No português do Brasil, “DR” é um jargão pop para “discussão de relação”, dinâmica onerosa do amor romântico – e mesmo dos amores livres ou dos amores fluídos – que servem como bússola temática a muitas das curtas-metragens exibidas pela animadora polaca Izabela Plucińska na 39ª edição da Bergamo Film Meeting, em Itália. O mesmo festival que festeja a carreira do alemão Volker Schlöndorff (Palma de Ouro por “O Tambor”) e da húngara Márta Mészáros (Urso de Ouro de 1975, por “Adopção”), em terras italianas, encanta o seu público com as invenções em stop-motion da realizadora de “7 More Minutes” (2007).
Em 2005, ganhou prestígio internacional ao conquistar um Urso de Prata, na Berlinale, pela curta “Jam Sessions”. Plasticina é a marca da sua estética, pontuada por análises da solidão, como se vê em “Esterhazy” (2009), onde um coelho testemunha a queda do Muro.

Aos 46 anos, Izabela estudou Belas Artes, especializando-se em Pintura, antes de partir para o estudo da animação, na lendária e Łódź Film School, de onde saiu Roman Polanski. Lá, criou as suas primeiras curtas, “Backyard” (1999), “Twin” (2001) e “On the Other Side” (2002). Os três estão na retrospectiva de Bérgamo. Em 2005, graças a uma bolsa de estudos, ela mudou-se para a Alemanha para estudar na universidade Babelsberg Konrad Wolf, onde desenvolveu “Jam Sessions”. Na sequência, criou a produtora ClayTraces, um pólo produtor de stop-motion.
“Izabela é uma destas artistas brilhantes que volta e meia lembra-nos das possibilidades infinitas da animação como linguagem”, diz César Coelho, diretor do Anima Mundi, o maior festival de animação do Brasil, onde o cinema da realizadora polaca sempre foi bem-vindo. “Usando massa de modelar, ela criou uma técnica de animação com esculturas em baixo relevo que associada à uma iluminação apropriada cria obras originais, muito impactantes e expressivas. Seus filmes tiveram uma grande e justa recepção no Anima”.
Na entrevista a seguir, a cineasta explica ao C7nema como expressar o mundo a partir de objetos animados quadro a quadro.
O que a plasticina oferece-lhe como potencial criativo no audiovisual?
Plasticina é como pintura a óleo ou como um desenho, só que gera uma experiência de total intimidade, tátil, uma vez que preciso enfronhar as minhas mãos no material plástico que tenho para esculpir formas. E esse enfronhar significa calor, literalmente. É na quentura da fricção que as formas se moldam. E isso dá-me subsídios sensoriais para a sensualidade que marca o cinema. Essa marca vem do processo e do meu interesse por histórias de relações afetivas que, muitas vezes, atomizam-se por problemas quotidianos.
Essa sensorialidade é notável na sua representação das personagens, mas o que dizer do aspecto fantasioso, que leva os corredores de seu “Marathon” (2008) a flutuarem e leva o protagonista de “Portrait en Pied de Suzanne” a ver seu pé ganhar vida autónoma?
Isso vem da predileção que nós, polacos, temos pelo grotesco. A ideia de extrair o absurdo de uma imagem instiga-nos. De uma certa forma, o que faço, ao falar de relações é explorar a dimensão afetiva das personagens. Por isso, quando animo, faço questão de moldar as expressões faciais dos bonecos. Os corpos ficam a cargo dos dois colegas que animam na minha pequena equipa. Mas o rosto é algo de muito significativo.
Quanto tempo e dinheiro você investe num filme, pela sua técnica de stop-motion?
Em geral, cada curta metragem consome uns três anos de trabalho, a contar da confecção do guião, sendo que a produção do filme em si, com os bonecos, leva cerca de um ano e meio de trabalho. “Portrait en Pied de Suzanne” custou cerca de 150 mil euros.
O que representa essa homenagem de Bergamo na sua trajetória profissional, uma vez que ela parece recontextualizar as suas criações, os seus bonecos de massa, como se fossem objetos de uma galeria, como se fosse uma exposição?
Estamos sempre a viajar por festivais, mas já tive essa experiência de retrospectivas antes, em Itália mesmo. Mostrei os meus trabalhos na Cinemateca de Bolonha, numa sala da Índia e no cine Arsenal, em Berlim. Bergamo abre um campo novo ao promover masterclasses, entrevistas e, sobretudo, encontros. Na Polónia, venho de uma linhagem, a das curtas, onde precisamos trabalhar como uma família. E, efetivamente, não existe competição entre nós. Os cineastas que fazem animação lá sabem o que os colegas conterrâneos estão a fazer e ajudamos-nos. Tenho muito carinho por muitas colegas do Brasil, como a realizadora Nara Normande, que fez “Guaxuma”.
O que esperar de “98 KG”, a sua nova curta, centrada em amores abusivos? E o que temos pela frente de projetos?
É a minha primeira experiência em desenho animado, e será exibida no Festival da Cracóvia (agendado de 30 de maio a 6 de junho). O meu maior desafio ali foi o trabalho com os tons de vermelho, e buscar toda a potência dessa cor. Embora radicada em Berlim, estou agora em Paris, onde vim trabalhar numa adaptação do romance “Joko Fête Son Anniversaire”, de Roland Topor, para fazer como curta de animação também.

