Festival de Cinema do Estoril

(Fotos: Divulgação)

 

Chegou ao final a segunda edição do Estoril Film Festival, sob a direcção do produtor Paulo Branco. Foram ao todo 14 filmes em competição oficial, e 15 filmes fora de competição, que incluiram ante-estreias de filmes como os de Woody Allen (“Vicky Cristina Barcelona”) e Jonathan Demme (“Rachel Getting Married”) – ambos excelentes filmes de retorno dos respectivos realizadores, dos quais se falará melhor brevemente.

Dos vencedores, vimos apenas “Shultes”, um filme curioso e interessante com um ritmo bastante próprio (i.e. pode-se tornar demasiado lento para muitos) sobre um carteirista que necessita de guardar informações num bloco de notas. Ao longo de quase duas horas, acompanhamos a sua vida algo monótona apesar de tanto roubo pelo meio, e vamos-nos apercebendo de um homem solitário que vive à base de notas como memórias e de documentos que vai encontrando a partir das carteiras que vai roubando. O momento mais magnético em todo o filme ocorre precisamente com o visionamento de uma cassete de uma rapariga cuja carteira tinha tirado recentemente. Resta saber se o prémio conquistado faz com que ganhe mais visibilidade no mercado português e se encontrará uma distribuidora disposta a apostar numa estreia comercial.

Para além de sessões isoladas, houve também direito a três homenagens: aos realizadores Tim Burton e Bernardo Bertolucci e ao recentemente falecido actor Paul Newman, através de exibições de alguns dos filmes mais iconográficos das respectivas carreiras. O público teve ainda a oportunidade de se encontrar ao vivo com estrelas internacionais como o realizador Stephen Frears (“The Queen”), Agnès Varda (“Les Glaneurs et la glaneuse”, uma das figuras mais relevantes da “Nouvelle Vague”) ou o actor Louis Garrel (que participou em “The Dreamers”, de Bertolucci). Motivos mais que suficientes para desejar continuidade a este Festival.

 

André Gonçalves

 

O Diário do Festival de André Reis

 
Primeiro dia

Aguardava-se a oportunidade de ver o filme baseado na história do quem ficou conhecido como “Inimigo Público nº1” e aterrorizou os franceses nas décadas de 70-60. “Mesrine: L’instinct de mort” é o primeiro de dois filmes a estrear sobre Jaques Mesrine, um sociopata racista e violento.

Após ter regressado da Argélia, Mesrine sente-se perdido e sem objectivos. Naturalmente, vai acabar por se meter com as pessoas erradas e desenvolve um certo dom para a violência. Entre assaltos e assassinatos, Mesrine começa a criar um nome para si próprio.

Realizado por Jean-François Richet (autor do remake “Assault On Precinct 13” com Ethan Hawk), o filme é uma espécie de biopic sob a forma de um verdadeiro policial.

Extremamente bem realizado e com um Vincent Cassel no topo da forma, o filme revela-se um agradável momento de cinema ao qual facilmente se perdoam os erros. Infelizmente Vincent Cassel não compareceu à exibição como estava previsto no calendário.

Segundo dia

Destaque para a última obra de David Mamet (“The House Of Game”, “Spartan”). O filme, de pequena duração (99 min) revelou ser outro momento interessante. Sem ser uma grande obra, “Redbelt” beneficia de uma boa interpretação por parte de Chiwetel Ejiofor (“Children of Men”, “American Gangster”) e o argumento incorpora uma espécie de revivalismo daquilo que tornou a saga dos “Karaté Kid” num sucesso (claro que a temática é aqui tratada de forma mais adulta).

Terceiro dia

Obrigatória neste dia: “Edward Scissorhands”. As personagens, o ambiente, a música… Burton criou um conto intemporal como já não se fazem.

Quarto dia

Regresso ao Estoril para uma maratona de filmes “Burtonianos”.

Às 14h30 começou a projecção do melhor filme da saga do cruzado da capa. “Batman Returns”, filme visualmente genial. Poético, gótico e impresso de uma verdadeira personalidade, o filme é um hino ao mundo dos “comics” e foi genuinamente feito com amor e dedicação.

A sessão seguinte foi nem mais, nem menos, do que “Big Fish”. Não há dúvida do que Burton criou uma obra singular. Mistura de drama, comédia e fantasia, “Big Fish” é provavelmente o filme mais maduro de Burton até à data. A maratona chega ao fim com o filme “Sleepy Hollow”. Não é preciso fazer as apresentações. A fórmula Depp+Burton dá sempre grandes obras e este filme não escapa a regra. Após uma pausa de quase 4 anos (“Mars Attacks!” já era de 1996), Burton regressou ao seu estilo mais negro, baseando-se num conto muito popular nos EUA. A fotografia é magnífica e, como sempre em Burton, os filmes têm uma textura quase orgânica. Para ver e rever.

O festival

As salas, tanto no casino como no centro de congressos, tinham boas condições de visionamento e, dos filmes que vi, apenas os que tinham muito negros estavam demasiados escuros.

A retrospectiva Burton foi uma excelente ideia, não havendo registos em qualquer parte do mundo de uma exibição tão exaustiva da sua cinematografia.

Outro ponto positivo foi sem dúvida a homenagem a Paul Newman assim como a diversidade de obras que puderam ser vistas.

Infelizmente, o festival continua a ter uma dimensão muito pequena, sem verdadeiro contacto com o público, sem promoção adequada e sem apoio de grandes marcas. Basicamente, chega-se lá para ver um filme e mais nada. A restauração era praticamente inexistente (e o que havia tinha preços fora do alcance das bolsas comuns) e somente uma ou duas marcas marcaram presença para promover alguns produtos.

A exibição de filmes de algumas escolas Europeias também merece destaque.

Faltaram algumas MasterClass ou encontros com o público (mas como as estrelas não aparecem é difícil fazê-las).

A localização do festival no Estoril faz com que perca muito público já que a audiência está concentrada em Lisboa. Se o objectivo era ter um local com “glamour” que lembrasse Cannes, acertaram. Só falha a época do ano e as condições de acesso. Perde-se imenso tempo já que fica um pouco distante de mais.

Esperemos que para o ano melhore e quem sabe se a médio prazo não teremos algo que se torne importante no circuito dos festivais.

Palmarés (texto retirado do site do festival):

MELHOR FILME ESTORIL FILM FESTIVAL’O8
Wild Field, de Mikhail Kalatozishvili
108’|RU|2008
Um olhar duro e mágico sobre a estepe russa. Um filme que tocou o olhar do júri por uma beleza tão íntima como expansiva. A história de um médico de província que no seu consultório remoto descobre uma força perturbadora, uma ameaça invisível. Entre uma tradição de cinema russo clássico e uma modernidade ousada, Wild Field é a grande descoberta deste festival.

PRÉMIO ESPECIAL DO JÚRI – CÂMARA MUNICIPAL CASCAIS
Ex-aequo
Involuntary, de Ruben Ostlund
98’|SW|2008
O novo «enfant terrible» do cinema sueco encena um jogo de quadros humanos em pleno Verão rural. Situações limite filmadas num contexto de experiência realista extrema. Um filme sobre amigos, traumas do passado e as pequenas lições que aprendemos com os nossos erros. Ruben Ostlund revela-se em Portugal.

Hooked, de Adrian Sitaru
84’|RO|2008
Mais uma vez o novo cinema romeno triunfa num festival internacional. Um caso de charme ao primeiro olhar, Hooked foi uma das sensações no último Festival de Veneza e consagra o talento de Sitaru, cineasta que usa o recurso do vídeo como elemento subjectivo. Hooked é também um imenso filme de actores rodado com um minimalismo desconcertante.

PRÉMIO CINE-EUROPA
Shultes, de Bakur Bakuradze
100’|RU|2008
O palmarés do Festival volta a consagrar o cinema russo. Shultes é uma variação «noir» de um conto de companheiros improváveis, um carteirista desiludido e uma criança das ruas de Moscovo. Retrato cru de uma tristeza muito russa, Shultes coloca no mapa Bakur Bakuradze, realizador que sabe montar atmosferas cruzadas com ares de cinema americano clássico e a mais intrigante secura russa.

Prémio L’ORÉAL – JOVEM TALENTO
Sara Carinhas
A sucessora de Catarina Wallestein não esteve presente na gala de encerramento do festival mas enviou um discurso pela mãe Olga Roriz que recebeu o prémio no seu lugar.

 
 
André Reis

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