Sofia Bost: “No Cinema acabamos por ser o último filme que fizemos”

"Dia de Festa" chega aos cinemas nacionais esta quinta-feira, 9 de julho

(Fotos: Divulgação)

Depois de ser exibida na Semana da Crítica do Festival de Cannes, no Curtas Vila do Conde e no Festival de Nova Iorque, entre outros, “Dia de Festa” de Sofia Bost tem a sua estreia nos cinemas nacionais esta quinta-feira, inserida numa sessão especial –  denominada “três realizadoras portuguesas” – onde tem a companhia de Ruby” de Mariana Gaivão e Cães Que Ladram aos Pássaros” de Leonor Teles.

Estas três curtas em particular penso que formam uma sessão muito interessante que em nada fica atrás da sessão de uma longa”, disse-nos a jovem realizadora em entrevista, que em “Dia de Festa” acompanha os preparativos que uma mãe (Rita Martins) faz para o aniversário da filha. 

Como tem sido o percurso deste “Dia de Festa” desde que estreou em Cannes?

O “Dia de Festa” teve a estreia na Semana da Crítica, que foi a melhor coisa que podia ter acontecido ao filme. E também a mim, como realizadora, tanto pelas portas que abriu como pela injecção de confiança.

Foi o primeiro filme que fiz em contexto profissional e essa estreia para mim aconteceu de forma inesperada, Claro que tinha esperança que o filme fizesse um bom percurso a nível de festivais, para eu também conseguir progredir, mas não esperaca que [a estreia] fosse em Cannes.

Essa seleção foi um ponto de viragem muito importante para mim como realizadora. Foi uma experiência intensa e inesquecível, não só por estar em Cannes, mas pela oportunidade de conhecer outros realizadores, estabelecer contactos com futuras coproduções, o que também aconteceu e será importante para os meus próximos projetos. 

A nível de trabalho tenho agora uma maior facilidade em conseguir financiamento, pois o meu currículo ficou bastante melhor.

Ou seja, teve mais propostas depois disso para novos projetos?

Sim, claro, gera sempre um maior interesse de produtores e coprodutores internacionais. Mesmo durante próprio festival. Fui convidada para uma residência organizada pela Semana da Crítica para escrever uma primeira longa. Tudo isto são oportunidades únicas que sem este festival não tinham acontecido.

Em relação ao resto do trajeto do filme, gostei muito de estrear em Vila do Conde. Foi estreia nacional. Desde então tem estreado um pouco por todo o mundo. Também fui ao Festival de Nova Iorque, o que foi uma grande honra para mim, estar lá em exibição e de ir lá apresentar o filme. 

E agora, esta estreia em sala, em Portugal, é algo que não antecipava, por se tratar de uma curta. É tão raro as curtas estrearem em sala. É um grande final, embora não seja um verdadeiro final porque o filme continua em festivais.

E o que acha desta iniciativa, [juntar 3 curtas numa sessão], que até no cartaz explicita “três realizadoras portuguesas”? Acha que é uma iniciativa que deve continuar a ser feita, especialmente tratando-se de curtas, que normalmente não têm mercado nas salas comerciais?

Sim, nas curtas, o que costuma acontecer é que depois dos festivais nunca chegam a um grande público, o que é uma pena, pois acho que elas podem ser tão satisfatórias a nível de experiência como uma longa-metragem.

Estas três curtas em particular penso que formam uma sessão muito interessante que em nada fica atrás da sessão de uma longa. 

O argumento do “Dia de Festa” foi escrito pelo Tiago Vasco Capitão. Em Vila do Conde lembro-me de ter dito que o argumento que ele escreveu foi o grande impulsionador para entrar neste projeto. Como é que se desenrolou essa colaboração entre os dois?

A primeira versão [do guião] que o Tiago me apresentou interessou-me logo, porque caia dentro  daquilo que me interessava tematicamente como realizadora: a ideia de padrões relacionais que passam de geração em geração, uma espécie de herança afetiva. Esse universo temático da família já me interessava na Escola de Cinema, por isso quando terminei o curso e o Tiago me apresentou o argumento ficou óbvio para mim que seria um bom primeiro projeto. Depois do Tiago me apresentar essa primeira versão do argumento, o que aconteceu é que trabalhamos os dois juntos em mudar algumas coisas que eu precisava mudar para conseguir realizar o filme. Nada de muito drástico, pois a estrutura do argumento, as personagens, quase todas as cenas já lá estavam. Foi uma questão de afinar até eu sentir que conseguia realizar todas as cenas, e que todas elas faziam sentido para mim. 

A partir do momento em que chegamos à última versão do argumento, comecei a elaborar a realização e essa parte já faço sozinha. Mas claro, mesmo depois dessa versão final, há coisas que mudam durante a rodagem. Coisas que vejo que não resultam e que se alteram no momento. Mas a nível de realização, sim. Depois comecei esse processo sozinho. 

Uma das grandes forças do seu filme é a atriz, a Rita Martins. Em Vila do Conde disse que o argumento tinha sido cumprido a 95%, mas disse que era uma realizadora que dava espaço aos atores para criarem e procurarem as personagens, os seus gestos, os tons, etc. Até que ponto foi essa colaboração com a Rita para ela dar aquela dimensão à personagem da Mena?

Claro que falámos da Mena, mas eu não sou daqueles realizadores que gosta muito de entrar nessas conversas com os atores quando eles já têm um entendimento da personagem, que já corresponde aquilo que eu visionava para ela. Como a Rita teve esse acesso muito intuitivo desde o início, eu sinto que a nossa colaboração foi essencialmente eu dar-lhe espaço para ela ser a Mena. Senti desde o inicio que a Rita como atriz tem uma presença e uma honestidade incrível. E sentia que ela conseguia ser a Mena, a personagem principal, que quase não estava a representar. Respeitei isso e quase não tive de a dirigir. O que é o sonho de qualquer realizador, porque facilita imenso o meu trabalho. 

Em relação aos tempos que vivemos, muitos cineastas têm encontrado inspiração na pandemia e isolamento. Surgiu-lhe alguma ideia para um novo projeto?

Bem, quando a pandemia surgiu em meados de março eu já estava a desenvolver dois projetos que nada tinham a ver com esta temática, e são esses projetos que agora estou a continuar a desenvolver. Mas não, por enquanto ainda não escrevi nada relacionado com o tempo que vivemos.

E pode falar desses dois projetos que está a desenvolver?

Neste momento já estou em pré-produção de uma nova curta-metragem, novamente com a Uma Pedra no Sapato, produzido pela Filipa Reis. Já conseguimos financiamento no ICA e estamos agora a procurar financiamento internacional, uma coprodução. Ao mesmo tempo estou ainda a desenvolver, ainda na fase de escrita, uma longa-metragem. São ambos projetos de ficção e abordam o tema da família, das estruturas familiares e dos papéis que desempenhamos dentro dessas mesmas estruturas. 

E a presença do “Dia de Festa” em Cannes, Vila do Conde, Nova Iorque, etc, isso não lhe trouxe uma pressão extra para os novos projetos, para um segundo filme.

Não vejo isso como pressão, mas uma oportunidade. 

Sofia Bost em Nova Iorque | Foto por Bridget Ye

Voltando ao tema da pandemia, e como está dentro do mundo da cultura e das artes, como tem visto a situação dos trabalhadores precários, especialmente dos técnicos, com a paragem das produções? E que pensa da ajuda que o governo a essas pessoas?

Não tem sido uma situação fácil para ninguém que trabalha em Cinema, particularmente para os técnicos. [A ajuda] tem sido claramente insuficiente naquilo que temos visto. Há um grande desequilíbrio. Há pessoas que conseguem aceder ao apoio aos trabalhadores independentes, outras não. É uma situação muito complicada, um momento muito triste. 

E agora uma pergunta para rematar a entrevista. Onde é que se vê daqui a dez anos em termos de trabalho no Cinema. Tem algum projeto de sonho que gostava de executar, também se vê a trabalhar em televisão, até para as plataformas de streaming? Faça um pouco futurologia, mas no sentido do desejo do que realmente naquilo que pode ou não concretizar-se…

Sim, no Cinema é muito difícil prever porque acabamos por ser o último filme que fizemos, quase. Se temos o azar de derrapar num projeto, muitas vezes pode tornar muito difícil conseguirmos continuar a trabalhar. Mas sim, idealmente daqui a dez anos gostava de ter a minha longa-metragem que estou a desenvolver agora mais que terminada, e já estar numa segunda ou terceira longa-metragem. 

Em relação a televisão, acho que é uma questão de ter o projeto certo em mãos. Não descarto essa possibilidade. Um projeto que se adapte às minhas sensibilidades e capacidades como realizadora. O mesmo em relação as plataformas de streaming. Mas neste momento estou concentrada no Cinema. 

Ou seja, quando pensa num projeto, pensa-o como Cinema?

Por enquanto sim, pois foi o Cinema que agora me abriu portas. É nisso que estou concentrada e sim, atualmente penso logo em termos de curta ou longa-metragem, e não em sério. Quem sabe um dia. 

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