Dr. Mabuse, Caligari ou Nosferatu encontrariam um lar dos mais confortáveis no traço do nissei Julio Shimamoto, o mais expressionista dos artistas gráficos do Brasil, homem de culto nas BDs da América Latina pela sua maestria no uso do preto & branco nos desenhos, tendo no horror um de seus principais veios narrativos. De origem nipónica, a suas sagas sobre samurais – como “Musashi” e “Os Fantasmas do Rincão Maldito” – parecem uma mistura de dois Kurosawas do cinema: carregam o tónus épico de Akira e a pressão sanguinolenta de Kiyoshi. No terreno do assombro, ele assina jóias como “Dança Macabra” e “O Ditador Frankenstein”. Nelas, esbanja domínio sobre as cartilhas do medo, assim como faz em “O Ogro”, considerada por muitos críticos sua obra-prima, publicada em 1984, na edição 27 da revista “Calafrio”, e transformada em filme de animação em 2011, por Márcia Deretti e Márcio Júnior.
Aos 81 anos, esse paulista de Borborema tem um tratado sobre licantropia a ser lançado na internet, “O Lobisomem Errante” (à venda pelo sítio Mmarteproducoes.com). Esse trabalho inédito entra em venda no momento em que Shimamoto recebe uma das maiores honrarias da sua longeva carreira (iniciada em 1958): um tributo no 5º Rio Fantastik Festival Internacional de Cinema Fantástico, a ser realizado presencialmente de 7 a 13 de dezembro, no Estação NET Botafogo. Nele, há uma seleção competitiva montada sob a curadoria de Carlos Primati e uma mostra chamada de Clássicos Pandémicos, com curadoria de Mario Abbade, com clássicos estrelados por Greta Garbo, Bette Davis e Henry Fonda. Na entrevista a seguir, Shimamoto explica a dimensão horrífica de seu modo de criar graphic novels e contos curtos em BD.
Qual é o lugar do terror na sua carreira?
O terror entrou na minha vida por acaso logo no início da minha carreira de quadrinista. As revistinhas de terror vendiam bem porque o brasileiro é muito supersticioso e acredita no sobrenatural. Sobretudo o Brasil interiorano, e digo por experiência de ter nascido caipira e vivido a minha infância no distante sertão perto da fronteira de São Paulo com o Mato Grosso. Lá, falava-se do lobisomem das sextas-feiras. Falava-se do Papa-Figo (criatura devoradora de vísceras). Falava-se da mula sem cabeça. Falavam sobre aparições de fantasmas com a maior simplicidade, como quem fala do tempo. Voltemos ao início. No final dos anos 50, as editoras de São Paulo, que republicavam com sucesso BDs de terror importadas dos EUA, viram-se, de repente, mergulhadas em absoluta crise. A censura macarthista erradicou as BDs de crimes e de terror. Assim, a Editora LaSelva e a Editora Outubro decidiram pela produção nacional contratando roteiristas e desenhistas locais. Fui arrastado por essa maré. Até hoje, os leitores continuam atraídos por essa temática, tanto que não parei de receber pedidos de capas, ilustrações e BDs terroríficas.
De que maneira as tradições japonesas, em especial as sagas de samurai, marcam a sua obra?
A temática das artes marciais e samuraicas também me atraem muito. Os meusancestrais foram vassalos-guerreiros dos shoguns Oda Nobunaga e do seu sucessorToyotomi Hideyoshi (do Séc. XVI). Desde criança, ouvi do papai e, depois, da vovó narrativas sobre samurais e os nossos antepassados.
O que o preto e branco oferece de mais fascinante?
São cores clássicas de grande força expressiva; belas pelo contraste abrupto. Gosto de rever os filmes daquela fase do expressionismo alemão de F. Murnau e Fritz Lang, ou filmes noir dos anos 1940. E aprecio muito xilogravuras.

