“Qual é a sua ambição na vida? Tornar-me imortal e depois morrer.” – À bout de souffle” (Acossado, 1960)
À pergunta feita por Jean Seberg em “À bout de souffle” (1959), Jean-Pierre Melville, que substituiu Roberto Rosselini, numa pequena aparição no filme, dá uma resposta que define a vida e obra de Jean-Luc Godard.
Nome máximo da Nouvelle Vague, crítico de cinema transformado em realizador e autor, o franco-suíço nascido em Paris a 3 de dezembro de 1930 derrubou dogmas cinematográficos, uns atrás dos outros, atacando a “esclerose” generalizada da avaliação cinematográfica e a “tradição de qualidade” que “enfatizava o ofício sobre a inovação, privilegiava os realizadores estabelecidos sobre os novos e preferia as grandes obras do passado à experimentação“.
Bestial para muitos e besta para outros tantos, Godard passou a infância e juventude na Suíça, mas escolheu a Sorbonne em Paris para estudar Etnologia. Foi nessa época que começou a relacionar-se com François Truffaut, Jacques Rivette e Éric Rohmer, fundando com os dois últimos a Gazette du cinéma, onde publicou vários artigos com o nome de Hans Lucas, entre maio e novembro de 1950.
Trabalhou e financiou dois filmes de Rivette e Rohmer (Le quadrille; La sonate à Kreutzer), mas a sua família cortou-lhe o apoio financeiro em 1951. Foi um ano depois que começou a escrever na Les cahiers du cinéma, e viajou para a América do Norte e do Sul, tentando fazer o seu primeiro filme. Retornaria a Paris em 1953, antes de conseguir um emprego como operário de construção num projeto de barragem na Suíça. Com o dinheiro aí ganho, fez “Opération ‘Béton“, uma curta-metragem sobre a construção da barragem. Mais tarde, nesse ano, a sua mãe morre num acidente de viação na Suíça.
Em 1956 Godard voltou a escrever para Les cahiers du cinéma e também para a Arts. No ano seguinte trabalhou como adido de imprensa para a Artistes Associés, e fez as curtas “Charlotte et Véronique” e “Charlotte et son Jules” (1958), além de “Une histoire d’eau“, onde editou imagens não utilizadas de uma inundação em Paris filmada por Truffaut, transformando num filme em homenagem a Mack Sennett.

Apaixonado pelo cinema americano, Godard trabalhou em 1959 com Truffaut na publicação semanal Temps de Paris e começou a filmar “À bout de souffle” (O Acossado), filme que juntamente com “Os Quatrocentos Golpes” (1959) de Truffaut e “Hiroshima, Meu Amor” (1959) de Alain Resnais inauguraram o que viria a ser chamado de Nouvelle Vague.
Em 1960 casou-se com Anna Karina na Suíça, atriz com com quem filmou diversas longas-metragens, como “Uma Mulher É Uma Mulher“, “Viver a Sua Vida“, “Soldado das Sombras“, “Bando à Parte“, “Alphaville” e “Pedro, o Louco“. Com Brigitte Bardot, Jack Palace e Michel Piccoli filmou “O Desprezo“. Por lá também aparecia Godard, como assistente de um tal de Fritz Lang.
Vários filmes das décadas de 60 e 70 ficaram no imaginário coletivo e serviram de influência para várias gerações de cineastas. Aos títulos mencionados, acrescente-se “A Mulher Casada“, “Duas ou Três Coisas que eu Sei Dela” e “Masculino Feminino“. Trabalhou com Jane Fonda em “Tudo Vai Bem“; Isabelle Huppert e Hanna Schygulla em “Paixão“; Mireille Darc em “Fim-de-Semana“, e – claro – com Anne Wiazemsky, com quem teria uma relação perturbada, em “O Maoista“.
Foi participante ativo do Maio de 68, ficando na memória a sua célebre intervenção durante o Festival de Cannes para impedir a edição desse ano. A sua relação com Cannes é, no mínimo complexa, o que não impediu o seu último filme (O Livro de Imagem) de estrear lá ou de “O Desprezo” ter inspirado o poster da sua 69ª edição.

Na verdade, a polémica sempre acompanhou o autor, mas quando lançou “Eu Vos Saúdo Maria” em 1985 sofreu críticas como nunca antes, em especial da Igreja Católica, com o Papa João Paulo II a condenar publicamente o filme. Nada de grave para Godard, que usou essa condenação para promover o filme que viria a ser banido em vários países e até motivo de motins e desacatos, como em França e nos EUA, em vários cinemas. Nesse mesmo ano, em Cannes, o cineasta serviu de alvo a um atirador de tartes, que se autodenominava George, “o mutilador de ícones“, ou simplesmente Georges Le Gloupier. Na realidade estávamos perante Noël Godin, que quando questionado porque acertou em Godard, confessou que tinha sido por causa de “Eu vos saúdo, Maria“.
Nas últimas décadas, Godard continuou a explorar e contorcer a linguagem cinematográfica, sempre com um forte tom político intrínseco. Exemplo disso são “Filme Socialismo” e “Adeus à Linguagem“. Neste último, surpreende com o uso do 3D enquanto “arte” E NÂO “entretenimento”. O seu último projeto estreado foi “O Livro de Imagem” (2018), deixando na “gaveta” pelo menos dois filmes que se afiguravam como os próximos: “Funny Wars” seria gravado em três formatos diferentes, 35 milímetros a preto-e-branco, bem como 16mm e Super 8, a cores; e “Scenario“, que teria um estilo visual mais próximo do vídeo, sem imagens de 35mm.

“Estou a terminar a minha vida no cinema – sim, a minha vida de cineasta – com estes dois guiões. Depois, direi ‘Adeus, cinema’“, disse Godard em junho de 2021. A morte chegou antes de os concretizar, mas a sua obra e persona tornaram-se imortais na História do Cinema.
E isto mesmo que outros grandes nomes do cinema, como Ingmar Bergman, o criticassem duramente em vida: “Nunca tirei nada dos seus filmes. Sentem-se construídos, falsamente intelectuais e completamente mortos. Cinematograficamente desinteressantes e infinitamente chatos“.

