Yann Samuell: de “Amor ou Consequência” a “A Fuga dos Lulus”

“A Fuga dos Lulus” estreou nos cinemas nacionais a 10 de agosto

(Fotos: Divulgação)

Eternamente conhecido por “Amor ou Consequência” (Jeux D’enfants), Yann Samuell regressa aos cinemas nacionais com “A Fuga dos Lulus” (La Guerre des Lulus), uma adaptação de uma série de bandas-desenhadas assinadas por Régis Hautière e Hardoc, que acompanham um grupo de crianças órfãs na França da Primeira Guerra Mundial. 

Destinado a jovens e adultos, como nos explicou o cineasta numa entrevista em Paris, “A Fuga dos Lulus” acompanha em particular quatro meninos e uma jovem que fogem do conflito em direção à Suíça, mas que têm de passar por um teatro de guerra repleto de aventuras e perigos.

Ao longo da sua carreira tem trabalhado algumas vezes em filmes onde as crianças estão no centro. Isso vê-se, por exemplo, em “A Guerra dos Botões” e agora neste “A Fuga dos Lulus”. O que lhe atrai nesses filmes?

Faço muitos filmes com crianças, mas não necessariamente para crianças. O que gosto mais nestes filmes é a transmissão de elementos entre as crianças e os adultos. Na banda-desenhada que inspira o filme atrai-me estes órfãos sem aquilo que chamamos de riqueza nas suas vidas. Eles não têm família, roupas, posses. Quando descobrem o mundo, ele está à beira da destruição. O que pretendia era questionar se o mundo que os adultos oferecem é bom para as crianças, e se as crianças se querem transformar nos adultos que encontram pela frente.. 

No caso do “A Fuga dos Lulus” existe uma questão pessoal ligada ao seu pai que o levou a fazer este filme. Quer explicar um pouco isso?

Sim, a razão porque aceitei fazer este filme não estava relacionado apenas com o facto de ser um filme sobre crianças durante a guerra, mas principalmente porque durante a escrita e prospeção de locais percebi que existe algo no passado que inconscientemente me puxou para ele. Existe uma famosa fotografia de uma criança empoleirada num tanque de guerra na altura da Libertação de Paris, em agosto de 1944. Uma criança que por acaso é o meu pai. No momento em que aceitei fazer o filme, nem me lembrei disso, mas quando me lembrei associei imediatamente ao meu aceitar.

Além disso, houve mais elementos que me atraíram. O que é um inimigo? O que é um estrangeiro? Qual a posição das mulheres nestes tempos de guerra? Que promessas uma criança cumpre quando se transforma em adulto e que ensinamentos um adulto transmite a uma criança? Todos estes temas e questões uniram-se ao desejo de trabalhar num filme de aventuras.

Quando se adapta um filme a partir de uma banda-desenhada, existe uma preocupação estética particular. Como foi a colaboração com a direção de fotografia, a montagem, o guarda-roupa, etc, na transposição da BD ao cinema?

Sem dúvida, porque não podemos transpor literalmente o que está na banda-desenhada. Esta BD tem um estilo muito demarcado e obrigou-me a fazer uma grande investigação iconográfica e literária. Sou fascinado pelas primeiras fotografias coloridas tiradas entre 1910-14. Nessas fotos existem cores que não existem realmente e não conseguimos captar, o que me serviu de inspiração. Por isso optamos por seguir uma toada de azul noturno profundo e o dourado diurno. O azul noturno representa para mim o desconhecido, o medo, o anónimo na origem destes miúdos, enquanto o dourado diurno leva-nos para a descoberta, a aventura. É entre estas duas cores que o filme se desenrola e todas as equipas – fotografia, décors, guarda-roupa, efeitos visuais, etc – movimentaram-se a partir dessa ideia. E depois há elementos muito particulares. Por exemplo, as explosões que vemos não são tratadas como mero fogo de artifício bélico, mas como uma espécie de gigante obscuro, Houve efetivamente uma grande pesquisa visual para o filme.

O Yann teve um enorme sucesso com o seu primeiro filme “Amor ou Consequência”, que se tornou mesmo um objeto de culto. Olhando para trás, o que representa para si esse filme? 

Foi o meu bilhete de entrada no mundo do cinema. Foi a minha primeira longa-metragem, era muito inexperiente. Deu a volta ao planeta e ainda hoje recebo cartas e emails sobre ele. 

Yann Samuell

Se fizesse o filme hoje, seria diferente?

Por acaso propuseram-me, nos EUA,  fazer um remake dele. Sinceramente não me fascina muito a ideia de refazer um filme, embora fosse interessante ver como seria com outros atores a bordo. Mas essencialmente duvido bastante dos remakes.

Não lhe agradam os remakes?

Bem, eu já filmei um, nos EUA. Um remake de um filme coreano (My Sassy Girl, 2008). Gostei da experiência e até tenho fãs que também me escrevem sobre esse filme, mas sinceramente existe algo… bem, o meu filme era bem diferente do coreano, por isso não o sinto tanto como um remake. Acho que é antes uma realização a partir da mesma ideia. Creio que foi isso que me levou a aceitar filmá-lo, além do guião, que gostei bastante. Mas são raros os remakes que se afastam assim tanto dos originais.

E o que segue? Tem um novo projeto?
Se o “A Fuga dos Lulus” funcionar nas bilheteiras, irei logo trabalhar numa sequela. Mas tenho outros projetos no cinema. Para ser preciso, tenho 4 projetos em marcha, mas não posso falar deles.

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