Dobrar um filme é um trabalho muito mais difícil do que parece. Mais do que apenas tradução e sincronização de vozes em cima de uma obra original, o trabalho de dobragem, na verdade, é também um esforço de criação. O C7nema conversou com a diretora da versão portuguesa de “Hotel Transylvania”, Cláudia Cadima, o dobrador Tiago Retrê, responsável pela voz de uma das personagens principais, o “humano” Jonathan, e uma das grandes surpresas do casting, o ex-jogador de futebol Paulo Futre – que faz a voz de Murray, a Múmia.
Cláudia Cadima
O processo de dobragem é muito importante para que se mantenha o espírito do filme original. Quais são os pressupostos mais importantes do vosso trabalho para além, obviamente, da tradução?
Para mim é essencial manter o espírito do original, como está a dizer, assim como manter tudo tal e qual o realizador e os produtores imaginaram e da forma como os atores o fizeram. A única diferença é que ele é falado em português. O que acontece é que eu trabalho no filme com muita antecedência, antes de começarmos a gravar. Normalmente eu faço a adaptação do filme, portanto quando começa o processo de gravação eu já estou muito dentro do filme.
Nesta fase também ocorre a tradução…
Sim, também funciona nesta fase inicial. Quando os atores chegam já tenho tudo feito. Depois, como diretora de atores, trabalho com eles de maneira a que criem aquelas personagens – com o trabalho criativo deles, para além do sincronismo. É um processo muito giro. Mas não é fácil. Normalmente as pessoas acham que isso é apenas divertir-se…
Não é uma mera transcrição.
Não, é um trabalho de criação.
Este trabalho criativo envolve a direção de atores…
Sim, e falando neste filme em particular, eu tive bastante liberdade para adaptar o texto, para o tornar mais engraçado que o original. Foi um trabalho muito conseguido, com os atores, com a adaptação. Porque realmente ficou muito mais engraçado que o original.
Sério?
Sim! (risos) Mesmo!
Como foi a seleção dos atores?
Conhecendo os atores em Portugal, procuro sempre alguém que eu acredito que vai fazer bem aquela personagem. O Drácula, que é a personagem principal, foi feito pelo Fernando Luís, que está muito bem, assim como o Tiago (Retrê), que é o humano e está fantástico. E há a Joana, que quando gravou estava de bebê e a sua Mavis (filha do Drácula) está muito querida também. E depois há outras particularidades no elenco…
Como foi a escolha do Paulo Futre e a da Júlia Pinheiro?
Foi ideia minha. Eu ainda não sabia se ele ia aceitar, ainda não tínhamos feito a proposta. Mesmo assim eu já estava a adaptar o texto tendo em mente que ele ia fazer aquela personagem, portanto adotando as frases que ele costuma usar e que os portugueses conhecem. Eu própria já me divertia cada vez que ele aparecia no texto. Felizmente ele aceitou e correu tudo bem.
Com a Júlia Pinheiro foi por causa do timbre de voz dela. Foi proposital, aquela personagem (a mulher do Frankenstein) tinha um timbre muito agudo também. E eu pedi a ela durante a gravação que exagerasse ainda mais. Nos divertimos imenso na gravação, embora ela tivesse medo de exagerar. Mas o objetivo era esse mesmo. Ainda lhe pedi para dar mais um “toquezinho” e ficar meio pedante, uma tia de Cascais. Todos eles fizeram um trabalho extraordinário.
E você também faz de mulher do lobisomem…
É uma personagem pequenina, esqueço-me sempre (risos). Foram eles, a produtora dos Estados Unidos, como já conhecem a minha voz, que me pediram. Ela (a personagem) está grávida de uma ninhada de “lobisomenzinhos” (risos)… E já tinha imensos. Aliás, o lobisomem vai para o hotel para tirar férias.
Tiago Retrê
Como surgiu sua participação no projeto?
Eu já trabalho nesta área há alguns anos e fui fazer um casting. Pelos vistos correu bem (risos). E fiquei.
A sua personagem, de certa forma, é a mais importante do filme, pois vai funcionar como fator desestabilizador de uma ordem instituída…
Exatamente. Isso é o que faz o filme muito engraçado, porque ele era um humano que não sabe onde se está a meter, não sabe nada, e vai parar naquele hotel onde terá que lidar com todos aqueles monstros. Primeiro assusta-se, depois fica mais calmo e consegue aceitá-los. Essa diferença de energia entre o Jonathan e os outros todos é que faz o filme divertido.
É uma personagem muito diferente de outras que já fez?
Completamente. Em termos de comédia, dos tempos de comédia, dos atores. O ator que fez a minha personagem no original (Andy Samberg) era muito bom, e dobrá-lo foi fascinante e um grande desafio. O desafio é seguir a mesma linha que ele. Aprende-se a fazer, a ouvir, a saber como eles fazem.
O desafio é captar o espírito do original…
Exatamente, mas criando. É um trabalho criativo ao mesmo tempo. A linguagem e a maneira de falar ficam completamente diferentes. As entoações portuguesas são diferentes e isso torna o trabalho complexo e muito difícil fazer.
E como vê a diferença entre o trabalho de ator na dobragem e num meio tradicional?
Nós aqui trabalhamos com a voz e eu acho que um ator no palco também se serve da voz, mas aqui é como se fosse uma especialização. É a voz. É óbvio que o corpo acompanha. Quando estamos a fazer as dobragens o nosso corpo mexe-se. Mas em termos de representação não acho que seja muito diferente, porque estamos sempre a mexer-nos também. As pessoas não vêem, mas isso acontece… E isso nos ajuda a interpretar.
O que mais gosta no filme?
Eu sou suspeito, porque gostei do filme todo. Gosto muito de animação e esta está fantástica.
O cinema de animação teve uma grande evolução nos últimos anos, especialmente depois da Pixar…
Sim, antigamente as animações eram muito focadas para as crianças e agora não. É para toda a gente. As pessoas que costumavam ver desenhos quando eram mais novas agora continuam a ir ao cinema assistir animações. Tem que haver essa diversificação, não ser focado só para as crianças. “Hotel Transylvania” é um filme de família, completamente, dá para as crianças verem mas também para os adultos se divertirem bastante.
Paulo Futre
Como foi a sua experiência como ator numa dobragem?
Foi uma grande experiência. A primeira meia hora, quando comecei a gravar, foi muito complicada. Estás a ouvir a personagem, que neste caso era a múmia, em inglês, e depois tem que tentar chegar ao mesmo tom de voz do ator original. E tens que controlar a time code. Um segundo antes ou depois e tens que repetir. Ao princípio foi complicado. Mas como fui jogador de futebol, aquilo era mais ou menos como se fosse o aquecimento. Não sabia se ia jogar de pitons de alumínio ou borracha, se estava a chover, se a relva estava dura, curta. A complicação de sempre daquela meia hora antes de começar o jogo. Depois comecei a divertir-me. E adorei!
Como é que recebeu o convite?
O convite pensava que era uma palhaçada, uma brincadeira. Depois fui ao casting, vi as frases que tinha que dizer e pensei: por que não tentar? Então, na primeira frase, a Cláudia (Cadima) mandou logo parar: ‘está aqui o homem’! (risos). Está aqui a múmia!
E tem planos de voltar a trabalhar nesta área? Pelo menos uma sequela já está programada…
Sim, acho que vai haver a segunda parte. Eu adorei, foi completamente diferente de tudo que tinha feito até agora. Já tinha entrado numa telenovela, mas ali era o meu mundo, dentro do meio esportivo… Isto não, é muito diferente. Havia duas palavras minhas, que era o “sócio” e o “concentradíssimo”, mas o resto não tinha nada a ver. Apesar que a múmia, a nível de caráter, tem a ver comigo, é alegre, divertida, quer que os amigos estejam bem.
O Cristiano Ronaldo disse que quando encerrar a carreira quer ser ator. Que acha disso?
Acho muito bem! Tem tudo para ser. Tem corpo, inteligência, elegância. É um jogador acima da média e, por causa disso, tem que estar sempre a lidar com os media, o que o obriga a atuar todos os dias. Isso passava-se comigo. Em Espanha fui capitão da terceira maior equipa durante muitos anos e era a mais polémica. Estava sempre metida em confusões. E tinhas que atuar muitas vezes. O Cristiano muitas vezes atua. Se está triste diz que está contente, e vice-versa. É o dia-a-dia. Portanto, se ele disse isso, sem dúvida que vai ser um grande ator.
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Making Of da dobragem portuguesa de «Hotel Transilvânia»
http://www.youtube.com/watch?v=IkwkGQwh77w
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