Já distinguida em Locarno com o Leopardo de Prata pela sua interpretação “Lo mejor de mí” (2007), e em San Sebastián com a Concha de Prata por “La Herida” (2013), o qual lhe valeu também o Goya de melhor atriz nesse ano, Marian Álvarez encontrou em “A Unidade”, a nova série do Canal AXN, um enorme desafio.
Baseada em experiências reais na luta contra o terrorismo, em “A Unidade” ela é Miriam, uma “metódica, atenciosa, profissional e dedicada” inspectora de um grupo de investigação que luta diariamente para travar o terrorismo jihadista. “É um daqueles projetos que – quando lês os guiões – agarra-te completamente”, disse-nos Marian Álvarez em entrevista esta quarta-feira, isto quando já se prepara para filmar daqui a umas semanas a 2.ª temporada.
Para além de revelar detalhes sobre a sua participação neste série “imprópria para cardíacos“, a madrilena revelou ainda os seus novos projetos e alguns desejos, como o de trabalhar com o português João Canijo, com quem há uns anos chegou a ter um projeto alinhavado.
O que a atraiu a trabalhar neste “A Unidade” e qual foi o seu maior desafio?
É um daqueles projetos que – quando lês os guiões – agarra-te completamente. E trabalhar com o Dani de la Torre é maravilhoso. Queria muito [trabalhar com ele], pois tinha lido uma série de guiões dos seus projetos anteriores. E o elenco que temos é dos melhores no momento. Interpretar estes polícias tão particulares… não tinha ideia. Não sabia que era assim, o trabalhar nas sombras, sem publicidade. Não fazia ideia que a vida deles era assim e quando comecei a investigá-los apaixonei-me. Gosto de contar o que é invisível, o que não se vê. É um projeto que te agarra por todas estas coisas.

E falaste com estes agentes, treinaste com eles? Como preparaste o teu papel?
Esta “Unidade” assessorou-nos em todos os momentos, sendo assim possível saber como trabalham. Foi ouro puro. Inclusivamente visitaram-nos nas filmagens. Foi um intercâmbio: viam o que fazemos e nós tivemos a oportunidade de saber como trabalham. Um dos objetivos da série é que interpretamos policias reais e não a visão americanizada que temos destes agentes. Quando os conheces dás-te conta que são pessoas como tu, com os mesmos problemas que tens. O que é grandioso neles é que nos salvam a vida todos os dias. Mas, acima de tudo, são pessoas normais e isso foi o que quisemos transportar para a série. Que o espectador visse que estes polícias podiam ser os seus vizinhos da frente.
A série foi um grande sucesso em Espanha. O tema do terrorismo está muito ligado ao passado de Espanha, primeiro com a ETA e depois pelos jihadistas. Achas que isso leva as pessoas a interessarem-se mais pelo assunto?
Como dizes, e bem, desgraçadamente temos antecedentes muito dolorosos com o terrorismo da ETA. Muitos destes agentes vêm desses tempos. A polícia antiterrorista espanhola é das melhores do mundo, instruído muitos países na luta contra o terrorismo. E depois fomos também duramente golpeados pelo terrorismo jihadista. O êxito destes policias não aparece nos jornais. Na imprensa, apenas aparecem quando as coisas correm mal, quando não conseguem travar um atentado. Não podemos esquecer que têm que antecipar o delito. Dar-lhes visibilidade é uma forma de lhes dizermos que estamos gratos pelo que fazem. Estes são os heróis que nunca vamos conhecer, mas existem.
E como foi a química, o trabalho com os outros atores? E também com o Dani de la Torre, que faz filmes muito energéticos, como o “De$conhecido”?
O Dani de la Torre é a pessoa mais tranquila que conheço (risos). É perfeito, pois há uma cena louca com helicópteros, etc, e ele está sempre tranquilo. Acho que é por isso que as coisas lhe saem tão bem, porque é relaxados e tranquilos que se fazem bem as coisas. Quanto ao elenco, a maioria já os conhecia, já tinha trabalhado com alguns e, pessoalmente, também tínhamos conhecimentos. É muito boa gente, muito trabalhadores e talentosos, o que torna tudo muito fácil. E o Dani deixam-nos improvisar muito.
Há muita improvisação, não é apenas ler o texto?
Sabemos o que temos de dizer, e há que o fazer porque é tudo muito técnico, mas oo Dani quer algumas pausas na realidade e que aconteçam coisas que vêm da improvisação. Muitas vezes improvisa ele (risos) e tentamos o seguir. Foi muito prazeroso trabalhar e agora com a segunda temporada, vamos a ver, voltarei a trabalhar com eles.
Tu já trabalhaste em cinema, em televisão convencional e agora no streaming. É diferente o processo de trabalho? Há uma diferença clara entre meios?
Quando fazes cinema, trabalhas numa produção cinematográfica, é tudo mais pausado. Temos mais tempo para preparar as coisas. Na televisão, em geral, é tudo mais rápido. Mas no caso de “A Unidade” deu-me a sensação que estamos a rodar um filme longo, que temos tempo para preparar as coisas, cuidando-se de tudo ao detalhe.
Pareceu-me mais uma produção de um filme de 6 horas que as outras produções para a TV em que participei, onde tudo era muito rápido. Aqui tivemos tempo para ensaiar, investigar e na rodagem mais tempo para preparar melhor tudo.
E estás preparada para uma nova temporada ou para muitas mais?
Oxalá muitas (risos). Começamos a rodar a 2ª temporada daqui a três semanas e promete muitos enfartes (risos). Quando li os guiões falei com o Dani e disse que ia enfartar com tanta intensidade. Se a primeira temporada já é intensa, a segunda não fica nada atrás. Acho que temos muitas temporadas pela frente, pois como dizemos: “o mal nunca descansa”.
E com esse trabalho no “A Unidade” vais continuar a rodar para o cinema ou não? Pergunto isto porque a primeira vez que te vi foi no “La Herida”, em San Sebastián. Encantou-me a tua interpretação e pensei que ias seguir uma carreira mais orientada para a 7ª arte, mas nos últimos anos surges mais na TV. O cinema é algo que queres continuar a fazer?
Depois do “La Herida” fiz mais filmes e com o Fernando Franco trabalhei ainda no “Morir”. Tiveram uma grande repercussão no meu trabalho, mas é mais difícil neste país fazer esse tipo de filmess. É um tipo de cinema que gosto mais, autoral, mas é muito difícil. Há poucos apoios em Espanha para estes filmes e deveria haver mais. Mas este ano vou estrear uma fita maravilhosa que se chama “Érase una vez… Euskadi” e que é um pouco diferente que o que costumo fazer. Mas digo-te: é um prazer trabalhar neste tipo de produções para televisão com grandes standards de qualidade. Não quero diferenciar cinema e televisão. Creio que o importante são os projetos, as personagens e as histórias que se contam. Mas também é verdade que, como espectadora, já não vou muito ao cinema.
E podes falar um pouco do teu papel em “Érase una vez… Euskadi”?
O filme fala dos migrantes dentro de Espanha, nos anos 80, que foram para o País Basco. Interpreto o papel de uma mulher de Granada, com um forte sotaque. Essencialmente segue a história de 4, 5 famílias de migrantes que foram para lá nos anos 80, que são os chamados “anos de chumbo” do País Basco, quando a ETA estava muito ativa. São famílias que tentam integrar-se na sociedade local. É um filme muito bonito. O ponto de vista do filme é o de 4 miúdos de 10-11 anos. Funciona como um conto.

Érase una vez… Euskadi 
Érase una vez… Euskadi
E falaste agora mesmo que gostarias de atuar mais no cinema de autor. Há alguém com quem queiras trabalhar em particular?
Ui, muitos (risos). Sabes, conheço o João Canijo, que é um realizador incrível do teu país. Há uns anos ofereceu-me um papel num filme que ia produzir. Depois não pode por falta de financiamento, e a minha personagem caiu. Mas confio que o João Canijo volte-me a chamar para outra das suas produções. Assim o desejo.
Há muitos autores com quem gostaria de trabalhar. Por exemplo, aqui em Espanha quero muito trabalhar com o Jaime Rosales. E ficas já com dois. 50/50%
E consideras um dia passar para a realização? É algo que te interessa, que estás já a estudar?
Bem, há uns anos diria que não. Que seria algo impossível, mas agora sinto que há uma história que não me sai da cabeça. O que se passa é que também é o tipo de história que gostaria de interpretar. E realizar e interpretar, não o farei. Este ano quero ver como posso pegar nesta história e, se tiver de a realizar, escolher outra pessoa maravilhosa para interpretá-la. Mas não sei, é uma hipótese. Não te digo que não porque não o sei.



