Depois de “Sitiados” (2007), “Solo” (2012) e “First Light” (2014), Mariana Gaivão regressou com “Ruby”, filme estreado no Curtas Vila do Conde no ano passado e que agora chega às salas portuguesas, inserida numa sessão especial – denominada “três realizadoras portuguesas” – onde tem a companhia de “Dia de Festa” de Sofia Bost e “Cães Que Ladram aos Pássaros” de Leonor Teles.
“Acabo sempre por me desinteressar um pouco da narrativa”, disse-nos a realizadora numa conversa acalorada pela pandemia que vivemos, a romantização que muitos fizeram da “quarentena” e da falta de reacção do Ministério da Cultura perante todos aqueles que trabalham no sector.
E falámos de “Ruby”, claro, a sua pequena história coming-of-age sobre uma comunidade “hippie” onde uma jovem rapariga de origem inglesa (interpretada por Ruby Taylor) prepara-se para se separar da sua melhor amiga, Millie, que vai voltar para o Reino Unido.
Uma viagem, como descrevemos na nossa crónica de Vila do Conde, “com cheiro a terra queimada”, num filme que começa de forma “naturalista, mas que termina numa gruta a ecoar música eletrónica num quadro pictórico totalmente diferenciado“.
Estive na estreia do filme em Vila do Conde, como viu o percurso da curta até agora?
O filme teve um percurso com um início muito bonito. Vila do Conde [onde estreou] é um sítio muito especial, marcou várias etapas do meu caminho até hoje. (…) Foi como chegar a uma etapa em que já vivemos as coisas há imenso tempo, mesmo com uma curta, às vezes com 2 ou 3 anos, e ter aquele momento em que nos é devolvido qualquer coisa. É mesmo bonito, uma sensação muito forte.
Esse início foi incrível. Depois o filme teve em Montreal no Canadá e em Roterdão, na estreia europeia, que também foi incrível. É como sermos um estranho que chega a uma casa em que algumas pessoas já se conhecem. Mas senti que lá também havia uma abertura do olhar e que aquilo que andamos a fazer durante dois anos no meio de umas montanhas com estas pessoas incríveis de alguma forma continua a ter ressonância ou eco num sítio tão distante. Isso é muito bonito.
Depois aconteceu-nos o que aconteceu a todos. Esta…este… não sei bem que nome lhe dar….
Uma pandemia que é um pandemónio…
Acho que não temos palavras, nem forma de transformar isto numa narrativa compreensível. Vamos nos adaptando passo a passo, mas o que aconteceu foi uma migração violenta para um lado virtual que normalmente vejo como um complemento e não como um foco de um percurso de um filme. E tem sido uma adaptação.
Vários festivais foram cancelados, outros migraram por completo para edições virtuais. O “Ruby” não esteve, por opção minha, nessa dimensão até agora. Não quer dizer que não venha a estar, mas tenho tentado perceber o que é que ainda pode ser presencial. Ainda me é difícil compreender o que é que vai ser o futuro da partilha dos filmes. Estou do lado da resistência, mais ou menos lógica, de tentar não entregar por completo a dimensão corporal de visionar os filmes.
E falando deste lado mais de Cinema, esta estreia em sala, juntamente com mais duas curtas-metragens. Não é algo muito frequente no cinema português, as curtas chegarem às salas. Acha que é algo bom para o filme e que se devia apostar neste género de iniciativas?
Não me surge como inesperado. Na verdade, o meu primeiro filme, “Solo”, feito numa estrutura diferente, mas filmado no mesmo sítio, inclusivamente, já tinha tido uma estreia em sala com outras duas curtas. É uma proposta que para mim faz muito sentido, cria uma sessão que tem uma temporalidade que me parece interessante para quem vai ver.
É sempre complicado por os filmes a “dançar” uns com os outros, mas para além de eu sentir que esta sessão tem uma harmonia muito particular, por várias razões, sinto que é um convite que sai como simpático, no sentido em que não é uma sessão extensa.
E apesar de haver uma certa coerência entre os (3) filmes, eles são heterogêneos. É um convite leve, uma boa desculpa para voltarmos a habitar as salas de uma forma segura e o mais protegidos que nos é possível, mas resistirmos de alguma forma e lutarmos pelo espaço onde ainda podemos existir como espectadores físicos.
E é curioso pois já em Vila do Conde o “Ruby” foi exibido numa sessão com o “Dia de Festa”…
Foi (risos)… Por qualquer razão que me escapa (risos). Creio que há razões mesmo de fisicalidade do filme, que podem parecer secundárias, mas… são os três filmados em 16 mm, têm essa textura, são os três de realizadoras. Penso que são muito distintos nos seus olhares, mas de uma forma harmoniosa.
Uma coisa que achei interessante quando falou em Vila do Conde, foi ao dizer que a “resistência” da personagem principal, da atriz, fez o filme, pois quando a convidou ela de certa maneira desprezou o convite…
Sim, para mim o cinema é uma forma de gerar um encontro, é uma forma de viver um desejo que de outra forma não teria corpo. De uma forma mais simples, é um veículo para ir ao encontro de algo que desejo. Mas para criar tudo o que vem a seguir, e lembro-me na altura de ter falado disso, para mim e no meu processo é muito importante mantê-lo aberto à resistência das coisas às quais vou ao encontro.
Neste caso, a própria Ruby, ou a pessoa com quem estava a trabalhar, ao devolver-me de alguma forma uma espécie de atrito em relação às minhas intenções tornou o processo muito mais rico e aberto a tudo o que não imaginei.
De outra forma seria apenas enquadrar o que escrevi, escrever o que pensei, montar o que filmei. Quanto mais abertura eu conseguir manter nesse processo, quando mais possibilidades eu der ao mundo de entrar no quadro, quanto mais eu escapar às minhas próprias intenções e me deixar surpreender por aquilo ao qual vou ao encontro, mais rico o filme será. No meu processo [é assim]. Não será o processo de toda a gente, mas para mim é uma forma de escapar ao que pode ser hermético nas minhas intenções. E a Ruby tem certamente esse lado.
É muito cedo para falar disto, mas pondera daqui a uns anos regressar a esta personagem num ambiente completamente diferente? Uma espécie de continuação…
Todos eles, não só a Ruby e a Millie, esta comunidade tornou-se o centro muito único do meu trabalho e tenho lá continuado a trabalhar. Os filmes são sempre um mistério quando nos chegam e os seguintes também serão. Coisas que achamos que vamos fazer, mas afinal aparece outro filme pelo meio. Mas a minha intuição é que voltarei a filmar lá, tanto no próprio sítio como dentro da comunidade. Há muito por contar ainda. Histórias, momentos de viver e olhares para dar a ver.
Isto passa-se tudo em Góis, não é, e vem das memórias de infância? Creio que passava lá os verões…
Também. Nos meus filmes acabo sempre por me desinteressar um pouco da narrativa. A própria forma como nos contamos ou nos mistificamos como realizadores também está muito ancorada nas narrativas aristotélicas. Eu vim daqui, fiz aquilo, por isso hoje faço isto. Percebo que isso é importante muitas vezes para explicar os filmes que estamos a fazer, e até para gerar um certo romantismo sobre o realizador, que veio de não sei onde. Sim, há todo esse lado, mas na verdade há coisas que nos escapam. Eu posso falar das memórias de infância, e elas estão em mim, mas também tenho uma sensação episódica. Ou seja, para além das histórias que contamos de nós próprios, há olhares e encontros que nos marcam quase sem os conseguirmos explicar.
Voltando a estes tempos de pandemia, tem algum novo projeto que já esteja a desenvolver?
Sim, no meio disto tive o enorme privilégio de antes de tudo começar a fechar, desta incapacidade total de gerar respostas perante o que está a acontecer na cultura, tive a enorme sorte de já ter dois projetos em curso: um de escrita, que já terminei, e um documentário que ainda está em fase de produção. Portanto, neste momento tenho trabalho diariamente, sentada ao computador, monto, escrevo, investigo.
Tenho a sorte de poder ter continuado a trabalhar durante todo este tempo e de ter ainda bastante trabalho para a frente.
E são projetos a curto prazo? Já com financiamento?
São projetos já apoiados pelo ICA e que estão a decorrer dentro das suas fases de produção normais. Estou a trabalhar num documentário com a mesma produtora com quem fiz o “Ruby”, A Primeira Idade. Um documentário no qual estou a trabalhar há mais de um ano e meio e que está ainda na fase de rodagem e com grandes questões de impossibilidades e de dúvidas relativamente ao que nos está a acontecer. E tenho uma longa-metragem na qual estou a trabalhar para financiamento de desenvolvimento.
E pode-se saber o tema dos projetos ou ainda é segredo?
Não (risos), mas vou tentar dar um toque geral sobre eles. O documentário é de alguma forma muito distante do que me moveu nas curtas, mas que obviamente irá ter pontos de encontro que ainda não sei definir e que serão mais óbvios para quem vê de fora. Centra-se entre Portugal, Alemanha e Japão e tem a ver com a memória coletiva e escrita da história.
A longa-metragem, que começo agora a pesquisa, regressa à mesma comunidade do “Ruby”.
Já que atrás mencionou essa questão da cultura, e da situação atual, em particular dos técnicos, em que a maioria tem contratos precários, como é que tem visto a reacção do Ministério da Cultura, do ICA, etc…?
Acho que houve e acho que é notório uma falta de resposta para o setor de trabalho particular da cultura. Houve uma tentativa de reescrita do que deveria ser a responsabilidade do Ministério da Cultura, encaminhando as coisas para o Ministério do Trabalho e Segurança Social, para os problemas que são inerentes aos trabalhadores da Cultura. São trabalhadores na sua maioria precários, trabalhamos sem qualquer rede de segurança, como qualquer pessoa sabe. E temos, apesar de tudo, um Ministério sobre o qual trabalhamos. Devia haver uma resposta concreta para todo um sector que se vê, neste momento e na prática, incapacitado de exercer o seu trabalho.
Há uma grande confusão se concursos são apoios. Uma coisa são os concursos, que é o nosso trabalho de continuar a manter e para os quais tentamos, falhamos, conseguimos, uma vezes sim, outras vezes não. Outra questão totalmente diferente é perceber se há ou não uma ideia do que é a cultura de um país. Para o bem essencial que é a cultura de um país. Neste momento, isso não existe. Não sinto que haja essa visão.
Parece que a cultura é um excedente ao qual nos podemos dar o luxo de ter quando há anos de bonança, e não uma estrutura inerente como a liberdade, a democracia, o pensamento crítico, o espaço de debate… os pilares do que devia ser uma sociedade democrática. É assim que vejo a cultura, mas não é assim que sinto que ela seja vista.*
Tenho falado com alguns realizadores que têm encontrado ideias na pandemia e naquilo que as pessoas estão a passar para novos projetos. Não teve nenhuma ideia que saísse do meio da pandemia?
Tenho a dizer que houve alguma romantização desta ideia de quarentena, algo que para mim está associado, de uma forma muito clara, a um privilégio de classe. A ideia que usei este tempo para melhorar, essa forma de narrar o que nos aconteceu para mim é perversa. É uma forma de obliterar a vasta maioria de pessoas que não pode estar em casa, que não pode dar-se ao luxo de olhar pela janela, que não pode romantizar o que quer que seja.
O que sinto que vemos neste momento é a relegação para o espaço público das pessoas que o têm de ocupar por obrigação: os transportes públicos, as deslocações extensas, as pessoas que têm de continuar a trabalhar.
Tudo o que não seja falar disso, falar de quem passa fome, que não pode habitar isto de uma forma poética, é perverso. Não estou a dizer que [a pandemia] não possa gerar ideias, estou a dizer que é importante não deturpar a narrativa do que têm sido meses de privação e que geraram, tanto na cultura como em qualquer outro sector, situações de fome e de privação extrema.
E ainda estamos numa fase que não sabemos como isto vai continuar. Todos dias há novas informações…
Não fazemos ideia e continua a haver essa tentativa de reescrita, inclusivamente neste momento, em que somos reduzidos a corpos de produção, onde a cultura não tem espaço e onde há uma massa inteira de corpos que podem ser sacrificados em viagens diárias postas a perigos para nós podermos continuar seguros. Isso sim é a maior perversidade.
* Um dia depois da nossa entrevista, e após a emissão de um comunicado da Secretaria de Estado da Cultura (SEC) “sobre a há muito requisitada utilização do saldo de gerência do ICA para medidas de apoio directo aos projetos e equipas afectadas pela pandemia, em resposta a uma das várias propostas apresentadas pelas associações do sector”, Mariana Gaivão envia-nos uma mensagem a congratular “o sinal positivo de abertura ao diálogo“, prometendo que os que laboram no sector vão continuar a trabalhar para serem ouvidos, no sentido de proteger e dignificar o seu trabalho.

