecer esta pessoa, a sua luta, a sua história.”

Não parte necessariamente de um livro. Pode partir de uma investigação, como La Syndicaliste, ou de um simples artigo num jornal. É algo que imediatamente põe o meu imaginário a trabalhar.

O que o faz perceber que uma dessas histórias pode tornar-se um filme?

É engraçado, porque penso sempre: “Mas porque é que esta história ainda não foi feita?” Nem sequer são necessariamente histórias recentes. Bojarski estava ali há anos. A história era genial, bastava encontrá-la e escavar um pouco.

Talvez tenha essa capacidade de sentir: “Aqui há um filme possível, aqui posso contar esta história.” Isso estimula o meu imaginário e ajuda-me a criar coisas sobre a vida de hoje e sobre aquilo que considero ser o lugar do cinema: contar alguma coisa, abrir as pessoas a outras personagens.

E percebi que, através da história dos outros, podemos contar-nos a nós próprios, podemos ser pessoais. Penso que em Bojarski há muito de mim, e noutros filmes também. Mesmo através de outras personagens, podemos contar-nos a nós próprios, e isso é algo de que gosto enquanto cineasta.

Falou de um próximo filme?

Sim. Não vou falar demasiado sobre isso agora, mas, em todo o caso, é baseado numa história verdadeira, contemporânea, sobre uma personagem bastante… que viveu algo muito forte e cuja história quero contar.

Mas é igual: é uma história que encontrei no jornal, no Le Monde, há dois ou três anos. Havia toda uma série de artigos sobre a mesma pessoa. Recortei os artigos, encontrei-me com os jornalistas, falei sobre o assunto, adquiri uma opção sobre a história e hoje estou a desenvolvê-la. É um pouco assim que trabalho.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/4h56