Nomeado como melhor revelação/esperança masculina de interpretação nos Prémios Lumière, também apelidados de Globos de Ouro franceses, e com a presença quase garantida nas nomeações aos Césars, Alexandre Wetter, modelo andrógino que se destacou no mundo da moda a trabalhar para Jean-Paul Gaultier, é o nome que todos falam depois do seu desempenho em “Miss“, o mais recente filme de Ruben Alves [ler entrevista].
“Já realizei dois grandes sonhos, mas não limito as minhas ambições.“, disse-nos o jovem ator em Lisboa aquando da Festa do Cinema Francês, onde o filme abriu o certame.
Interessado em prosseguir no cinema, quiçá até tornar-se realizador, mas mantendo uma ligação ao mundo da moda, ainda que em diferentes moldes dos projetos anteriores, Wetter explicou-nos os seus sonhos, desejos, mas também como decorreu o processo de transformação – físico e psicológico – em Alex, o jovem que no filme de Ruben Alves tem a ambição – desde criança – em concorrer no famoso concurso Miss França.
Como é atualmente o trabalho no mundo da moda, especialmentes nestes tempos de pandemia?
No meu caso, pus um pouco a moda de lado quando terminei de trabalhar com o Jean-Paul Gaultier. Era o meu sonho Número 1 e tive dois anos para aproveitar e decidir o que queria fazer da minha vida, e foi aí que optei pelo cinema e encontrei o Ruben Alves.
O que se passa atualmente no mundo da moda, e sei através dos meus amigos, é que está tudo muito complicado com a Covid-19.
E como conheceu o Ruben?
Foi o Ruben que me encontrou nas redes sociais, no Instagram, pois quando fui manequim fiz muitos trabalhos na linha estética do que vemos no filme. Foi assim que ele me fez um “casting selvagem”. Eu não conhecia o Ruben de todo, nem o seu trabalho. Contactou-me, encontramos-nos, fez questões, e por aí fora. Fiquei bem impressionado e mandou-me ver o seu primeiro filme, “A Gaiola Dourada“. Vi o filme e adorei, surpreendeu-me muito. Ele achou que tinha talento e propos-me fazer um filme para cinema, e foi assim…
E fazer cinema é algo que queres para a tua vida?
Sim, agora sim. Antes não tinha a noção da amplitude do que é ser ator. Via isso de uma maneira superficial, como um manequim. No ator existe mesmo um trabalho interior, quando compreendes a trabalhar e fazer uma personagem. É super interessante, mudou-me a vida. Já não sou o mesmo rapaz que era antes de fazer este filme.
Mas antes do filme tiveste pequenos papéis em algumas séries, como no “Emily em Paris”. Como foi essa participação?
Foi muito interessante.
Mas há alguns problemas em França pelos estereótipos apresentados nessa série em relação aos franceses…
Bem, eu não vi a série (risos). Tenho um papel, bem cruel, de alguém que trabalha no mundo da moda. Esta personagem existe. Trabalhei nesse mundo e há gente assim. Mas claro, está construída à forma americana, um modo “too much”. Sim, toda a gente tem-me dito que a série é toda ela um clichê enorme, que é horrível (risos). Mas não a vi (risos) e não posso dizer nada porque seria injusto.
E como trabalhou com o Ruben para a criação da sua personagem?
Pelo menos durante dois meses tive de fazer muito, muito desporto.
Boxe?
Não, boxe não (risos). Outras coisas para substituir a predominância de certos músculos. E comer menos, para poder estar ao nível das outras mulheres. Comia estilo uma porção de arroz, legumes, água e ar. Muito ar (risos). E basta! (risos).
Era um regime militar… (risos)
Sim, e havia muito trabalho corporal a fazer. Por exemplo, esquecer todos os meus tiques do mundo da moda, tudo o que tinha aprendido com o Jean-Paul. Era preciso que esquecesse tudo, mesmo aquela forma dos manequins olharem para a luz. Foi uma desconstrução que ajudou-me a encarar as câmaras melhor. Esta era a minha primeira grande experiência no cinema…
Houve alguma personagem ou filmes que o Ruben sugeriu que visses para ajudar nessa construção?
Não. Ele ajudou-me muito, especialmente na parte de me explicar que a maquilhagem e o guarda-roupa não formavam quem era. Não era a maquilhagem ou o guarda-roupa que me fariam mais feminino. Mesmo sem nada disso, tinha de viver a 100% o feminino – ao contrário do que se passa no mundo da moda, que é o que vestimos que nos define e fornece aquela aura. Este trabalho foi muito longo e intenso. Curiosamente, o treinador disse-me – apesar de eu ter lidado com o meu lado feminino durante os anos na moda – que teria de me reconciliar com o meu lado masculino. (risos) Bizarramente, isso ajudou-me a entrar na personagem.
E como é o Ruben nas filmagens? Alguém duro? Por exemplo, é alguém que te faz seguir o guião em toda a linha ou tem abertura para adaptar o texto, dar espaço a alguma improvisação? (risos)
Não é duro, ou rígido, mas tudo é o que está escrito. Bem, em alguns diálogos ele dizia para eu falar as coisas com as minhas próprias palavras, mas sabia bem o que queria. Quando as cenas terminavam, significava que estava satisfeito. Ele é como um maestro, que gere toda a gente da mesma maneira, no mesmo pedestal. Tem uma energia incrível, era como o monitor da colónia de férias, que ouvíamos tudo o que ele dizia. Foi fantástico, mágico (risos).
Como primeira experiência num grande papel, foi mágica?
Sim, maravilhosa. Mudou-me a vida.

E tens novos projetos para o futuro?
Sim, tenho uma proposta para uma série que está em desenvolvimento. Também tenho alguns projetos pessoais. Por exemplo, escrevo. Escrevo e um dia, quem sabe, também irei realizar algo, provavelmente uma curta-metragem. Já realizei dois grandes sonhos, mas não limito as minhas ambições. Se um dia quiser ser realizador, porque não? Acima de tudo quero trabalhar num ambiente de liberdade. A moda dá-me isso, ao seu jeito particular, mas o cinema dá-me a hipótese de tentar tudo. É muito vasto. Mas também vamos ver como são as coisas neste tempo de Covid-19.
E fizeste uma pausa na moda, de momento?
Não, talvez até regresse um pouco, mas quero propor outras coisas. Uma nova etapa, até porque sou um novo homem (risos).
E vais continuar em Paris ou seguir nos EUA? Dou o exemplo da Laetitia Casta, que começou na moda e seguiu para o cinema. Ela manteve-se essencialmente na Europa, mas outros têm ambições transatlânticas.
Gostaria de experimentar os EUA, mas não é algo importante. Sou francês e tenho ligação à França. Claro, se me propusessem um papel extraordinário nos EUA, aceitava, mas as minhas ambições não passam forçosamente por deixar a França. Tenho muita coisa para fazer lá, sobre vários assuntos.
A personagem do Alex em criança tinha um sonho, o de ser Miss França. E o pequeno Alexandre Wetter? Tinha assim algum sonho para o futuro?
Quando era miúdo adorava o Indiana Jones, queria viver aventuras como ele. Na verdade, à minha maneira, vivi uma série de aventuras.
E agora, tens algum sonho?
Neste momento não vivo para sonhos, mas para o presente, esperando a estreia do filme. Tenho coisas em mente que quero fazer. O que é muito importante para mim é encontrar aquela sensação invisível, quase física… como explicar… Quando vejo o filme é algo que me preenche, é algo que me faz viver. Quando estava na moda já tinha sentido isso, mas no cinema essa sensação multiplicou-se por mil. Procuro esta espécie de adrenalina, como quando saltas de paraquedas. Tenho medo, mas depois…
Posso dizer que o meu sonho é que tudo isto termine bem e que o coronavírus desapareça (risos). E continuar a ser ator, isso é certo.
É isso mesmo que desejas?
Sim, de momento sim. Depois talvez ser realizador. Tenho muitas diferenças em relação à personagem que interpretei, mas tenho também ligações a ela. Quero continuar também a trabalhar em coisas que me digam algo.
E como realizador, há alguém te inspire?
Pela estética, há gente que fascina, como o Guillermo Del Toro, e evidentemente o Pedro Almodóvar.
E franceses?
Em França diria o François Ozon, o Klapisch e – evidentemente – o Ruben (risos)
Podes tornar-te o ator fetiche do Ruben, com um papel em todos os filmes dele …
Oh, meu Deus. Diz-lhe isso por favor (risos) Sim, mesmo um papel minúsculo num filme dele, quero! Pago para o fazer (risos). Dou o meu sangue. Não importa o papel, digo sim. Mesmo algo super difícil, em que tenha de perder 20 quilos (risos)
Como o Christian Bale…
Sim, adoro isso.
Considerarias fazer isso, perder muitos quilos, ou ganhar, tendo em conta os riscos de saúde?
Sim, é um risco para a saúde, mas ao mesmo tempo é algo muito interessante. Eu perdi dez quilos para este papel e havia urgência nisso, nesse trabalho físico. Aquela personagem é frágil, pois o seu corpo também o é. Pedimos-lhe muito: ser uma mulher, de parecer uma Miss, etc. São coisas que não basta corrigir na pós-produção, tens de fazer ali. É importante viver também através do corpo e sentir-se verdadeiramente bem. Adorei aquela demanda, o desafio, o perder músculo.
Vamos ver-te nos Césars nomeado a melhor revelação? Pensando no “Miss“, masculina ou feminina? (risos)
(risos) Um ou outro, teria um enorme prazer. Passo ao lado de tudo isso. Se a Academia decidisse isso, de melhor esperança feminina, mesmo sendo um homem, porque não?
Há muitos festivais que começaram a terminar com a divisão de género nas nomeações de interpretação. A Berlinale, por exemplo. O que achas disso?
Entendo que muitos acreditem que isso é uma evolução, mas não tenho bem a certeza disso. Sou muito agarrado aos direitos das mulheres e acho que – como é hábito – possa existir tendencialmente mais vencedores de um lado. Teremos, no futuro, de ver a proporção de mulheres e homens que vão ganhar.
Quando olhamos para os Césars, Oscars, etc, na categoria de melhor realizador, acontece o que acontece. É importante as mulheres estarem representadas, e temos normalmente muitos mais homens vencedores nessa categoria do que mulheres. Creio que o suprimir um prémio será mais perigoso para a diversidade, como habitualmente acontece. Sim, são boas intenções, mas acho pode não correr bem. Temos de ver mais à frente o que aconteceu.

