Close-up: um Observatório de Cinema como impulsionador artístico

(Fotos: Divulgação)

Foram apenas dois dias e duas noites as que estivemos presentes na Casa das Artes em Famalicão, onde decorreu de 16 a 23 de outubro o Close-up, mas essa experiência de viver o evento in situ revelou-se profundamente deliciosa, culturalmente estimulante e definitivamente a repetir no futuro.

Da exposição consagrada a Manoel de Oliveira, logo na entrada do edifício cultural, a espetáculos que faziam a ligação entre ciência e arte, passando pela apresentação de livros (entre eles o imperdível Ozu de Donald Richie), filmes-concerto (Sensible Soccers ou Filipe Raposo), além de diversas sessões de cinema introduzidas por figuras do panorama nacional, Famalicão transformou-se durante uns dias num casulo cultural de inestimável valor. “Uma das ideias que se tenta fazer, de maneira cada vez mais intencional, é essa ideia de cruzamento, mas também de criação artística”, diz-nos Vítor Ribeiro, que juntamente com a sua equipa nos recebeu de braços abertos e organizou o sexto “episódio” de um evento que se define como um “Observatório de Cinema” e não um festival. “A ideia é que este Observatório de Cinema seja também um impulsionador artístico, algo que começou logo do início, quando fizemos uma curta homenagem ao Kiarostami que se chamava ‘Cinco para Kiarostami’. E uma das coisas em que essa criação artística surgiu de forma muito sustentada foi através dos filmes-concerto, fazendo convites a bandas para produzirem novas bandas-sonoras para filmes.

Vítor Ribeiro e Daniel Pereira na apresentação da edição portuguesa de “Ozu” de Donald Richie

Na programação cinematográfica desta sexta edição, destaque imediato para a exibição de vários trabalhos de dois cineastas asiáticos consagrados, Wong Kar-wai e Hong Song Soo, “dois monstros” nas palavras de Vítor Ribeiro, os quais inicialmente, quando se começou a desenhar o programa, “pareciam apenas funcionar em contraste, mas que têm muito mais coisas em comum” do que aparentam. “Cada vez mais acho que são produtos de um tempo (…) Agora estamos numa era em que parece que não há nada para inventar, só podes reiventar. O Hong Song So faz muito isso, faz cinema sobre cinema. Não é por acaso que no caso do Wong Kar Wai a sua obra murchou nos últimos tempos, e não sabes bem o que o futuro trará”.

Entre os filmes exibidos encontrámos “Ao Sabor da Ambição”, “Dias Selvagens”, “Anjos Caídos” e “Chungking Express”, do cineasta de Hong Kong nascido em Xangai (China), enquanto do sul-coreano tínhamos “Filme de Oki”, “O Dia em Que Ele Chega” e “Mulher Na Praia”. Todos eles foram recentemente (re)introduzidos nas salas de cinema português, revelando alguma dependência nas escolhas programáticas em relação ao que está disponível no mercado, mas acima de tudo são opções curatoriais que vão bem mais longe – e de forma pessoal – que seguir uma espécie de obrigatoriedade em acompanhar a política das antestreias que a maioria dos certames nacionais prática, com a ideia de “concurso” pré-estabelecido, e, de certa maneira “refém dos “números” de espectadores: “Acho que é um projeto muito particular do panorama nacional. Muitas vezes as pessoas acham que criámos este formato só para arranjar uma maneira de distinguir em relação aos outros, mas é um pouco ao contrário. Nós é que achamos que devíamos fazer assim e ele acabou por se distinguir.”

Houve ainda tempo nesta sexta edição do Close-Up para a exibição de filmes de Ozu (Primavera Tardia), sessões para a família (Aya e a Feiticeira; O Garoto de Charlot), um destaque ao trabalho de Basil da Cunha, inserido na secção Fantasia Lusitana, e uma viagem na mostra Paisagens Temáticas ao “cinema de comunidade”, uma das grandes apostas do evento. Foi aqui que foi exibido, entre outras, “Surdina” de Rodrigo Areias, e, em antestreia, “Operário Amador” de Ramon de los Santos, um documentário sobre a comunidade responsável pela formação do Teatro Construção em Joane, no período revolucionário. “É sobre um grupo de operários que, logo a seguir do 25 de abril, fundou uma companhia de teatro. Esta zona do Vale do Ave é eminentemente industrial. Eles eram trabalhadores de fábricas, podiam ter feito outra coisa qualquer, mas fizeram uma companhia de teatro. (…) O nosso objetivo [ao mostrar isto] é proporcionar mais criações e coisas novas. Contribuir para objetos novos. Isto pode chegar através dessas produções como também na exibição dos tais autores que queremos mostrar e não chegam à região.

E essa é mesmo uma ambição para o futuro do Close-Up, confessa Vítor: “Uma das coisas que queríamos fazer, até porque os festivais de cinema fazem todos aqueles warm-ups, era pegar num conjunto de parceiros no país e mostrar estes filmes que ajudámos a produzir. Além de mostrar essas intenções de produção, queremos também apresentar esta ideia de comunidade que vivemos aqui”.

O Close-up regressa em 2022 para um sétimo episódio.

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