Harrison Ford: “O problema atual não é quem somos, mas o facto de não sermos mais quem éramos”

(Fotos: Divulgação)

Numa longa entrevista à Variety, Harrison Ford refletiu sobre sua carreira, os desafios do envelhecimento e a sua visão sobre o panorama político dos Estados Unidos, isto num momento de profunda polarização nos EUA.

Questionado sobre os seis primeiros meses da presidência de Donald Trump, Ford, que tinha apoiado Kamala Harris nas eleições, foi peremptório: “O pêndulo oscila em ambas as direções, e neste momento está a balançar saudavelmente para a direita. E, como a natureza dita, voltará a balançar.” No entanto, o ator expressou preocupação com a fragmentação da sociedade americana. “O problema atual não é quem somos, mas o facto de não sermos mais quem éramos, porque fomos propositalmente desagregados em unidades políticas manipuláveis.”

Ford defende que essa divisão enfraqueceu o centro, espaço onde, na sua opinião, a sociedade deve estar. “O centro é onde pertencemos. Não porque é banal ou seguro, mas porque é justo. O compromisso é justo e honesto.” Sobre o futuro, o ator reconhece a dificuldade em encontrar pontos de convergência, mas adianta que se olharmos para a economia, a verdade é que a base comum permanece a mesma de sempre: os ricos continuam a enriquecer, enquanto os pobres empobrecem ainda mais. E essa desigualdade não é justa.

Quando questionado pela revista sobre para onde vamos, o celebre Indiana Jones responde com humildade: “Estás a perguntar a uma pessoa não qualificada[sobre o assunto]. Não tenho essa resposta.”

Sobre a carreira, Ford recordou alguns momentos marcantes, como o seu início no cinema com um pequeno papel em Dead Heat on a Merry-Go-Round (1966), quando um chefe dos novos talentos da Columbia Pictures lhe disse ele que não tinha futuro na indústria — e pediu-lhe para cortar o cabelo como o Elvis. “Mais tarde, encontrei-o num jantar e ele enviou-me um cartão a dizer: ‘Errei no meu palpite.’”

Star Wars

Tudo mudou com American Graffiti (1973), um filme feito com poucos recursos, onde conheceu George Lucas. “Ele não falava. Na entrevista, foi o único que não disse nada. Depois percebi que ele só falava quando necessário.” A amizade com Lucas levou-o a Star Wars, onde improvisou uma das frases mais marcantes da saga: “Eu sei” em resposta ao “Eu amo-te” de Leia. “Pensei que ‘Eu também te amo’ era banal. O Kershner concordou comigo. O George não tinha a certeza, mas a plateia riu-se. E rimos também.”

Ford falou ainda de Blade Runner (1982), um filme que “foi miserável de fazer”, filmado “durante 50 noites à chuva”. Sobre a versão que prefere, Ford responde com facilidade: “Gosto de qualquer versão sem o voice-over. O público deve estar presente na história.” Já sobre a sequela, Blade Runner 2049 (2017), brincou: “Foi melhor que a primeira, porque não estava sempre a chover nem era sempre noite.” Questionado sobre o soco involuntário que deu a Ryan Gosling durante uma cena de luta, o ator justificou. “Pedi desculpa. O que mais posso fazer? Não se pode desfazer um soco.”

Nos últimos anos, Ford tem ganho destaque na televisão com atuações em séries: 1923 (2022), prelúdio de Yellowstone, onde interpretou um papel de peso no universo criado por Taylor Sheridan. Mas foi com Shrinking (2023), da Apple TV+, que redefiniu o seu legado para uma nova geração, ao interpretar Dr. Paul Rhoades, um terapeuta excêntrico e sarcástico diagnosticado com Parkinson.

A doença da personagem é um dos eixos centrais da série e Ford falou da sua abordagem com grande seriedade. “Parkinson não é engraçado. Quero fazer isto bem”, sublinhou, destacando a importância de Michael J. Fox, que vive com a doença e se juntou ao elenco na terceira temporada. “A coragem, a força e a graça dele são um exemplo para todos nós.”, diz.

Aos 81 anos, o ator diz que não pensa em reformar-se. E brinca sobre o assunto: “Uma das coisas que achei atraente neste trabalho é que também precisam de pessoas velhas para interpretar papéis de pessoas velhas.”

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