Juliette Binoche: “Antes do maio de 1968, as mulheres eram submetidas à vontade do homem”

Yolande Moreau, Noémie Lvovsky e Edouard Baer acompanham Juliette Binoche no elenco de "Manual da Boa Esposa"

(Fotos: Divulgação)

Adiado consecutivamente devido aos vários confinamentos, “Manual da Boa Esposa” chega finalmente aos cinemas, depois de uma pequena passagem pela Festa do Cinema Francês em 2020. 

No filme de Martin Provost, Juliette Binoche é a estrela, interpretando o papel de Paulette Van Der Beck, a dona de uma escola de formação para boas donas de casas na década de 1960 que vê as suas certezas vacilarem quando o marido morre e fica falida. Obrigada a assumir toda a gestão da escola, ela vai ter de mudar e procurar viver sobre um novo registo de independência numa sociedade ainda regida por um pensamento arcaico da submissão no feminino.

Foi em Paris que conversamos com ela em 2019 sobre este projeto que finalmente encontra a luz dos projetores nas salas de cinema de Portugal.

Antes de mais, a sua personagem é bastante atípica em relação às que normalmente protagoniza. Foi divertido trabalhar neste filme?

Sim, foi, mas também muito trabalhoso, pois temos de adquirir aquelas emoções. Foi filmado no verão e estava muito calor, foi complicado.

O filme dá-nos também um olhar e um ângulo diferente sobre 1968. Pesquisou sobre esse período para mostrar a diferença da vida no campo em oposição à que acontecia em Paris?

Eram estilos de vida diferentes, mas tínhamos um documentário que nos dava a realidade que tinhas de transcrever para ficção. Paris esteve sempre muito à frente e aquela região onde a ação se passa, na Alsácia, é muito distante da capital. Existiam muitas diferenças entre as duas regiões. Sei disso porque vivi numa zona rural durante quatro anos. Fui dos subúrbios de Paris para lá e notei uma enorme diferença, como se estivessem atrasados 10 anos. 

Nos anos 50 e 60, antes do maio de 1968, as mulheres eram submetidas à vontade do homem. Era o marido que assinava os cheques, por exemplo. Era uma sociedade dominada completamente pelos homens..

Nasci em 1964 e em 1968 os meus pais lutaram pelas mudanças. Meteram-nos num colégio interno para nos proteger, especialmente pelo que acontecia em Paris.

Acredita que ainda existem homens, mas também mulheres, que defendem valores em que as mulheres devem se submeter aos homens e viver para eles?

Sim, sem dúvida. Acho que existe ainda muita gente que pensa assim, que nas suas mentes acha que a mulher deve ser submissa. Aprendi muito cedo a ser independente, provavelmente por causa da minha avó, que esteve numa instituição [para preparar mulheres para o matrimónio] pois não era do mesmo nível social do meu pai. Quando se divorciou, depois da guerra, ficou sem nada. Teve de aprender a sobreviver com dois filhos. A minha mãe assistiu a isso e inconscientemente sentiu o mesmo perigo de acreditar na vida perfeita de casal, com um marido e casa perfeita. Casou muito jovem, aos 21, e sentiu novamente a submissão de estar casada e de ter de pedir ao marido, o meu pai, para assinar um cheque para ir comprar qualquer coisa. Chegou a pedir-lhe para ter uma secretária, para poder escrever, pois era bastante intelectual. O meu pai não quis. Era algo que não entrava na sua mente, na sua educação. Quando se divorciou voltou a estudar e eu e a minha irmã começamos a aprender a ser independentes, a pensar em arranjar um emprego. Sou de uma geração que, por causa das gerações da minha avó e a da minha mãe, sempre soube que tinha de ser esperta com aquilo que a sociedade nos dava para vivermos como mulheres.

Manual da Boa Esposa

O casamento era assim uma maneira de posicionamento social…

Sem dúvida. Tu entregavas-te completamente aos filhos, à casa, às necessidades do teu marido. Algumas mulheres ainda o fazem. Mas depois, se existe um divórcio, adeuzinho e boa sorte. Nos anos 40 e 50, uma mulher sozinha, com 50 anos, abandonada, não tinha nada. No norte de França, onde já filmei, temos inúmeras mulheres com essa idade que foram abandonadas pelos esposos. Nunca estudaram, porque dedicaram-se ao casamento, e agora não têm nada. Mulheres que sentes que vêm do ambiente burguês e que de repente ficaram sem nada. 

Mas ainda existem muitas mulheres que acham que está tudo bem com essa dependência. Acha que a sociedade tem feito o suficiente para mostrar que podem ser independentes?

Sim, mas acho que as mulheres têm de acordar. Para muitas essa situação é uma zona de conforto. E pode ser uma zona de conforto não ter o desejo de fazer as coisas por si na vida, de ter independência. Tu tens de querer ser independente e algumas vezes a sua situação é de conforto. Mas tens de acordar e tomar riscos. Não é sacrificar e temos de acabar com essa ideia nas mulheres. É uma escolha.

Voltando ao filme, como foi filmar a parte musical?

A dificuldade para mim era como começava, como alguém com aquela mentalidade perfeccionista entrava neste formato de dança. Foi um percurso longo a percorrer e como imagina não filmámos as coisas cronologicamente, por isso a transformação foi ainda maior. O Martin estava ciente disso e fomos falando muito durante as filmagens. Eu perguntei-lhe. O que despoleta na personagem a mudança? Ele respondeu: o amor.

Pessoalmente senti que era o momento em que aquela rapariga quer suicidar-se. As miúdas que eram para ali enviadas carregavam muitos traumas, fossem eles da guerra ou da perda dos pais. Por isso tivemos de colocar um dispositivo para evitar essa ideia romântica, dela apaixonar-se assim de repente. Claro que o amor leva-te para outros sítios, mas para realmente mudar a tua forma de pensar tem de ser algo mais profundo.

Manual da Boa Esposa

O Martin trabalhou na sua carreira em muitos filmes centrados em mulheres. Acha que ele percebe as personagens femininas melhor que outros realizadores.

Ele já fez muitas personagens femininas maravilhosas e acho que percebe-as muito bem. Ele ama as mulheres e adora filmá-las. Nós passamos sempre nas filmagens por muitas discussões de trabalho, dependendo com quem trabalhas, mas as decisões tomada podem ir num sentido ou no outro. Um realizador também tem de acompanhar o que um ator sente da sua personagem. Não podia ser apenas o amor [que provoca essa mudança]. Tinha de haver algo mais. Foi uma combinação desses elementos. Nós inspiramos-nos mutuamente e não foi apenas um confronto de um contra o outro. 

O Martin tem um lado muito feminino nele, mas acho que trabalhámos com os dois pólos_ o masculino e feminino. Às vezes, um está mais desenvolvido que o outro, mas no que diz respeito ao Martin, acima de tudo ele trabalha com inteligência e sensibilidade. E desta vez queria fazer algo engraçado. Algo ao mesmo tempo profundo e verdadeiro, mas ainda assim divertido

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