Dois anos depois de conquistar o prémio das chamadas Curtas do Amanhã, o Pardo di Domani, com “Fantasma Neon”, o realizador Leonardo Martinelli regressa a Locarno para brigar pela mesma láurea, agora com um outro exercício narrativo também calcado nas cartilhas da dança: “Pássaro Memória”. Nele, uma jovem (Ayla Gabriela) se embrenha pelo Rio de Janeiro em busca de uma ave de estimação que perdeu. Na entrevista a seguir, o realizador explica ao C7nema como o sucesso em terras helvéticas mudou a sua relação com a indústria audiovisual.
Qual é a geografia do Rio que o seu cinema tenta levar às telas, desafiando a hegemonia da representação maioritária da Zona Sul, a área de maior poder de comprao da cidade?
Cresci e moro até hoje entre o Andaraí e a Tijuca, no início da Zona Norte do Rio de Janeiro. Na adolescência, frequentei os espaços culturais no centro da cidade. Ter a minha formação nesses ambientes despertou-me o interesse de buscar um cinema que não retratasse somente os cartões postais da Zona Sul. Acredito que a cidade do Rio é culturalmente diversa e que os bairros da cidade refletem a sua iconografia histórica, seja por falta de preservação ou pelo que se escolhe preservar. Nesse sentido, interessa-me pensar como os ambientes da cidade podem ser inerentes aos tipos de eventos que neles ocorrem. Coisas que só poderiam ser ali, seja por uma disposição histórica, cultural ou geográfica.

Que aspectos clássicos e modernos do cinema musical mais te atraem e ajudam na consolidação dos seus filmes?
Embora o cinema musical clássico da era de ouro de Hollywood busque promover a meritocracia, ele acaba acidentalmente evidenciando as suas falhas e pontos mais sensíveis. A fantasia musical entra como escape da realidade brutal enfrentada no pós guerra e a da crise económica. Enquanto os deleites estéticos de Vincente Minnelli e Stanley Donen servem de inspiração, por fundarem a base da mise en scène do cinema musical clássico, também busco pensar a forma como Jacques Demy e Bob Fosse posteriormente a subverteram. Esses dois complementaram essas construções. Busco trazer a classe trabalhadora para cantar e dançar nas telas, usando os apelos do cinema musical não para um escapismo – como na era de ouro – mas, sim, como forma de revolta e insurgência.
O que Locarno já aportou na sua conexão internacional?
Locarno é um festival que abriu inúmeras portas para mim. Por ser uma das principais janelas do mundo para o cinema de autor, é comum que pessoas e festivais do mundo se interessem pelo que passa por aqui. Ao ganhar o Leopardo de Ouro de curta-metragem em 2021, tivemos muito interesse internacional pelo filme. Além das mostras competitivas para os filmes em si, Locarno é um festival primordial por também proporcionar formação, como se vê na Locarno Residency, de que participarmos com o meu primeiro projeto de longa-metragem, derivado de “Fantasma Neon”. Ao longo de um ano, em residências em Veneza e Locarno, além de sessões online, eles acompanharam o desenvolvimento do projeto.

