Miou-Miou: “Só me oferecem papéis de avó”

(Fotos: Divulgação)

Propõem-me bastante o papel de avó. Avózinha com netinhos. E cozinho e conto-lhes histórias, até que um dia morro e toda a gente chora. São assim, hoje em dia, os papéis que me oferecem”, diz-nos – entre risos – a veterana atriz Miou-Miou, protagonista de “Minha Querida Nora”, que chega esta semana aos cinemas portugueses.

Foi com ela, com Alexandra Lamy e com a atriz e agora realizadora Méliane Marcaggi que nos sentamos num quarto de hotel em Paris, poucas semanas antes da pandemia chegar com intensidade à Europa. Mal liguei o gravador, Miou-Miou levanta-se e sai do quarto. Todos sorrimos e questionamos, onde terá ido? Dois minutos depois, reentra munida de quatro garrafas de água. Pousa-as na mesa e dispara em tom jocoso: “Se não for eu, ninguém faz nada por aqui”.

Foi apenas a primeira de várias explosões de risos na sala. Aliás, toda a entrevista foi uma sucessão de piadas atrás de piadas vindas da parte de Miou-Miou que levaram mesmo Alexandra Lamy às lágrimas. 

Nascida como Sylvette Herry, Miou-Miou ganhou o seu nome artístico através de Coluche, um membro da trupe do Cafe de la Gare, em Paris, que defendia uma forma de teatro espontâneo. Estreou-se no cinema com “Le Cavale” (1971) e ganhou notoriedade por participar em obras de Marco Bellochio (A Marcha Triunfal), Alain Tanner (Jonas que terá 25 anos no ano 2000), Claude Miller (Amor Impossível) e, claro, Bertrand Blier (As Bailarinas).

Curiosamente, em 2000, Miou-Miou dizia em entrevista que iria para sempre  ficar conhecida como a rapariga de “As Bailarinas“, embora não quisesse ser a mulher de um só papel: “Naquela época, era constantemente solicitada a fazer a personagem da pequena loira engraçada com olhos negros e voz baixa”. Vinte anos depois volta a lamentar a pouca diversidade dos papéis que lhe oferecem, mas afiança procurar sempre mais: “Espero sempre papéis mais simpáticos. Tenho cinco filmes para serem lançados, espero que não saiam todos ao mesmo tempo. No fundo, tento escolher os melhores. Os papéis, os chapéus e os chocolates (risos)”.  Talvez por isso, e nessa tal demanda por papéis diferentes, a atriz esteja atualmente a filmar uma comédia de ação ao lado de Jean-Claude Van Damme.

Da Ilha da Reunião à Córsega

Antes de filmar Minha Querida Nora, Miou-Miou protagonizou uma outra comédia, “Lá Vamos Nós Outra Vez! (2018)”, ao lado de Camille Cottin e Camille Chamoux. “Passei de uma ilha com um vulcão e crocodilos durante dois meses, para a Córsega, onde apanhamos uma tempestade (..) e não havia TGV para fugir”, diz-nos a atriz com o seu sarcasmo habitual, levando novamente toda a mesa às lágrimas.

Nesta nova comédia, no centro das atenções está Louise (Alexandra Lamy), uma mulher que precisava de uma escapadela da sua vida conjugal desgastada pelo marido infiel. É numa viagem à Córsega que ela encontra Florent, o perfeito desconhecido para uma noite que parecia não ter consequências. Só que um quarto de hotel destruído e um homem morto na cama mudam os planos de Louise, que acaba a conhecer Andréa (Miou-Miou), mãe da vítima, que a torna sua nora à força.

“Eu tinha uma visão muito arcaica da viúva da Córsega. Vestida de negro, rugosa, uma imagem muito antiga e velha. Para mim não existiam viúvas na Corsega há pelo menos 30 anos [risos] Mas finalmente disse a mim mesmo, claro que há mais viúvas na Córsega e ela poderá ser colorida, fora daquela imagem que tinha, e por isso aceitei o papel”, explica Miou-Miou sobre a sua personagem, acrescentando que cabe aos atores dar vida ao que está no papel e que isso implica sempre incutir nela um pedaço de si e criar um mundo imaginário para o seu passado: “Por isso eu perguntei imensas coisas antes das filmagens sobre o passado da personagem, coisas que não interessavam nada para filme, mas que me ajudaram a cria-la”.

Minha Querida Nora” chega estreia esta semana nos cinemas.

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