O Festival Internacional de Cinema de Roterdão (IFFR) revelou os projetos selecionados para receber apoio financeiro do Hubert Bals Fund (HBF) este ano. O fundo, dedicado a apoiar longas-metragens de realizadores de regiões com indústrias cinematográficas menos desenvolvidas, selecionou 15 projetos entre mais de 900 submissões. Os escolhidos vêm de países de África, Ásia, Médio Oriente e América.
Desta edição, destacam-se três projetos ficcionais em desenvolvimento, já com trajetórias notáveis dos seus realizadores.

Mwadia, de Inadelso Cossa (Moçambique)
O filme marca a estreia em ficção do realizador moçambicano Inadelso Cossa.
Mwadia é uma obra com forte carga simbólica, que combina realismo mágico e surrealismo, refletindo sobre o passado colonial de Moçambique e os traumas presentes. A narrativa acompanha a jornada de uma mulher que parte para salvar o marido, num enredo que se estrutura como uma fábula.
Cossa já é conhecido pelo seu trabalho documental, sempre nas fronteiras com a ficção. O seu filme The Nights Still Smell of Gunpowder (As Noites Ainda Cheiram a Pólvora, 2024) foi apresentado no Berlinale Forum, CPH:DOX e Doclisboa, após o seu primeiro documentário, Memory in Three Acts (2016), ter tido a estreia mundial no IDFA.
Recorde-se que numa entrevista ao C7nema, quando questionado sobre o que vinha a seguir a “As Noites Ainda Cheiram a Pólvora”, o jovem moçambicano brincou: “Estou muito preocupado, pois não sei se a minha ficção não será chamada de documentário, ou se o meu documentário será chamado de ficção. Gosto muito da zona de fronteira. Não gosto de etiquetas. Certamente vou procurar novos desafios técnicos que acrescentem algo ao que quero contar, ao filme”.

Boca da Noite, de Stephanie Ricci (Brasil)
A brasileira Stephanie Ricci desenvolve Boca da noite, um retrato noturno vívido do centro histórico de São Paulo e dos seus habitantes. O filme acompanha Areta, uma mulher de 70 anos, numa aventura noturna à procura de um serralheiro (Chaveiro no Brasil) que trabalhe 24 horas.
O projeto continua a exploração da realizadora sobre movimento, marginalidade e tempo urbano. A sua curta-metragem Quem se move foi incluída no programa Short & Mid-length do IFFR 2025 e IndieLisboa, retratando o percurso de uma jovem brasileira em situação precária em Lisboa.

Lotus Feet, de Amanda Nell Eu (Malásia)
Centrado no tema da maternidade, Lotus Feet, da realizadora malaia Amanda Nell Eu, aborda a gravidez e o medo à maternidade através do corpo no horror fantástico. O filme inspira-se na figura do Penanggalan, uma criatura do folclore malaio que assombra mulheres grávidas e recém-nascidos.
Amanda Nell Eu já conta com reconhecimento internacional: a sua longa-metragem anterior, Tiger Stripes, apoiado pelo próprio Hubert Bals Fund, venceu o Grande Prémio da Semaine de la Critique no Festival de Cannes em 2024. Uma coprodução entre a Malásia e os Países Baixos, com Ellen Havenith da produtora PRPL, que também assinará a coprodução de Lotus Feet.
Lista completa dos projetos apoiados em 2025:
Amateur, Carlos Díaz Lechuga, Cuba, Espanha
The Appalling Human Voice of the Animals, Neritan Zinxhiria, Grécia, Albânia
Boca da noite, Stephanie Ricci, Brasil
Coumba, Mamadou Dia, Senegal
Girl With a Camera, Xiaoxuan Jiang, Hong Kong, China
The Immigrants, Suman Mukhopadhyay, Índia
Last Cow, Amil Shivji, Tanzânia, Canadá
Lotus Feet, Amanda Nell Eu, Malásia
Moto, Chris Chong Chan Fui, Malásia
Mwadia, Inadelso Cossa, Moçambique
Nobody to See Us, Renata Dzhalo, Cazaquistão, França, Moldávia
Orphaned Atlas, Timoteus Anggawan Kusno, Indonésia
The Rapture, Farida Baqi, Síria, Líbano, Alemanha, Países Baixos
Tears, Moise Ganza, Ruanda
Where Shadows Wait, Arya Rothe, Índia, Itália

