O nascimento de um realizador: Wagner Moura já tem data para lançar o seu ‘Marighella’

"Mariguella" estreia em Portugal em 2021

(Fotos: Divulgação)

Cerca de um ano e nove meses após a sua primeira exibição pública, no fecho da 69ª edição Festival de Berlim, onde rachou opiniões, mas causou boa impressão pelas suas eletrizantes cenas de  perseguição, o thriller político “Mariguella“, de Wagner Moura, ganhou esta semana o seu primeiro trailer de venda para o circuito brasileiro e uma promessa de data de estreia: abril de 2021.

Fala-se dele como sendo uma antítese de tudo o que atual governo federal apregoa, ainda que a luta retratada no seu roteiro remonte à ditadura militar dos anos 1960. Na Europa, o filme foi recebido com cisão de gostos, mas foi respeitado por todos pela maturidade com que um dos atores mais populares do Brasil – inclusive em âmbito mundial, tendo sido indicado ao Globo de Ouro por “Narcos” – passa ao posto de realizador, numa revisão da História. O lançamento do trailer na web incendiou novas polémicas e aqueceu o caldo da espera pela sua estreia, requentando debates iniciados na Berlinale 2019. 

Estandarte de controvérsia – pela coragem de apostar na dialética ao apontar a luz e as trevas da direita e da esquerda – e de virtuosismo, pelo seu ritmo narrativo digno dos bons thrillers de Costa-Gavras (como “Z” e “Estado de sítio”), “Marighella” funcionou (não oficialmente) para a reta final do festival alemão como se fosse um filme de encerramento. Aliás, um encerramento dos mais explosivos, para uma maratona de tónica política.

Exibido fora da competição ao Urso de Ouro, o filme agitou ânimos com a chance de ver o Brasil exumar o seu passado de farda, tendo o cantor e sazonal ator Seu Jorge no papel central. E ainda teve direito a uma atuação devastadora de Bruno Gagliasso (digno de aplausos e elogios em muitas línguas) como Lúcio, o delegado que caça o guerrilheiro. Para o eterno Capitão Nascimento de “Tropa de Elite“, os elogios ao seus atores e a sua técnica de narrar simboliza mais do que uma consagração artística pessoal.

Dirigi as cenas de ação desse filme como se fosse um thriller dos irmãos Dardenne“, disse Wagner ao C7nema em Berlim, ao comentar a dose farta de adrenalina da longa-metragem, referindo-se aos cineastas belgas conhecidos pelo seu realismo seco, em filmes de culto como “Rosetta” (Palma de Ouro de 1999). “Sinto que todas as personagens de um filme precisam ser vivas, complexas. E isso não vale só aqui neste filme. Uma longa-metragem que reforça a necessidade da resistência. O facto de ele se colocar ao lado dos que resistiram não o transforma numa narrativa maniqueísta de vilões contra mocinhos. A personagem do Bruno acredita no que está fazendo, lembrando um pouco o Capitão Nascimento. Era um material muito grande, que eu acabei cortando“. 

Na conversa com a imprensa de Berlim, Wagner frisou: “Eu não preciso defender Marighella: ele está lá com todas as suas contradições. É um homem negro que foi morto, dentro de um carro, pelo Estado, por defender ideiais democráticos e lutar por pessoas que são desassistidas. Depois de 50 anos, uma outra pessoa negra, agora uma mulher, a vereadora Marielle Franco, foi morta também num carro, pelas mesmas razões”, disse o ator e, agora, também, cineasta, na capital germânica.


Tratado na Alemanha com o status de popstar, não apenas pelo facto de “Tropa de Elite” ter ganho o Urso de Ouro, em 2008, mas pelo sucesso da série “Narcos” em todo o planeta, Wagner assume no seu filme um recorte de tons heroicos dos esforços de Marighella para combater os militares. Na trama, escrita pelo ator e por Felipe Braga, o poeta, deputado e militante baiano confronta a esquerda com uma discussão sobre a importância estratégica da luta armada. Acaba expulso do partido em que milita pela sua aposta num contra-ataque com tiros e bombas. Os seus feitos levam Lúcio (Gagliasso, numa atuação enraivecida, mas nunca esquemática) a ampliar o cerco, vigiando o filho de Marighella, Carlinhos, um menino.

A relação pai e filho é fundamental para mostrar que estamos diante de uma história de sacrifício. Ele se sacrificou para que Carlinhos pudesse viver num Brasil livre”, disse Wagner, destacando a dificuldade que teve para viabilizar financeiramente o projeto, tendo na Globo Filmes uma parceira essencial. “Esse projeto começou a ser  pensado em 2013, muito antes de ocorrer o golpe de estado que tirou Dilma Rousseff do Poder. Ele fala de como o Brasil resistia em 1968, 69, debaixo da ditadura. Um Brasil que busquei reproduzir com o máximo de fidelidade, mas que não aconteceu há muito tempo”. Várias vezes, durante a Berlinale passada, Moura falou sobre a falta de data de lançamento para “Marighella”. Mas o bom acolhimento no Velho Mundo, naquela projeção, preservou o interesse por ele. “Estou preparado para ser atacado por todos os lados”, disse Wagner, que, agora, vai ver finalmente o seu filme ganhar o público na sua pátria.

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