Planuras: um aguerrido western contemporâneo sul-africano

"Planuras" (Flatland) está em exibição na KINO - Mostra de Cinema de Expressão Alemã

(Fotos: Divulgação)

Ainda antes de começar a desenvolver o seu gosto pelo cinema, e com apenas 11 anos, a sul-africana Jenna Cato Bass dava o seu primeiro passo no mundo das ilusões ao decidir aprender magia. Essa paixão estendeu-se depois para o cinema, uma transição natural e orgânica, como nos explicou em entrevista, durante uma pausa enquanto trabalhava no pós-produção do seu novo filme, “Mlungu Wam (Good Madam)“, uma sátira de horror que toca no tema dos conflitos raciais e nas relações entre classes.

Moulin Rouge”, um filme que hoje em dia não lhe diz nada em particular, foi no inicio dos anos 2000 um forte impulsionador para a sua paixão pelo cinema, arte que não consegue separar da cultura pop. Os  seus primeiros passos na realização ocorreram no virar para a década de 2010, ganhando atenção depois de lançar a curta-metragem “The Tunnel”. Seguiu-se a sua primeira longa-metragem, “Love the One You Love” (2014), que lhe rendeu alguns prémios internacionais, e “High Fantasy“ (2017), no qual  – aproveitando-se da facilidade em manusear uma câmara leve e fácil de transportar (um Iphone) – experimentou novas forma de mexer com a linguagem do cinema enquanto, simultaneamente, falava sobre raça e a condição da mulher sul-africana.

Seguiu-se a colaboração na escrita de “Rafiki” (2017) – famoso filme queniano banido no seu próprio país (Quénia) – e a realização de “Flatland” (Planuras), o qual demorou 10 anos a executar. Neste western em terras sul-africanas, a região do Karoo é figura de destaque na história de três mulheres numa rota onde a violência parece inevitável. De um lado temos Natalie (Nicole Fortuin), recém casada que é violada na noite de núpcias. Na tentativa de fuga, acaba por ser responsável pela morte de um homem, tendo como única saída deixar a região e partir para Joanesburgo com a sua melhor amiga, Poppie (Izel Bezuidenhout), também ela com os seus problemas. Na fuga, as duas vão ter de lidar com uma polícia muito peculiar (Faith Baloyi), um grupo de camionistas que se revela perigoso, e com o marido de Natalie (De Klerk Oelofse), que não desiste de a procurar.

Antes de entrar no mundo do cinema, estudou e fez magia. Mas o cinema também é uma forma de magia, de criar ilusões, por isso a sua transição parece uma evolução quase natural. Como foram esses tempos e o que a fez entrar no mundo do cinema?

Sim, é verdade, cinema e magia são muito similares. Penso que muito do que aprendi naqueles anos na escola de magia e na atividade como mágica definitivamente moldou a minha definição de cinema. Entrei no mundo da magia muito antes de entrar no cinema, quando tinha 11 anos e só quando estava no liceu comecei a pensar em ser realizadora e a interessar-me por isso. São muito semelhantes e para mim foi uma passagem muito natural. Quase nem reparei e quando olho agora para trás ainda vejo mais como o mundo da magia está no cinema. Foi muito orgânica. Num sentido muito prático, a magia foi muito importante. Quando és um mágico, vives em busca de atingir algo, tornar algo que se diz impossível possível. Pensava sempre em como atingir isso, como encontrar a solução. Foi algo que deu-me muita confiança em fazer as coisas à minha custa. 

Ambos os meios circulam à volta do entretenimento, como um contrato que tens com a audiência, suspendendo a descrença e mostrando-lhes algo que sabem que não é real, mas ainda assim maravilhoso. Algo mais real que o real. Por isso, sim, existe uma ligação entre eles e acho que retirei mais ao aprender magia que cinema. 

Fez um filme romântico em 2014, passou para um marcadamente político a partir do subgénero “body swap” e agora faz um neo-western com elementos de “road movie” que também analisa temas como o racismo e questões de género. Esses temas são marcas que deseja continuar a explorar no seu cinema?

Há muito que o cinema de género interessa-me e adoro quando os géneros se misturam e criam algo completamente diferente do que esperamos, até porque isso joga com  a nossa perceção da história do mundo. Andei a vaguear por diferentes géneros, não porque gosto de um em particular, mas por questionarem a própria história, o que esperamos dela e do mundo à nossa volta. A escolha também teve a ver com o contexto sul-africano, pois é uma forma de batalhar contra a perceção global do mundo de que os filmes africanos são uma espécie de género por si só. Uso os filmes de género para as pessoas escutarem, levarem a sério e entreterem-se com histórias que à partida não esperariam que o fossem. 

Quanto aos temas políticos nos meus filmes, muitas vezes não é intencional, mas quando os faço penso nas coisas mais importantes que sinto que posso abordar; nos temas mais importantes que na época afetaram mais a minha vida. Claro que desta maneira acabamos por ser políticos de alguma forma, mas gosto quando o cinema de género e a política se cruzam.

Todos os seus filmes são muito estilizados, com uma estética muito particular. Como definiria o seu trabalho estético e influências?

Não sei bem como descrever ou fazer um resumo da estética dos meus filmes, até porque os vejo a todos de forma bastante diferente. Claro que há muitas coisas em comum, fetiches que tenho como a música pop, cores brilhantes e particular gosto por escolhas de moda e guarda-roupa. É interessante dizer que o meu cinema é muito estilizado, pois na realidade as minhas influências vieram de cineastas que são assim. Quando comecei a interessar-me pelo cinema, o Baz Luhrmann tinha feito o “Moulin Rouge”, um filme que não gosto particularmente agora, mas que na época teve uma enorme influência em mim. Ao vê-lo, fiquei espantada com o poder do cinema. Também fui muito inspirada pelo realismo. Um dos meus cineastas preferidos desde sempre é o Mike Leigh. Gosto da forma como o cinema captura a vida real, mesmo que não seja a realidade em si. 

Acho que aquilo que gostaria que todos os meus filmes tivessem – e que acabam por ter de alguma forma – é um sentimento de real, de cru, mas igualmente uma forma estilizada. Acho que isso captura melhor a condição humana. Ter toda uma crueza, mas também uma sofisticação. Também tenho interesse em explorar até onde posso levar um meio como o cinema a integrar outros elementos, usando a linguagem visual, o movimento, a intimidade entre os atores e a câmara, e esticar isso até onde puder para ter um efeito mais poderoso e emocional junto da audiência.

No “High Fantasy”, que tem até um daqueles nomes e lettering dos créditos que parecem saídos da Disney, você embarcou no tipo de filmes “Body Swap” [em que as personagens trocam de corpos] para falar sobre adolescentes, questões de género e racismo. É um filme marcadamente político, não apenas uma história de entretenimento. Além disso, você filmou com um Iphone. Como foi essa experiência de filmar com dispositivos móveis em comparação com outras formas mais tradicionais de filmar que vemos no cinema?

Quando fiz o “High Fantasy” não filmava com câmaras padrão no cinema há bastante tempo, em especial porque não trabalhava na indústria, mas apenas em projetos bastante pequenos no orçamento. No meu filme “Love the One You Love” usei câmaras normais, do consumidor comum. Gosto bastante de câmaras pequenas, que facilitem o meu movimento e o da câmara. Quando penso em filmar algo, penso sempre em como posso contribuir para a herança do cinema, no que posso fazer que não se podia fazer antes. Para mim, uma das coisas óbvias agora é que pela dimensão reduzida e leveza das câmaras temos a possibilidade de as movimentar de formas que antes não eram possíveis. Por mais que respeite os cineastas de há 50 anos atrás, eles não tiveram esta oportunidade. Por isso, é natural para mim experimentar estas câmaras e ver o que podem acrescentar ao cinema. Nesse sentido, trabalhar com uma câmara destas não fez nenhuma diferença. Sim, era um telefone, por isso foi um pouco diferente, mas pareceu-me uma progressão lógica. Além disso, nesta história em particular, fazia todo o sentido. É filmado com Iphone e isso faz mesmo parte da sua estética. É sobre uma geração de pessoas que se filmam a si mesmos quando passam as férias juntos. Fez todo o sentido tornar este elemento do storytelling parte da estética. Não o faria se não fizesse sentido. Mas mais importante que filmar com o Iphone era a abordagem em jeito “selfie” no filme. Os atores foram instruídos e tiveram a hipótese de filmarem eles mesmo partes do filme. Sim, filmei alguns momentos, mas a maioria foi filmada por eles. Isso levou a natureza colaborativa do projeto para outro nível. 

Li que você sempre quis fazer um western, mas que o projeto sofreu muitas mudanças desde o início. Pode explicar um pouco como foi da ideia original até o resultado final?

Originalmente, a ideia era simplesmente fazer um western na região do Karoo. Achava que essa região era excelente para fazer um western e queria ver como seria nesse registo um filme sul-africano. Mas desde aí, o projeto desenvolveu-se tanto que comecei a questionar-me porque queria fazer um western, o que havia neste género que gostava e não gostava, e o que poderia mudar ou acrescentar a ele de uma maneira que outra pessoa não conseguisse. Isso levou-me a envolver-me na questão do que é um western. Do que tratam? Qual a sua essência? Vejamos que é provavelmente o género mais fácil de classificar, pois temos tantos símbolos visuais associados a ele. Porém, quando o queremos definir é difícil classificá-lo. 

Tive muitas discussões em torno do que era um western e muita gente dizia que o “Flatland” não era. Para mim é, apesar de ter muitos elementos que não o são. Por isso, posso dizer que o filme foi mudando à medida que o meu entendimento do mundo também foi se alterando. Escrevi-o ao longo de 10 anos e  mudei muito nesse período. Fui mudando, mudando, alterando, alterando. Evoluiu da história de uma bomba atómica escondida no Karoo, deixada pelo antigo regime do Apartheid, até ao filme de agora.

Como escolheu os temas musicais para o filme? Por exemplo, temos em dois momentos distintos o “Butterfly” do grupo de bubblegum dance sueco Smile. Quando escreveu o guião, já tinha esse tema em mente? Quando escreve está sempre a ouvir músicas que podem integrar o filme?

 O “Butterfly”  é um tema musical que estava no guião desde o início e foi sempre uma ideia minha e sonho de o ter no filme. E agradeço aos meus produtores a hipótese de terem proporcionado a sua presença nele. Sempre estive obcecada com essa música desde que era uma adolescente e dançava muito naquele jogo arcadeDance Dance Revolution”, onde o tema ganhou muita popularidade. 

Nas histórias mais íntimas do mundo em que vivo gosto de colocar coisas com que estou muito conectada, em especial vindas da cultura pop, da música. Especialmente neste filme queria que a música fosse tão eclética com a que escolherias se percorresses a região do Karoo. Claro que ela não é representativa do meu gosto musical , mas queria ter esse ecletismo e uma sensibilidade pop que se referisse de alguma maneira aos grandes sonhos que temos na vida. Nós crescemos com estas referências pop, ou até diferentes, mas derradeiramente elas falam dos desejos que as pessoas têm para temas como a felicidade e o amor. 

Tudo o resto foi um processo mais gradual, mas sim. Normalmente estou a ouvir música enquanto escrevo. Não necessariamente músicas que podem estar no filme, mas temas que inspiram e me levam a ficar entusiasmada com o que escrevo. De alguma forma, com a música sinto os projetos mais reais.

E como criou a personagem daquela polícia? Não estamos habituados a ver uma polícia assim no cinema. Ao focar em espaços mais marginais, como a área de Karoo, queria evitar clichês e lugares comuns e construir personagens mais identificáveis ​​e reais?

Como este projeto começou há tanto tempo, é até para mim difícil recordar como certas ideias começaram a ser pensadas. A Beauty é um casos desses, não me lembro bem como entrou na história, mas presumo que foi no ponto em que estava a questionar o que era um western e as personagens que nunca apareciam neles. Vi nela o mesmo tipo de heroísmo que via em Clint Eastwood: alguém a quem nunca era permitido ser o protagonista deste tipo de histórias. Por isso quis ver algo que nunca vira antes e ela é uma personagem com quem me conectei. Ela tem muito de mim nela, mesmo que seja muito diferente. Naturalmente, a atriz que a interpreta levou-a para um novo lugar de forma maravilhosa. Mas todas as personagens femininas do filme têm algo de mim e identifico-me com elas de alguma maneira.

A referência a “Neighbours” [telenovela local] e muitos outros elementos – como as músicas, os posters no quarto de Poppie – revelam que gosta de adicionar easter eggs da cultura pop no seu cinema. Tem algum método para criar essas personagens e histórias e, em seguida, adicionar esses elementos? Esses elementos adicionados são – de alguma forma – autobiográficos?

Não diria que tenho um método de introduzir elementos da cultura pop. Coisas como o “Butterfly” simplesmente sinto que têm de fazer parte do filme, se o puder pagar(risos). 

Neste filme em particular queria ter muitas referências pop, até porque as três protagonistas são apanhadas na versão ideal delas mesmas, no tipo de pessoa que querem ser. Acho que muitos dos desejos, ambições e sonhos vêm da cultura pop. (…) A cultura pop é uma boa forma de encapsular isso tudo de idealizar uma versão de si mesmo e do mundo. É algo que me interessa abordar. A minha vida é influenciada pela cultura pop e mostrá-la é uma forma interessante de mostrar a rota da nossa vida, mesmo das coisas comuns e o que elas dizem sobre nós.

Além de abordar tópicos como a condição da mulher, violência doméstica, violação e racismo, também há um ponto no filme em que a xenofobia surge, com alguém criticando os somalis. Esse também é um dos pontos políticos que quis referir, embrulhando tudo num filme meramente de diversão e escapismo?

O comentário xenófobo que menciona não era um ponto que queria em particular mencionar, mas apenas capturar a complexidade da vida sul-africana. Certas coisas que introduzi no filme ouvi  durante a minha vida, ou observei, ou aconteceram-me. É uma mixórdia de coisas que vêm da minha experiência de vida. Infelizmente, a xenofobia faz parte dela, mas também as complexidades por trás disso. As razões pelas quais as pessoas são xenófobas não é um tema simplicado a diferenças branco-negro, boas ou más pessoas, mas algo mais complexo. Era isso que queria mostrar. E queria mostrá-lo num filme de género que muitos veriam apenas como puro entretenimento.

Sei que você também coescreveu o guião do “Rafiki”. Como surgiu essa colaboração e que desafios enfrentou nesta tarefa?

Conheço a Wanuri Kahiu há vários anos. Ambas fizemos curtas-metragens através de um programa da Focus Features em 2008. Os nossos filmes foram a Sundance, viajamos juntas e conhecemo-nos bem lá. Tenho imenso respeito por ela e pela carreira que criou. 

Mais recentemente tenho trabalhado com o produtor do “Rafiki” em dois projetos meus. Eles queriam ajuda no guião e aceitei. O maior desafio, provavelmente, foi nunca ter visitado o Quénia antes e estava por isso muito hesitante em fazer parte do projeto. Achava que não era a pessoa certa. Mas a Wanuri encorajou-me muito, fui para Nairobi e passei algum tempo com ela no local das filmagens, o que ajudou muito para eu contribuir para o filme.

Tem um novo projeto em mente? Pode nos falar dele e quando o poderemos ver?

Sim, tenho estado a trabalhar num novo projeto. Tivemos a sorte de conseguir filmar no ano passado em agosto. Chama-se “Mlungu Wam” (Good Madam) e estamos agora no pós-produção. Devemos terminar em março. É um filme de horror mas tem definitivamente uma história forte no tom político. É uma sátira de horror que vai mostrar a relação dos empregados domésticos e os patrões. Uma forma extrema e interessante de olhar para as relações raciais e de classes neste país. Deve ser lançado brevemente. Estou também a trabalhar noutras coisas, mas este é o mais completo.

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