Pátria de realizadores que transformaram o documentário em argamassa poética e aríete político, como Eduardo Coutinho, Helena Solberg, Sílvio Tendler, Joel Zito Araújo, Susanna Lira e Sabrina Fidalgo (entre toneladas de outras e de outros cineastas), o Brasil vai passar as suas narrativas audiovisuais da não ficção em revista a partir desta segunda-feira, numa maratona de debates batizada de Na Real_Virtual.
Participarão os documentaristas Belisario Franca, Cao Guimarães, Carlos Nader, Emilio Domingos, Gabriel Mascaro, João Moreira Salles, Joel Pizzini, Marcelo Gomes, Maria Augusta Ramos, Petra Costa, Rodrigo Siqueira e Walter Carvalho. Para conhecer a jóia teórica o que Mattos e Bebeto lapidaram, basta aceder a https://imaginariodigital.org.br/real-virtual/2020. A conversa inicial brota de um .doc sobre a falta de água – “Seca”, de 2015 – para abrir um colóquio sobre as artimanhas da observação.
O cardápio contempla as seguintes questões, filmes e realizadores:
Dia 20/7 – Observar o mundo – Maria Augusta Ramos. Filme: Seca
Dia 22/7 – A imagem questionada – João Moreira Salles. Filme: No Intenso Agora
Dia 24/7 – A poética do simples – Cao Guimarães. Filme: A Alma do Osso
Dia 27/7 – O tempo como matéria – Carlos Nader. Filme: Homem Comum
Dia 29/7 – O eu filmado e minha família – Petra Costa. Filme: Elena
Dia 31/7 – Retratos de artistas – Walter Carvalho. Filme: Iran
Dia 3/8 – Nos baús da História – Belisario Franca. Filme: Menino 23: Infâncias Perdidas no Brasil
Dia 5/8 – O filme-ensaio – Joel Pizzini. Filme: 500 Almas
Dia 7/8 – Estratégias narrativas – Gabriel Mascaro. Filme: Doméstica
Dia 10/8 – Por um cinema híbrido – Rodrigo Siqueira. Filme: Orestes
Dia 12/8 – Quando o real vira ficção – Marcelo Gomes. Filme: Viajo porque Preciso, Volto porque te Amo
Dia 14/8 – A periferia no centro – Emílio Domingos. Filme: Favela é Moda
Em 2019, Mattos encabeçou a Ocupação Eduardo Coutinho, em São Paulo, e lançou um livro seminal sobre estratégias de documentar, dedicado à obra e à vida do realizador de “Edifício Master” (2002). Já Bebeto – atualmente envolvido no projeto documental “Me Cuidem-se”, com Cavi Borges – tem no currículo poemas em forma de filme como “Caminho do Mar” (2018). A conversa a seguir desagua no rio da inquietação com os atuais desgovernos da cena institucional brasileira e tem como afluente mais luminoso a diversidade de processos artísticos.
De que maneira poética e política se fundem no rol de temas que vocês arrolaram para o simpósio e de que maneira as práticas de microfísica de poder (ou Poder) se alinham com as questões propostas?
Carlos Alberto Mattos: Embora a nossa curadoria esteja focada nas diferentes estratégias de abordagem do real, sem ênfase nos temas dos filmes, a poética e a política aparecem imbricadas em vários níveis. Por tratar de realidades, o documentário fatalmente se deixa afetar pelos fatos históricos e o estado da sociedade. Como separar as belas e dolorosas imagens que evocam a presença/ausência da irmã em “Elena“, de Petra Costa, dos caminhos que a ditadura brasileira levou sua família a tomar? Em “Orestes“, Rodrigo Siqueira cria um vínculo entre um episódio de traição durante o regime militar e uma tragédia grega. Emílio Domingos forjou, em “Favela é Moda“, um libelo político e estético em prol do reconhecimento das potencialidades alheias ao mainstream, que determina padrões de beleza e inserção social. O que é “No Intenso Agora” se não um olhar ao mesmo tempo poético e questionador de imagens geradas na efervescência política dos anos 1960? Em muitos casos, como o de “Democracia em Vertigem” (não incluído diretamente na programação), o cinema exerce um contraponto ao discurso dos poderes e é capaz de ser político em primeiríssima instância, sem deixar de ser obra de arte.
O que existe de universal e o que há de mais brasileiro nos filmes escolhidos?
Bebeto Abrantes: O que existe de mais universal em nossa filmografia é a riqueza das estratégias de abordagem do real. O “como” temos tratado os universos temáticos de nossos filmes. É claro também que a ampliação e a descentralização do fazer cinema em nosso país trouxeram novos olhares. As obras sobre nossas periferias, por exemplo, produzidas pelos próprios moradores, têm uma verdade, uma organicidade muito particular e que interessa ao mundo e a quem não mora nesses territórios. São olhares de dentro, íntimos, que trazem muito de nosso DNA histórico, pessoal e intransferível.
Carlos Alberto Mattos: Eu acrescentaria que os exemplos escolhidos pela nossa curadoria têm a virtude de não se enquadrarem no padrão mais convencional do documentário mundial, que é a reportagem expositiva baseada amplamente em cabeças falantes (talking heads). Acredito que a diversidade de abordagens e dispositivos seja uma contribuição brasileira a esse panorama. Ainda que nossos documentários raramente se debrucem sobre realidades de outros países (e aqui o filme de João Moreira Salles representa uma exceção), a forma de ver o Brasil os torna universais.
Qual seria a pedra fundamental da brasilidade no documentário feito no Brasil, ou seja, em que momento da História o Cinema do Real do Brasil assume uma identidade temática e formal própria?
Carlos Alberto Mattos: O Cinema Novo foi um primeiro divisor de águas na busca de uma brasilidade no documentário. A luz estourada de “Aruanda” (1960), o engendramento político de “Maioria Absoluta” (1964) e a mescla de ficção e documentário em (1974) podem ser considerados marcos nessa aventura. Mais adiante, “Cabra Marcado Para Morrer” (1964-1982) estabelece um ponto culminante, no qual a reflexão histórica e a construção de um formato novo geraram uma obra de profunda originalidade e inequívoca identidade. Eduardo Coutinho seguiria cumprindo esse papel nas décadas subsequentes, juntamente com outros realizadores fundamentais na construção de uma imagem documental do país, como Vladimir Carvalho, Silvio Tendler, Jorge Bodanzky, Sylvio Back, João Moreira Salles…
Quais seriam as principais interferências estéticas do streaming… e de certa medida do YouTube… na maneira de se consumir .docs e na maneira como a linguagem do cinema do real se adapta às plataformas digitais?
Carlos Alberto Mattos: Se existe uma estética própria do streaming essa é a estética da interrupção. Em vários sentidos. A interrupção causada pelas falhas de conexão, que produzem não só pausas e desistências, mas também interferências na qualidade e no fluxo das imagens. O filme gagueja e jump cuts involuntários são produzidos, interferindo sobre a fotografia e a edição dos trabalhos. Há também a interrupção das ideias, que se fragmentam numa produção, no mais das vezes, ligeira e superficial. Na produção documental, o que percebo é uma invasão cada vez maior do eu narrador, que apresenta e comenta o que filma. E ainda o predomínio do registo imediato sobre a elaboração, do efeito de atualidade sobre a reflexão ponderada e distanciada.
Que novos atores sociais a cultura digital apresentou ao cinema documental?
Bebeto Abrantes: O homem simples, o cidadão comum, na sua enorme diversidade de viver, de encarar seus conflitos, de revelar seus sonhos. Sobretudo o cidadão comum, tido como minoria. Aquele que por fugir ao padrão comportamental, social e cultural, é tratado pejorativae desigualmente. Claro, falamos das mulheres, dos pobres, negros, indígenas, LGBTQs e outros que desafiam o coro dos privilegiados.
Carlos Alberto Mattos: Junte-se a isso a “self-filmed-person”, que assumiu os meios de produção da sua própria imagem e foi capaz de distribuí-la com razoável amplitude através da internet. Esse novo ator/ essa nova atriz social quebrou os paradigmas da seleção e do interesse, antes monopolizados por cineastas, amadores ou profissionais.

