Rodrigo Aragão mostra no Fantasporto que Deus não é brasileiro, mas o seu cinema de terror é

(Fotos: Divulgação)

Wes Craven de Guarapari, município no litoral do estado do Espírito Santo, Sudeste do Brasil, Rodrigo Aragão vê na comparação com grandes mestres da fantasia sombria, como o criador de Fred Krueger, o reconhecimento de uma das mais criativas trajetórias entre os realizadores das Américas que se debruçaram pelo terror como forma de expressão. Em 2008, o seu “Mangue Negro” desatacou-se em mostras de género por utilizar efeitos especiais rudimentares com uma inteligência inegável. Passou pelo Fixion Sars Fantastic Festival, no Chile, e pelo Morbido Festival, no México, angariando fãs. “A Noite do Chupacabras” veio na sequência, em 2011, com mais coágulos derramados, chamando atenções no Festival Rojo Sangre, em Buenos Aires, e noutros eventos.

Mobilizando os média internacionais, mesmo sem conquistar vagas de respeito no circuito exibidor da sua pátria, ele viu o seu nome consagrar-se como um herdeiro do legado de José Mojica Marins (1936-2020), o Zé do Caixão, aclamado por filmes de culto como “Esta Noite Encarnarei No Teu Cadáver” (1967). Agora, de 23 de fevereiro a 7 março, ele terá uma responsabilidade de peso sobre os ombros: ser o único concorrente do Brasil na disputa de longas-metragens do 41.o Fantasporto. O evento está previsto para ocupar as duas salas do Teatro Rivoli, no Porto, se a pandemia deixar. E ele estará nelas com “O Cemitério das Almas Perdidas”, o seu mais rigoroso exercício na direção, capaz de ampliar seu polpudo currículo de vitórias.

Na minha última contagem, somei vinte cinco prémios, sendo quinze internacionais. Fiz ao todo seis longas-metragens e cinco curtas. Sobre a minha circulação pelos festivais, ao todo, é difícil dizer, mas devo estar chegando em duzentos”, nota Aragão, nascido em 1977.


Em “O Cemitério das Almas Perdidas”, Aragão realiza um feito histórico (em todas as latitudes do termo) na produção audiovisual brasileira, ao construir uma espécie de épico do macabro, com um domínio infalível das ferramentas do género no qual é um expert. Divido entre instâncias de tempo distintas, embaralhando memória, alucinação, passado e presente, o realizador narra a chegada do Livro de São Cipriano (literatura capaz de evocar energias das trevas) às Américas, pelas mãos de um jesuíta (Renato Chocair). O sacerdote é indiferente ao derramamento do sangue alheio e não mede esforços para alcançar o poder que almeja. Ao pisar em terras latinas, com o seu Português quinhentista, ele e os seus acólitos exterminam indígenas, usando o ocultismo de Cipriano como palavra de ordem, estraçalhando populações em massa. Destaca-se no bando, numa luminosa atuação, o violento soldado Homero, vivido pelo ator Roberto Rowntree. Homero está para este filme como Jaws (Richard Kiel), o vilão da mandíbula de aço, estava para a franquia “007”: ele é o braço armado do Mal. Na trama filmada por Aragão, Homero é a mão que balança o berço do demónio da Intolerância, conjurado pelo jesuíta ciprianista. Mas diante de toda a truculência que espalham, a Natureza reage, confinando-os Eternidade adentro numa calunga, um depósito de cadáveres. Eis que, eras à frente, esses seguidores do legado de Cipriano vão clamar pela jugular alheia de novo, atacando uma trupe circense que tem o ótimo Francisco Gaspar como motorista. Só quem pode enfrenta-los é um sonhador, Jorge (Diego Garcias), cujos devaneios têm o calor do sol.


Na entrevista a seguir, Aragão fala ao C7nema sobre como é gerar o assombro num país cheio de fantasmas políticos como o Brasil.

De que maneira “O Cemitério Das Almas Perdidas” condensa os princípios de horror do seu cinema e o que ele aponta sobre o folclore sombrio do Brasil? Onde entra i racismocomo um ideal de Mal na sua obra?

“O Cemitério das Almas Perdidas” é a base do universo que venho criando ao longo dos anos: é primitivo, repleto de magia, de lendas e de tipos populares bem brasileiros, onde o racismo, o preconceito e a sede de poder contrastam com atos de heroísmo, paixão e espírito de aventura. A ideia é estar sempre representado por tipos populares no Brasil.

Qual é a noção de heroísmo que demarca a sua obra? E qual é a concepção de vilania da sua obra? Qual é a ideia de Mal que rege o terror no seu país? Se Deus é brasileiro, como diz o ditado popular, o Diabo é o quê?

Gosto de mostrar heróis comuns a enfrentar vilões poderosos que estão em busca de poder derramando o sangue dos mais fracos. Acho que o cinema de terror sempre reflete os medos da sua época. E o Brasil atual tem muito o que temer. Diante disso, sei que Deus não é brasileiro e sei que o diabo é compadre do presidente.

Como são produzidos os efeitos especiais do seu cinema? Qual foi o orçamento mais baixo que você já teve num longa-metragem? E o mais alto?

Trabalho com efeitos especiais artesanais utilizando o máximo de criatividade para contornar as dificuldades típicas de um pais com um mercado subdesenvolvido – o que se tornou um diferencial nos meus filmes no mercado internacional. O meu orçamento mais baixo para uma longa-metragem foi em “Mangue Negro”: custou algo em torno de cinquenta mil reais (cerca de €7,7 mil). O meu maior orçamento foi o de “O Cemitério das Almas Perdidas”, que custou dois milhões e cem mil (cerca de €325 mil).

O que o Fantasporto representa para o cinema de fantasia? Qual é a relevância de representar o Brasil nesse evento? Qual é a sua relação com o terror português?

O Fantasporto é um festival lendário. É difícil explicar a emoção de apresentar um filme na mesma tela onde já passaram nomes como George Romero, Peter Jackson, Guillermo del Toro, David Cronenberg, entre tantos outros, que são verdadeiros heróis para mim. Então dá para imaginar a minha alegria quando recebi o prémio de melhor roteiro por “A Mata Negra”, em 2018, e a alegria de, agora, ser o único representante brasileiro na competição de longas-metragens com “O Cemitério das Almas Perdidas”. Sobre o cinema fantástico português, não o conheço o suficiente para uma análise mais profunda, mas sou um grande fã da curta-metragem de zombies “I’II See You In My Dreams”. Também assisti em festival uma coprodução muito boa chamada “O Caçador de Cabeças”, uma verdadeira aula de como fazer um bom filme de fantasia com pouco orçamento.

Quais são os seus próximos projetos e o que os streamings representam para os filmes que você faz?

Atualmente, estou a trabalhat numa webssérie de baixíssimo orçamento chamada “Assombrações”, contando “causos” populares do Brasil, além disso estou escrevendo um terror urbano sobrenatural chamado “Prédio Vazio”. Sobre os Streamings, TVod, SVod… essas são questões ligadas às distribuidoras, que, com certeza, terão de se reinventar para continuar vivas no meio a uma longa pandemia e a um desmontar de todo o mercado.

Que filmes de terror mais moldaram seu olhar?

Sobre os filmes que sempre levo no coração, destaco “Evil Dead”, “Morte Cerebral” (“Fome Animal” no Brasil) e “Um Lobisomem Americano em Londres”, além de mestres como Dario Argento, Lucio Fulci, Amando de Ossorio e José Mojica Marins.

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