Sara Forestier: “Quando se vive na miséria, a violência é o quotidiano”

(Fotos: Divulgação)

Nunca tive o desejo de trabalhar com um realizador em específico. Aquele desejo que normalmente os atores têm de trabalhar com um realizador, mas o único cineasta cujos filmes via e sentia uma pequena excitação, um aperto no estômago, como aquele que temos em termos amorosos, era o Arnaud Desplechin. Quer dizer, também sinto pelo Kechiche, mas já tinha trabalhado com ele. ” 

Foi assim que abriu a nossa conversa em Paris com Sara Forestier, a protagonista, ao lado de Roschdy Zem e Léa Seydoux, de “Roubaix, Misericórdia”, um policial com uma forte componente social que atraiu de imediato a atriz: “O Arnaud viu o filme que realizei, o “M” (2017), mandou-me uma carta e…Puff…. (risos) Foi amor. Reagi assim, como se fosse algo de amor… Na carta ele falava-me de um projeto. Deu-me o guião a ler e depois disso já não sentia apenas desejo, mas algo mais. Fiquei muito impressionada com o texto, com a tragédia.

Outro dos elementos que fascinou Forestier nesta história sobre um crime horrendo numa cidade humilde é o poder e o peso das palavras, algo que ela sentiu quando leu pela primeira vez o guião, e algo que atribui ao facto de Depleshin ser um fã de Bergman, de quem encenou uma peça no início do ano. “Ele mandou-me ver o Mónica e o Desejo. Não tinha nada a ver com a minha personagem do filme, mas mandou-me ver.

Apesar de reconhecer que mal leu o guião enviou uma imagem do filme “ A Paixão de Joana d’Arc” ao realizador, porque achava que havia algo de mártir na sua personagem, Forestier nega qualquer influência desta na construção da sua Marie Carpentier, afirmando que já não trabalha assim nos dias de hoje: “Na verdade, cada vez mais trabalho de uma forma mística se preferir. Leio o guião uma vez e não faço mais nada. No primeiro dia de filmagens, quando cheguei ao set, e vesti e calcei a roupa que tinha de usar, desatei a chorar. Saí do palco e chorei, chorei, chorei. Não existiram influências. Por exemplo, perto do fim do filme eu escondo-me muito, ponho a mão à frente do rosto, etc. Acho que é um pudor que tenho para não mostrar a personagem ao espectador. Quero dizer que se tivermos uma pureza, uma sinceridade, uma verdadeira relação com a nossa personagem, esse rigor vai devolver alguém verdadeiro. É assim que trabalho atualmente.

Miséria e violência

Um dos elementos que mais fascinou Forestier na personagem de Marie foi a “resignação”, já que “para ela  é normal não ser amada. É ela que ama, mas não recebe em troca.”Essa resignação, a fatalidade, o aceitar isso“, é já de si um indício da miserabilidade em que vive: “A grande miséria é a violência. É a violência do quotidiano. Não é apenas a miséria social. As pessoas são pobres, a vida é dura. Quando se vive na miséria, a violência é o quotidiano. É como uma dor física. É uma verdadeira dor. Quando não sabes onde vais dormir ou comer, aí está a verdadeira violência. Não é um conceito social ou intelectual. É violência. É como na guerra, um absurdo. Matamos pessoas, não sabemos bem porquê. Fazemos isso e depois questionamos porque fizemos isso. Para mim, a miséria é como a guerra. Uma guerra de coisas absurdas. Na violência há claramente um absurdismo. E há uma perdição na violência. (…) A prisão é brutal, a justiça é brutal.”

Arte e Censura

Podemos dizer que Sara Forestier ganhou notoriedade no cinema depois de ter trabalhado em 2003 com  Abdellatif Kechiche em “A Esquiva“. Numa época em que o cineasta se encontra debaixo de fogo, e em especial se fala de “male gaze” (olhar no masculino), Forestier afasta essa ideia, afirmando que falar nisso é já de si um ato de pressão e censura.

No comportamento quotidiano podemos criticar as pessoas, mas artisticamente é muito perigoso dizer como devemos olhar para rabos. Na verdade, isso para mim é censura.“, diz-nos, dando o exemplo de um dos seus cineastas favoritos, Bertrand Blier, onde admite que apesar de existir machismo e misoginia nos seus filmes, há coisas que lhe agradam e até a fazem rir: “Para mim, falar em “male gaze” é censura. É uma forma de nos dizerem como devemos olhar [para as coisas]. (…) Se ele quiser fazer um filme inteiro com um plano para um rabo, tem esse direito. Já a incitação à violação ou à pedofilia, isso é outra coisa, e é mais difícil de avaliar. Eu já vi filmes que moralmente colocam essa questão, como As Bailarinas (1974) (…) Há filmes que mostram cenas que se aproximam da cultura da violação que nos fazem colocar questões, mas isso não é “male gaze”. A incitação ao ódio e violência é punível. A incitação à violação, não sei como é em termos legislativos, mas tem igualmente violência por isso punível. A partir do momento em que não existe incitação à violência, não existe nenhuma razão para dirigir e orientar o olhar de alguém. Mesmo os filmes que me incomodam, defenderei sempre que não sejam censurados. Artisticamente não podemos meter regras [no mostrar] os rabos.”

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