Festival Política está aí para combater a desinformação

(Fotos: Divulgação)

É com o combate à “Desinformação” como grande destaque que arranca hoje, 21 de abril, o Festival Política, certame que decorre no Cinema São Jorge, em Lisboa, até ao próximo dia 24 de abril, e segue depois para Braga (5-7 de maio)

Com 22 filmes programados, além de sessões de humor (Hugo Van der Ding), exposições de fotografia (de Pauliana Valente Pimentel), performances (“Negras“, que junta Sílvia Barros na música e o colectivo Mulheres Negras Escurecidas), além dos habituais debates e conversas, o evento tem ganho destaque nos últimos seis anos no panorama nacional.

E embora Lisboa e Braga sejam as cidades por onde o festival vai passar no imediato, fica a promessa de novidades para o último trimestre deste ano. Foi isso mesmo que os directores artísticos do Política, Rui Oliveira Marques e Bárbara Rosa, nos disseram numa entrevista.

Desde 2017 que o Política faz parte do panorama dos festivais nacionais. Como observam a evolução do festival ao longo destes anos e como tem sido a “luta” para atrair o público?

Rui Oliveira Marques: Quando o festival nasceu há seis anos ocupámos a sala-estúdio e a sala de cinema mais pequena no São Jorge com dois dias de programação. Nas primeiras edições ainda tínhamos de explicar o conceito e o nome escolhido para o festival. Agora já podemos afirmar que somos o principal festival dedicado à cidadania e direitos humanos do país com entrada gratuita. Agora o Festival Política prolonga-se por quatro dias em Lisboa, com mais de 20 atividades que decorrem também na Sala Manoel de Oliveira e no foyer do São Jorge. Além disso, teremos mais uma edição em Braga durante três dias já em maio. Claro que os dois anos de pandemia vieram condicionar a realização do evento e o contacto com o público. Das três mil pessoas que contabilizamos na edição de 2019, passámos no ano passado para as 1.200 pessoas em Lisboa e Braga, devido às limitações de horários e de presença de público em sala. Mas apostamos na transmissão de vários debates e espetáculos online, permitindo atingir uma audiência de nove mil pessoas.

Documentário sobre a morte de Alcindo Monteiro é um dos destaques do Política

O combate à desinformação é o tema central desta nova edição do Política. Qual a razão desta escolha e quais as dificuldades encontradas para a programação de filmes e outras atividades em torno deste tema?

Rui Oliveira Marques: Começámos a pensar no tema da desinformação como um alerta para a forma como as redes sociais ajudam a disseminar notícias falsas, preconceitos e um discurso anti-políticos e anti-instituições promovido por grupos muito bem organizados que pretendem manipular a opinião pública. Já tivemos esses exemplos com o Brexit, com a campanha eleitoral que levou à vitória de Trump, mas também mais recentemente com mensagens anti-ciência e anti-vacinação durante a pandemia. Interessa-nos, por isso, que o festival seja um palco onde se questiona como é que a desinformação pode pôr em causa a crença dos cidadãos nas instituições, como promove os populismos e as discriminações, e como pode afastar os cidadãos da participação na vida pública. Há depois a questão dos meios de comunicação social, que também estão a perder a batalha contra a desinformação. As próprias redes sociais apresentam-se como um viveiro de discurso anti-jornalismo, anti-informação independente. É preciso ajudar a valorizar o trabalho dos jornalistas e pagar por esse trabalho, comprando jornais, fazendo assinaturas digitais, para que haja sustentabilidade das empresas jornalísticas e dignificação da profissão de jornalista. Provavelmente, nunca como agora foi tão importante promover a literacia mediática como ferramenta de promoção da democracia.

A Guerra na Europa está também no pano de fundo desta edição. Como o conflito entre a Rússia e a Ucrânia influenciou a programação 2022?

Rui Oliveira Marques: O tema estará presente na sessão do dia 21 de abril, às 21h30, onde iremos exibir o filme “Quo Vadis, Aida“, de Jasmila Zbanic, que já esteve nomeado ao Óscar de Melhor Filme Internacional. O filme aborda a última grande guerra na Europa, a da ex-Jugoslávia, os refugiados, o papel da comunidade internacional e os momentos em que a proteção dos civis falhou, permitindo massacres como o de Srebrenica. Nesta sessão, que conta com o apoio do Gabinete do Parlamento Europeu em Lisboa, também será feita a evocação do vencedor do Prémio Sakharov 2021, o líder da oposição a Putin: Alexei Navalny.

Apesar do cinema ser o eixo central do festival, existe um cuidado em ir além dos filmes, dos registos audiovisuais. Como foi pensado, por exemplo, a presença do humor de Hugo van der Ding, a fotografia de Pauliana Valente Pimentel, e a performance “Negras“?

Bárbara Rosa: O nosso maior cuidado, pegando nas suas palavras, reside em selecionar conteúdos artísticos e protagonistas cuja obra e mundividência reflitam os valores democráticos que o festival promove e defende. Temos um especial interesse por quem emprega o seu talento e instrumentos pessoais e técnicos na defesa da igualdade entre as pessoas e no combate à discriminação de grupos populacionais, o que nos leva a convidar artistas como a Pauliana, e a propor curadorias à programação a outras organizações como a Bantumen, responsável por levar “Negras” ao festival. O humor surgiu no festival há 3 anos pela necessidade de ter um registo garantidamente divertido na abordagem dos assuntos incomodativos e sérios que recheiam a programação do festival e nesse ano o Hugo van der Ding aceitou o nosso desafio. Correu muito bem, a todos os níveis. O Hugo tem o talento especial de ensinar entre gargalhadas e subversão, era impossível não repetir o convite.

Um dos pontos importantes do evento é o “Cara a Cara com os Deputados”. Que pode o público geral esperar deste momento e como são pensadas e trabalhadas as escolhas dos presentes (deputados)?

Bárbara Rosa: A importância particular desta atividade reside na proximidade que se cria entre os eleitos e os eleitores, sendo um momento de diálogo e de troca de opiniões, ideias e sugestões entre os cidadãos e os políticos eleitos para a Assembleia da República. Ao longo das várias edições, uns e outros têm sido unânimes quanto à utilidade e gratificação da experiência. A escolha do/as deputado/as é da responsabilidade dos respectivos grupos parlamentares a quem é dirigido o convite do Festival Política.

Neste momento, o Política decorre em Lisboa e Braga. Há planos de expansão para outros locais no país?

Sim, a pretensão de levar o festival a outras cidades do país, além de Lisboa e Braga, foi forçosamente congelada devido à pandemia mas no último trimestre deste ano contamos concretizar esse objectivo. Anunciaremos oportunamente.

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