Ícones de uma França anterior ao espírito do pós-modernismo, Jacques Cousteau e Yves Montand já fizeram parte (essencial) do currículo de Lambert Wilson, o presidente do júri da 76ª edição do Festival de Locarno. O primeiro interpretou nos cinemas em 2017, assim como deu vida à figura do estadista Charles de Gaulle. Já Montand fez parte de um espetáculo e um disco (CD) nos quais a estrela de 64 anos solta a sua voz de rouxinol ao som de melodias imortais do cancioneiro europeu, tal qual tem feito recentemente com a obra musical de Kurt Weill.
Parcerias com mitos como Alain Resnais e Bertrand Tavernier também fizeram parte da sua trajetória profissional, iniciada em 1977, sob a direção de Fred Zinneman. Nos EUA, o papel mefistofélico do chefe do crime chamado Merovíngio, na franquia “Matrix“, potencializou o seu prestígio na esfera do pop. Agora, a tarefa de conduzir as decisões da disputa pelo Leopardo de Ouro mobilizam o seu olhar, como ele explica na conversa a seguir, concedida ao C7nema.
Qual é a expectativa em relação aos 17 filmes em concurso pelo troféu de Locarno?
Nunca tinha estado no festival suíço antes deste convite ter chegado a mim, mas percebo o papel do evento no culto à relevância do cinema de autor. Sinto que tenho as aptidões necessárias para presidir a escolha do vencedor do Leopardo pois sei ser democrático, com a medida certa de debate. Sou bom em comandar deliberações, pois sei ouvir e sei a hora de decidir. As salas têm andado esvaziadas no pós covid-19. As séries hoje mobilizam mais o olhar e a economia audiovisual. Hoje ganho o pão com meu trabalho em projetos de séries para o streaming ou TV. Mas não paro de filmar, com o cuidado de sempre estar em pequenas produções. Fiz “5 Hectares“, que está no festival, fora de concurso, para ajudar Emilie Deleuze a realizar as suas ideias.
Como Resnais foi fundamental na sua trajetória e nesse seu apreço por apoiar vozes autorais?
Ele falava pouco, pois nos conceituava bem. O conceito estava lá, vivo. A partir dele, expandiamos os signos que ele nos oferecia, sem necessidade de qualquer teorização
Como um júri deve lidar com todas as questões identitárias postas em foco nos dias de hoje?
Elas merecem respeito e cuidado, não imposição. Podemos ser atacados se não escolhermos um filme que aborde temas contemporâneos. É só ver o que se passa em Cannes. Lá, Thierry Frémaux, o diretor artístico, é atacado a toda hora pelas suas escolhas. Mas é preciso atenção às concessões impostas pelos tempos de hoje. Os festivais passam por adaptações, mas é cedo para medir o que as compensações históricas podem significar. A nossa margem de responsabilidade é grande.
Qual foi o saldo mais marcante de seu trabalho com o repertório de Yves Montand, que pode ser visto em vídeos do YouTube?
Ele foi o espelho de uma forma viva e charmosa de fazer arte. Há uma persona sexy na imagem em preto e branco dos seus filmes dos anos 1950 e 60. Queria entender como aquelas canções resistiram ao tempo e entender como canta-las de uma forma contemporânea.

