À conversa com Chico Diaz, o Ricardo Reis de João Botelho e Saramago

Pessoa de desassossegos: Chico Diaz volta ao cinema como o Ricardo Reis de João Botelho e Saramago

(Fotos: Divulgação)


Um dos atores mais reverenciados do cinema brasileiro nos últimos 40 anos, premiado por longas seminais como “Amarelo Manga” (2002) e “Praça Saens Pena” (2009), Chico Diaz vai chegar aos ecrãs de Portugal adentro a partir de 1 de outubro à frente do esperado “O Ano da Morte de Ricardo Reis”.

Baseado no romance homónimo de José Saramago (1922-2010) sobre o desassossego de Fernando Pessoa (1888-1935) com um de seus heterónimos, a nova longa-metragem de João Botelho (de “Os Maias: Cenas da Vida Romântica”) extrai do ator de 61 anos o que promete ser a sua melhor interpretação. Luís Lima Barreto está a seu lado em cena, como Pessoa, fingidor de uma dor que deveras sente. Com base nos dispositivos literários de Saramago, Botelho fez regressar o heterónimo Ricardo Reis a Portugal, ao fim de quase duas décadas de exílio no Brasil. Na trama, voltamos a 1936, um ano depois da suposta passagem de Pessoa ao Além… o ano de todos os perigos, do fascismo de Mussolini, do Nazismo de Hitler, tempo da Guerra Civil espanhola e do Estado Novo de Salazar. Ali, o Destino, esse danado, põe Pessoa, o criador, diante de Ricardo Reis, a criatura. Duas mulheres, Lídia (Catarina Wallenstein) e Marcenda (Victoria Guerra) são as paixões carnais e impossíveis de Ricardo Reis. Na entrevista a seguir, Diaz fala das filmagens.

O que a imersão em Portugal trouxe de descobertas para a sua estrada como ator?

A imersão em Portugal me propiciou descobertas na minha estrada como “pessoa”, num estar em si e estar só, num modo de entender da reconfiguração do homem após confinamento… das memórias, do imaginário e dos afetos como pontos de fuga para uma  nova perspetiva . Uma forma de burlar os limites impostos pelo espaço, pelo tempo e pelo corpo. Esse é o tema do doc ensaio “Diário dentro da noite” (um filme feito por mim todo sozinho no confinamento, a partir de um texto do Campos de Carvalho) e também uma forma de me preservar do altamente tóxico ambiente brasileiro atual. Bom, falando do filme, antes de qualquer coisa, a própria estrada é a descoberta. Uma personagem com tanta potência poética, histórica e literária nunca me foi oferecida no Brasil. Confiar-me uma personagem de tanta responsabilidade deu-se fora do país, o que é curioso. Acho que a dramaturgia oferecida pelo Saramago exige do intérprete um profundo conhecimento da obra original e suas intenções. Ali, no filme, todo o dispositivo em volta era potente engenhoso e bem pensado: diretor, fotógrafo, figurinista…

Que caminhos foram desbravados no encontro entre duas formas de lidar com a língua portuguesa, a do Brasil e a dos patrícios?

Este é um caso particular, pois o universo é literário em todas as suas camadas: Saramago  traz Pessoa, que traz Ricardo Reis, que se espanta com a realidade que se apresenta e, daí, altera a sua poesia .Todos são trazidos – e, porque não – traduzidos pelo João Botelho em imagens. “Minha pátria é minha língua”. Confesso que me deparei, tardiamente, com esse cuidado, respeito e orgulho que eles, os portugueses, têm com a língua, fonte da qual sabem ser os cuidadores. Praticamente também resumiu-se em um esforço – grande, confesso – de encontrar a melhor forma de emissão oral para o Reis… um português que passou 18 anos no Brasil e retorna. Mantive a construção gramatical original à portuguesa, assim como neutralizei a oralidade e emissão brasileira. Não convinha arriscar nenhum voo maior pois a caricatura está ali ao lado.

Quem você descobriu ser Ricardo Reis e o quanto da alma brasileira ficou nele?

Não descobri, escondido que foi pelo Pessoa: alma brasileira que ficou nele era a minha, mas sem construção, havendo apenas o continente e a disponibilidade. Para o processo, a pergunta constante era: ‘como viver uma personagem que não era vivido nem por ele mesmo, senão por outrem?’. É linda a sua trajetória, não existindo para atender a um chamado do seu criador para, aí, realmente, deixar-se existir, no pouco tempo que tinha. Durante o percurso, ele, poeta olímpico que era, vai deparar-se(e se espantar) com a materialidade do mundo, com a carnação, com a tragédia da vida e com o grito dos homens, a ponto de mudar sua poesia

O que existe de mais particular… ou mesmo de exuberante… no modelo de filmagem de João Botelho?

É um maestro. Sem vaidades. Um homem de extremo rigor estético, de profundo conhecimento cinematográfico e literário, apaixonado pela sua língua e ciente do truque que o cinema é e traz.

Quais são os seus demais planos para o ano, como ator e como artista plástico?

Rapaz… está difícil planear qualquer coisa. Este ano já acabou, se é que algum dia existiu. Mas fora o lançamento do filme por aí, com o que se tem, pretendo apresentar uma versão banquinho e violão da peça “A Lua Vem da Ásia”, baseada em Campos de Carvalho, em Cabo Verde, no Festival Mindelact, pelo qual fui convidado no ano passado, em novembro. Vou, talvez, começar a ensaiar uma peça convidado pelo Teatro de Almada, ainda a confirmar. E continuo desenhando, diariamente, limitado pela falta de espaço. Sem atelier, eu me dedico a um formato menor, em guache.

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