“24 Frames” imortaliza o legado de Abbas Kiarostami

(Fotos: Divulgação)

Logo depois de filmar“Like Someone In Love” (2012), Abbas Kiarostami (1940-2016) começou a colecionar imagens (no jargão fotográfico “instantâneos”) da vida quotidiana, interessado no que poderia se chamar banalidades, ao somar uma série de registros posteriormente reunidos no que viria a ser o seu filme póstumo: 24 Frames”. Existe nele trivialidade, com pessoas de costas a olhar para a Torre Eiffel, sob flocos reveladores de mau tempo. E há ainda o inusitado: vemos a obra-prima a óleo de Bruegel, “Caçadores na Neve”, e, nela, percebemos um trabalho de animação de um dos animais elaborados pelo pintor, sobrepondo movimento à tela original. É uma interferência do cinema sobre o quadro, da mesma forma como interfere em fotos, como a mostrar o antes e o depois de cada quadro. Tudo é fricção e estática, encenação e realidade documental, num pensamento antitético que marcou o repertório de filmes do vencedor da Palma de Ouro de 1997, dada a “Taste of Cherry”. O realizador deixou entre as suas anotações de montagem uma justificação para o projeto: “Um dia, quando não tinha nada para fazer, comprei uma Yashica barata e saí a andar pela natureza. Queria estar em contato com ela. Ao mesmo tempo, desejava compartilhar com os outros momentos agradáveis que testemunhei. É por isso que comecei a tirar fotografias. Para, de alguma maneira, eternizar esses momentos de paixão e dor…”. Essas palavras foram repetidas durante a sessão inaugural da longa-metragem, no 70º Festival de Cannes, em 2017, celebrada como um réquiem para o artesão autoral iraniano. A Croisette ficou tocada com um exercício a um só tempo lúdico e cerebral, no qual Kiarostami sempre assume o dispositivo teórico da narrativa como se fosse uma moldura.

Pouco antes dessa experiência ser iniciada, Kiarostami passou pelo Brasil, pela Mostra de São Paulo, e conversou com o C7nema, com quem falara antes, em 2010, por “Copie Conforme” e em 2004, quando lançou “10 on Ten” e “Five Dedicated To Ozu”. Na ocasião mais recente, explicou ele explicou o conceito básico por trás da sua estrutura dramatúrgica documental e/ou ficcional – uma vez que pouco distinguia as fronteiras entre um e outro. “Existe um cansaço no olhar em torno de uma certa noção de ‘simplicidade’ que engessa a arte cinematográfica em tramas e no ideal de entretenimento. Sanar esse cansaço, contudo, gera um gasto de tempo de apreensão, de dedicação, de ruminação, como um ir e vir a uma mesma imagem, como se faz com um quadro de Kandinsky para fruir o que existe naquela geometria. Por isso, penso os filmes como um puzzle no qual o ajuntamento das peças nem sempre vai resultar num encaixe com harmonia, ou mesmo num encaixe possível. O espectador pode fazer o arranjo que quiser, pois não é matemática, não é uma equação na qual o valor de X pode ser descoberto com somas ou multiplicações irredutíveis e invariáveis. Não quero uma arte que se explique, ou tão pouco procure uma arte que julgue e aponte quem é o mau e quem é o bom”, disse Kiarostami, que vinha de trabalhos na Europa e no Japão.

Cena de “24 Frames”, ançado em Cannes, em 2017, postumamente após a morte do cineasta


Em conversa telefônica com o C7nema em 2010, mediada por uma intérprete, o cineasta defendeu que filmes como “Ten” (2002) só ganham sentido a partir das múltiplas e distintas visões que o público faz deles. “24 Frames” vai pela mesma lógica.

“Trabalho há anos com atores não profissionais, o que me leva a não lhes dar diálogos escritos. Explico a intenção de cada cena e deixo que me surpreendam. Isso levou-me a desenvolver um processo de escuta na qual eu preciso me abrir ao inusitado. Essa dinâmica aplica-se também, de alguma forma, à montagem, deixando que cada plano me surpreenda não pela leitura que faço dele, mas pelas análises combinatórias que a plateia faz deles”, disse o cineasta “Os entes e as personagens que mais importam nos meus filmes nem sempre estão no quadro, mas sentimos a energia deles, a sua presença. É que as histórias que conto partem de uma metafísica. A metafísica de uma cena pode se manifestar num plano estanque. O que ela manifesta é a dimensão universal da vida, que não passa pela barreira da língua, da cultura ou de geopolítica. Dor é dor em qualquer idioma. Sente-se igual, na carne. O cinema da poesia sente-se igual, na alma”.

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