Depois de termos mostrado no dia 26 os melhores do ano para o C7nema [ver aqui], vamos à lupa ver as escolhas individuais de cada um dos colaboradores do c7nema que contribuíram para esse top. Aqui ficam as escolhas de André Gonçalves.
“Martha Marcy May Marlene”
Em Janeiro, quando estreou por cá, chamei-o um dos filmes mais singulares do ano. Doze meses depois, permanece na minha retina como uma experiência profundamente memorável. “Martha Marcy May Marlene” é simplesmente arrasador na sua concretização, e na maneira exímia como nos transporta para a mente de uma jovem traumatizada. E o seu final ambíguo é absolutamente arrepiante, capaz de desarmar o espectador mais céptico.
“Vergonha”
O vício do sexo é ainda hoje um tema amplamente gozado e menosprezado. “Vergonha” representa um esforço glorioso ao retratar um viciado em sexo (brilhantemente interpretado por Michael Fassbender, numa performance despida em todos os níveis) e a sua relação peculiar com o mundo que o rodeia. Outro filme difícil de se ver, mas mais difícil de se esquecer.
“Jovem Adulta”
Jason Reitman começa às cegas, mas “Jovem Adulta” é mesmo o seu filme mais bem realizado, liderado por uma performance audaz e arrebatadora de Charlize Theron, que se joga para o acidente de personagem que é Mavis Gary, como se tivesse ela própria vivido sempre aquela tempestade. Se “Juno” era um manifesto adolescente pró-vida do mais bem intencionado e “kidifofo” que há, então “Jovem Adulta” é o seu meio-irmão rebelde, ácido e incapaz de se redimir.
“Without” e “She Monkeys” (ex-aequo)
Duas grandes revelações de um festival Queer bem mais negro do que o costume, e que de certo modo representam o que é ser “queer“. Dois pequenos OVNIs, um sueco, outro norte-americano. Duas histórias com uma dose bem regada de cinismo, que nos hipnotizam rapidamente, quer pela dinâmica entre as personagens, quer pela singularidade da narrativa. Infelizmente, apesar dos numerosos prémios em outros Festivais mundiais, as distribuidoras portuguesas insistem em não pegar nestes filmes.
“Weekend”
Também um filme “queer“, mas bem mais convencional que os acima apontados. Ainda assim, é um filme que, movendo-se em águas familiares, consegue tocar em todos os pontos fundamentais.
Profundamente tocante no seu romantismo desencantado, é, se quisermos resumir, o “Antes do Amanhecer/Anoitecer” que o público LGBT tanto precisava – e não nos enganemos: esta temática de relações curtas e invisíveis é capaz de bater ainda mais forte neste público que na geração X que acompanhava Ethan Hawke e Julie Delpy pelas ruas de Viena ou Paris… também aqui, um caso gritante de um filme sem distribuição nacional. Digo gritante, porque tem tudo para ser um mini-êxito. Enfim…
“As Vantagens de Ser Invisível”
Foram poucas as pessoas a conseguirem capturar as angústias de se ser adolescente de uma forma tão boa e que chegasse a tantos adolescentes como John Hughes. Não se pode infelizmente contabilizar a quantidade de corações reconfortados, ou até de suicídios evitados pelo visionamento de qualquer um dos seus filmes, tão queridos por serem tão… genuínos.
Demorou umas valentes décadas, mas pode ser que a geração pós-MTV tenha finalmente o seu filme de culto para se agarrar por uns tempos, e pela primeira vez em muito, muito tempo, alguém tenha conseguido capturar para o “mainstream” algo de muito tocante, de tão honesto.
“As Vantagens de Ser Invisível” é sem sombra de dúvida dos filmes mais queridos vistos nos últimos anos.
“Looper”
O filme americano de grande orçamento do ano (que no fundo é um orçamento diminuto comparado com outros “grandes”: uns míseros 36 milhões de dólares). Pegando numa temática que me é pessoalmente muito querida (ficção científica distópica), e com uma diversidade de referências mais ou menos subtis a outros clássicos (“Blade Runner”, “Regresso ao Futuro”, “Exterminador Implacável”, etc.), Rian Johnson, que já tinha anteriormente dado nas vistas com o curiosíssimo “Brick”, constrói aqui o seu próprio clássico. Um filme sem medo de desiludir o espectador, como raramente vemos em Hollywood.
“Anna Karenina” e “Alps” (ex-aequo)
Dois filmes que usam a premissa “O mundo é um palco” para novos e imprevisíveis caminhos.
Na visão audaz de Joe Wright, com piscadelas de olho a Fellini e Baz Luhrmann, o palco onde se desenrola o clássico de Tolstoy é um palco físico em grande parte, representando a grande fachada da sociedade russa da época, e os próprios atores agem como se estivessem a representar para uma plateia ao vivo. Só quando as personagens saem da sociedade é que vemos paisagens exteriores. Não haja dúvidas que estamos perante o maior (e melhor) “bate-pé” num filme de época desde que Sofia Coppola decidiu meter All Stars e pós-punk no cenário de Marie Antoinette, personagem pela qual Karenina nutre mais de que um par de semelhanças, muito curiosamente.
Já no novo filme de Giorgios Lanthimos, a ousadia formal é capaz de ser ainda mais insana: podemos dizer, tentando reduzir o que vemos a uma “história”, que o filme contempla um grupo de pessoas (denominado “Alpes”, cadeia montanhosa “insubstituível”) que dedica parte do seu tempo a substituir recém-falecidos, de modo a poder minimizar a dor dos seus entes queridos. O “nonsense” e o extremismo que já tinha marcado o seu anterior “Canino” volta aqui a estar presente.
Em ambos os casos, aplaudimos o risco, e queremos voltar a estes mundos brevemente.

