A meio de uma entrevista, na Berlinale, na qual o C7nema participava, para ouvir Philippe Garrel falar de “O Sal das Lágrimas” (“Le Sel des Larmes”), já em cartaz em Portugal, uma repórter do Leste Europeu e a tradutora de Francês x Inglês – responsável por ajudar quem não domina o “je t’aime” – engalfinharam-se numa discussão sobre o uso das palavras, numa discussão nociva ao filme. Velho de guerra nos ecrãs, na atividade desde 1964, quando assinou a curta “Les Enfants Désaccordés”, Garrel sabe que nestes momentos o melhor a fazer é flamular a bandeira da paz e lembrar as partes querelantes de que os verbos e substantivos raramente dão conta do significado poético que comportam.
Nesse ponto, as imagens – pelo menos aquelas que ele persegue – propõem-se a ser mais libertadoras. Por isso, é difícil classificar só como “triângulo amoroso”, ou quadrilátero, as situações que surgem no seu novo exercício de lirismo, nomeado ao Urso de Ouro em Berlim. É, sem dúvida, o seu trabalho de maior vigor plástico desde o seu inflamável “Os Amantes Regulares”, pelo qual recebeu o prémio de melhor realização em Veneza, em 2005.
Fruto tardio da Nouvelle Vague, o veterano realizador de “A cicatriz interior” (1972) e “A fronteira do amanhecer” (na corrida à Palma de Ouro de Cannes, em 2008) adota como seu protagonista, nesta volta ao écrã, um estudante francês aspirante a carpinteiro, Luc (Logann Antuofermo), siderado pelo seu velho pai (André Wilms). Luc apaixona-se por uma jovem de origem africana, Djemila (Oulaya Amamra), a meio de uma mudança de cidade. Muda-se para estudar, mas a paixão pela jovem vai alterar a sua rotina e libertar sentimentos que vão abrir feridas na sua relação familiar.
Aplaudido em San Sebastián, “O Sal das Lágrimas” reforça um modelo narrativo depurado pelo realizador de 72 anos há cerca de seis décadas. Na entrevista a seguir, o realizador analisou esse modo de ver a vida pelo prisma do querer.
O seu cinema permanece fiel a um projeto estético que o senhor carrega desde os anos 1960 de retratar o amor como política. Mas como é que se dialoga com as jovens plateias de hoje?
Dou aulas há bastante tempo e vejo que ainda existe a ambição de se quebrar com os paradigmas das narrativas. E fico feliz, neste momento de necessária discussão da igualdade de géneros, de ver as mulheres cineastas a ganharem um outro vulto, com gente a estudar Agnès Varda e Chantal Akerman. Há muitas grandes realizadoras que a juventude da qual pergunta está a descobrir, como é o caso de Noémie Lvovsky (de “A Segunda Vida de Camille”), que precisa ser mais conhecida.
“O Sal das Lágrimas” traz uma situação comum a muitos dos seus filmes que são os encontros fortuitos, com amores que se formam no acaso, por pessoas que se esbarram. Qual é o lugar do fortuito na sua obra?
É importante saber abraçar o que a vida nos oferece. Todas as mulheres com quem casei, conheci dessa forma, em encontros nas ruas. O amor começa onde ele bem quiser. O amor é uma força avassaladora que se pode cruzar contigo numa paragem de autocarro e iniciar, ali, um novo trajeto para a tua vida. Hoje, fala-se bastante de amor tóxico e sobre as consequências devastadoras do desejo, mas tudo em relação ao querer é da ordem do contágio, da angústia, do inesperado. Em ‘O Mal-Estar na Civilização’, Freud mostrou que certos códigos de conduta são exercícios subtis de dominação, uma linguagem de controle. O amor também inclui controle na sua microfísica relacional. Filmo para poder investigar essa condição de submissão no código que entrelaça as pessoas num jogo sentimental.
Onde um triângulo amoroso – substantivo recorrente na sua obra – desbaratina essa relação de submissão?
A monogamia é o modelo moral do amor por ser uma perversão explicada por instituições, como a família. De certa forma, as histórias que filmo são uma celebração do inconstitucional. E em “O Sal das Lágrimas” abordo esse tema pela lógica da deserção, pois um dos vértices abandona a sua posição na geometria do querer ao ficar em cima do muro no seu desejo. O Luc é governado pela sua cobardia.

Ainda cabe espaço para Godard, um dos seus termómetros éticos, na temperatura semiótica das lágrimas deste filme?
Descobri Godard quando tinha 13, 14 anos, e fiquei impactado ao notar o quanto ele, na década de 1960, já propunha uma equidade de géneros, representando as suas personagens femininas com uma grandeza rara.
Como foi a composição de quadro em “O Sal das Lágrimas” na fotografia de Renato Berta?
Na engenharia de um filme, a edificação não pára de pé se um arquiteto não interfere no projeto. A ideia no meu processo é unir Arquitetura e Engenharia, somando a poesia que temos, buscando uma certa fantasmagoria na conexão de diferentes olhares artísticos, como é a percepção de Renato da fotografia e a minha relação com o cinema a preto e branco. Frequentei a Cinemateca e o Louvre em paralelo, o que me fez entender o cinema como a arte pictórica que vem na sequência da pintura. O preto e branco remete-me aos filmes que me formaram, aos tesouros da era muda, permitindo que eu os homenageie ao mesmo tempo em que liberto o espectador dos vícios do Real, para soltar o seu imaginário. Falo de Stroheim, Abel Gance e o Luis Buñuel da fase surrealista, com “O Cão Andaluz”. E aprendi muito ao imergir nos documentários de Robert J. Flaherty feitos nos anos 1920 e 30. Com o belo “Nanook, o Esquimó” e “O Homem e o Mar”, ao lado de grandes ficções, cheguei à ideia do cinema de poesia.

