Evento ímpar no panorama da cultura em Portugal, o Close-up | Observatório de Cinema uniu em Famalicão, de 15 a 22 de Outubro, “a família cinema”, ampliando a ideia que ao invés de exibir filmes em competição uns com os outros, prefere-se pô-los em diálogo.
“A edição anterior, em pandemia, elogiou a comunidade como uma força de resistência, a sala de cinema como uma espécie de abrigo. Nesta edição, fizemos um close-up à comunidade e encontramos em diversos filmes, do cinema do presente, várias famílias, como uma das estruturas basilares da sociedade que herdamos, na relação com a tecnologia e o futuro, mas também com o contributo das famílias artísticas”, explicou Vitor Ribeiro , que juntamente com a sua equipa preparou durante meses a programação do evento.
Segundo o próprio, a família de espectadores do Close-up teve uma resposta afirmativa ao programa, permitindo que todas as sessões encontrassem o seu público: “Nas escolas (com os vários graus de ensino), nos espectadores que se relacionam ora com a história com cinema e/ou com o cinema de autor, e nas relações do cinema com as outras artes, em especial com a música. Nos livros sobre cinema que apresentamos, destacamos a edição portuguesa de A Hipótese Cinema – Pequeno Tratado sobre a Transmissão do Cinema Dentro e Fora da Escola, que compila o trabalho de Alain Bergala, uma referência nas relações entre o cinema, a infância e a escola, que é uma base programática que o Close-up persegue.”

Um dos grandes destaques da programação deste ano foi uma retrospetiva em torno de Catarina Mourão, inserida na secção de cinema português denominada Fantasia Lusitana. Para Vitor Ribeiro, esta secção procurou “elogiar uma produção que foi capaz de produzir singularidades, dentro de um pequeno país, e revelar um catálogo de cinematografias que perdurarão”. E é aí que entra o cinema de Catarina Mourão: “Com ‘Ana e Maurizio’ (2022) voltamos a Goa e a ‘Dama de Chandor’ (1998), para confirmar uma filmografia de 25 anos de Catarina Mourão. Decidimos, então, mostrar o integral da obra da cineasta, curtas e longas metragens que participaram da transformação do nosso documentário, em viagens por Portugal (pela História que precedeu o 25 de Abril e pela nossa contemporaneidade), mas também de histórias de intimidade e de família. Para lá da exibição dos filmes, publicamos no programa uma recolha de textos que percorre toda a obra. O regresso aos filmes na partilha com a comunidade de espectadores (nas escolas e no público geral) certificaram a importância, a validade e a empatia da obra, que as sessões comentadas reforçaram.”
Um Laboratório de Cinema como impulsionador artístico
Um dos eixos programáticos do Close-up é a ideia de cruzamento de diferentes artes, mas também a criação artística, algo que se voltou a sentir este ano através da realização de três filmes-concerto, com os Glockenwise, na abertura, a apresentarem uma nova banda sonora que acompanhou a projeção de “Melodia do Mundo”, de Walther Ruttmann. “Para além da exibição de filmes que concretizam esse cruzamento, como ‘Um Corpo que Dança’, em que Marco Martins associou as histórias do Ballet Gulbenkian à Historia de 40 anos de Portugal, destacamos a oficina Entre as Imagens, conduzida por Tânia Dinis, que teve como base quatro filmes rodados em Famalicão: ‘Nacional 206’ de Catarina Alves Costa (2008), ‘Famalicão’ de Manoel de Oliveira (1940), ‘A Terra e o Homem’ de Manuel Guimarães (1969) e ‘Revolução Industrial’ de Frederico Lobo e Tiago Hespanha (2014)”, explica Vitor Ribeiro, acrescentando que “a partir desse património de imagens, duas turmas da escola D. Maria II (do 5.º e 9.º ano), produziram um exercício em que as suas memórias e as dos familiares se cruzaram e se relacionaram com essas imagens, num projecto que terá continuidade.”

Cinema de Comunidade
Pegando no “cinema de comunidade”, o Close-up exibiu este ano “Vizinhos”, em estreia absoluta. Para Vitor Ribeiro essa inserção no programa vem do diálogo entre todos os filmes do programa, ao invés da competição que existe em todos os festivais de cinema em Portugal: “Em edições anteriores procuramos contribuir para a produção de filmes que se relacionassem com os pressupostos de casa edição do Close-up e com a comunidade. Nesta edição, apresentamos Vizinhos, uma curta-metragem produzida pelo Teatro da Didascália e pela Red Desert, produtora de Pedro Neves. A apresentação do filme nasceu do diálogo com os produtores, num espírito de partilha de ideias de vizinhança, ao apresentarmos um filme rodado na comunidade do Edifício das Lameiras, que se dispõe a poucas centenas de metros da Casa das Artes de Famalicão. Esperamos ter condições para que estes retractos da comunidade tenham renovados capítulos em edições futuras.”
O futuro do Close-up
Nos próximos episódios do evento, o diálogo entre os diferentes elementos do programa vai prosseguir, preservando o cinema como uma “plataforma de diálogo com a comunidade de espectadores, no cruzamento da produção do presente com o dar a ver a história do cinema, através de enquadramentos reforçados pelas sessões comentadas”.
Para Vitor Ribeiro, o grande objetivo é “continuar a formar espectadores, na relação profícua com a escola, com alunos e professores” e participar do cruzamento fomentado pelo Cinema com a “produção de novos filmes que se relacionem com a comunidade, com a interacção com outras disciplinas, em que a música aufere de protagonismo, mas também no elogio da escrita sobre cinema e sobre a sua história”.
“Em Dezembro começaremos as réplicas do episódio 7 do Close-up, com mais propostas para escolas e público geral, que se estenderão pelo primeiro semestre de 2022, com a continuação das histórias do cinema de Antonioni e Pasolini, as famílias no Cinema e o fecho do integral dedicado a Catarina Mourão, onde perspectivamos exibir o seu novo filme. Mas já estamos a pensar, a trabalhar no episódio 8, que arrancará em meados de Outubro de 2023”, conclui.

