Morreu Mohammed Lakhdar Hamina, o único cineasta árabe e africano a receber a Palma de Ouro

(Fotos: Divulgação)

No mesmo dia (23 de maio) em que o Festival de Cannes lhe prestou homenagem com a exibição de “Chronique des années de braise” (Crónica dos Anos das Brasaspt; Crónica dos Anos de Fogobr) na secção Cannes Classics, o produtor e cineasta Mohammed Lakhdar Hamina, o único cineasta árabe e africano a receber a Palma de Ouro em 1975, faleceu na sua casa em Argel, aos 95 anos.

Nascido a 26 de fevereiro de 1934, em M’sila, no nordeste da Argélia, este filho de camponeses frequentou uma escola agrícola antes de partir para estudar em Antibes em 1952, onde conheceu a sua futura esposa. Juntando-se à resistência argelina contra o poder imperial francês em 1958, foi em Tunes que Mohammed Lakhdar Hamina aprendeu cinema, desenvolvendo uma carreira na 7ª arte onde frequentemente regressou ao conflito, combinando a luta pela independência da Argélia e referências à história da sua família, uma vez que o seu pai foi raptado, torturado e morto pelo exército francês.

Crónica dos Anos das Brasas

Após a independência (1962), tornou-se diretor de notícias da Argélia, cargo que ocupou até 1974. Paralelamente, assinou as primeiras longas-metragens de ficção. “Le Vent des Aurès“, selecionado para o Festival de Cannes em 1967, era inspirado no percurso da avó na luta para encontrar o filho. Venceu o prémio de Melhor Primeiro Filme e, em 1968, realizou “Hassen Terro“. Lança “Décembre” em 1973, evocando a tortura do exército francês através do pai. Seria em 1975 que receberia das mãos de Jeanne Moreau, presidente do júri de Cannes, a Palma de Ouro por “Crónica dos Anos das Brasas“, uma saga em seis partes, de 1939 a 1954, sobre o caminho da Argélia para a independência: um processo lento e ininterrupto de revoltas e sofrimento, desde o início da colonização em 1830, até ao “Dia Vermelho de Todos os Santos” de 1º de novembro de 1954.

Apesar de entre 1981 e 1984 chefiar o Gabinete Nacional de Comércio e da Indústria Cinematográfica da Argélia, continuou a fazer filmes, como “Rih al-raml” (Tempestade de Areia) em 1982, que foi dedicado à sua mãe e onde toca no destino das mulheres nos países muçulmanos. Seguiu-se “La dernière image“(1986), onde evoca a paixão de infância pela sua professora de francês (interpretada por Véronique Jannot), mas posteriormente inicia um hiato de 30 anos que só foi encerrado com “Crépuscule des ombres“, filme sobre um oficial francês que tem de confrontar a rebelião de um dos seus homens que se recusa a executar um combatente da resistência argelina.

Sobre a sua carreira e cinema disse: “Não pretendo escrever a história do povo argelino. Conto uma história. Mas cada um dos meus filmes é uma página na história da sociedade argelina, árabe, do Terceiro Mundo e até global.

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