Jonathan Millet e “Os Fantasmas” da guerra na Síria

O filme estreia nos nossos cinemas a 15 de maio

Habituado a lidar com o cinema documental, o gaulês Jonathan Millet estreou-se agora em terreno da ficção com “Les Fantômes” (Os Fantasmas), um thriller de forte componente dramática que acompanha um exilado sírio, Hamid (Adam Bessa), que juntamente com um grupo secreto persegue os líderes fugitivos do regime de Bashar al-Assad. A sua missão leva-o a França, no encalço do seu antigo torturador, a quem terá de enfrentar. 

Neste thriller de caça ao homem, inspirado em acontecimentos reais, o passado e o presente colidem, explorando temas de justiça e redenção, além de como o trauma afeta a vida dos que foram vítimas de tortura.

Falámos com Jonathan Millet em Cannes, onde o seu filme foi exibido na Semana da Crítica. 

Até agora sempre usou a forma do cinema documental para contar as suas histórias. Porque escolheu desta vez a ficção?

O filme vem da realidade, mas desta vez escolhi usar a ficção e as suas ferramentas para abordar todos os testemunhos e histórias que ouvi. Na verdade, gosto da mistura entre o documentário e a ficção. Os meus documentários têm sempre um pouco de ficção, e esta ficção está bem documentada na realidade. Filmámos em locais reais, com dois jornalistas do Le Monde e alguns refugiados sírios. É assim uma obra cheia  de realidades, mas senti que necessitava da ficção para colocar perante o espectador apenas uma perspectiva. 

A certo momento tinha demasiados factos e tive de escolher a forma de contar a história. Para mim, a maneira mais forte de o fazer era juntar isso tudo num único ponto de vista de um homem, Hamid. E precisava de música, do som e de liberdade nas personagens para contar todas as coisas incríveis e reais que me contaram. É que essas histórias podiam dar filmes de espionagem, thrillers, etc. Existem heróis contemporâneos e é isso que quis contar ao mundo.

Além do tom de thriller, o filme estuda também uma personagem. Como equilibrou as duas coisas?

O balanço entre a vertente thriller e o estudo de personagem e do trauma decorreu principalmente na fase do guião e da montagem. Quis sempre manter a audiência comigo e nunca me desprender da razão principal que me levou a fazer este filme sobre o trauma,o exílio e o luto  Quis perceber como é voltares  para a tua vida quando perdeste tudo.

O Adam Bessa está formidável no protagonismo. Como se processou o casting?

Foi um longo processo de casting em que falámos com centenas de pessoas em 15 países diferentes. Quando conheci o Adam Bessa encontrei a intensidade interna que procurava. O que o espectador tem de acreditar é que ele passou pela pior coisa de sempre. E isso tem de acontecer na primeira cena em que o vemos. Ele nunca podia atuar em demasia e tínhamos de sentir algo vindo do seu interior. Em conjunto, trabalhámos muito nos seus gestos do quotidiano, ou seja, por exemplo, como te sentas numa cadeira depois de teres sido torturado. Como olhas para as pessoas? Como as encaras? Estudamos e falamos muito sobre isto, para imediatamente dar ao espectador a imagem de um homem quebrado pela vida. 

Também falámos com muita gente que foi torturada e observamos muito os seus gestos. Trabalhei durante dois anos num documentário sobre refugiados e tirei imensas notas. Dei-as ao Adam e, de forma livre, deixei-o interpretar o que a personagem tinha vivido. Queríamos que a personagem expressasse os seus dramas também através do seu corpo. 

É fácil cair nos estereótipos e clichês quando aborda este tema. Como tentou fugir a esses clichês?

Para evitar os clichês decidi nunca filmar nenhuma cena de violência ou tortura. Trabalhei isto tudo apenas com o som, confiando no espectador para que criasse, ele mesmo, na sua mente, as imagens que não apareciam no ecrã. O som servia de gatilho. Para mim, neste caso particular, era muito importante evitar recriar imagens conhecidas e já vistas. Estamos atolados de imagens de violência do Médio Oriente e quis evitá-las usando outras coisas além das imagens. Tinha um objetivo de imersão do espectador e, nisso, o som seria melhor.

Como construiu a personagem do torturador que vemos em cena?

A construção da personagem do torturador foi feita de forma a escapar a esses clichês. Houve duas pessoas reais que inspiraram esta personagem. Aquela, de quem era mais próximo, era um jovem com posses. A família tinha dinheiro e mandou-o da Síria para a Suíça, onde estudou química. Um dia, chamaram-no e pediram-lhe para trabalhar com ele na construção de bombas químicas. Era um tipo normal, que gostava de festas e tudo mais, que vivia na Suíça e que tomou a decisão errada de aceitar esse emprego. No filme evitamos julgá-lo, deixamos isso para o espectador. Cabe a este ver nele humanidade ou não. É este o pior homem de sempre? É alguém que saiu da Síria e cortou com o seu passado. Quis viver uma nova vida e fingir que o passado não existia. O Hamid tem de confrontar o seu passado e ultrapassar a morte das suas filhas e, de certa maneira, dele mesmo. Tem uma história de luto. Já o torturador tem uma história de esquecimento. Era importante para mim ter duas personagens próximas, um espelho que mostrasse que ninguém é 100% bom ou mau. Quis esbater as coisas. 

Les Fantômes” leva-nos a um filme de Coppola, “The Conversation”. Foi uma inspiração? 

O que trouxe principalmente de The Conversation foi a solidão da personagem e a sua obsessão. Aliás, qualquer uma das personagens tem o seu lado solitário. E isso liga torturador e vítima.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/hbw7