Suzume: Entre Murakami e Miyazaki

(Fotos: Divulgação)

Presente em cartaz nos países do Ocidente, apoiado na forte popularidade oriunda de boas críticas colhidas na Berlinale, “Suzume” viu a sua receita mundial explodir, como já é de praxe na trajetória do realizador Makoto Shinkai. Atualmente, o filme já fez cerca 200 milhões de dólares e periga ser a maior arrecadação de uma animação não americana este ano. Exuberante, a produção concorreu ao Urso de Ouro à força da boa reputação do cineasta, consagrado como autor em 2016, com “Your Name”. A protagonista desta nova obra, Suzume, foi construída numa atuação vocal da atriz Nanoka Hara, uma jovem de 17 anos que equilibra bem a timidez da adolescência, sendo querida pelas colegas e pela tia, que a criou desde pequena. Órfã de mãe solteira, ela é castigada por memórias indecifráveis de um acidente sofrido 12 anos antes, numa tragédia climática no seu país. Preocupada com os estudos, ela esbarra com a visão de uma porta flutuante. O choque vai crescer ao esbarrar com um rapaz de modos e visual encantadores, cuja missão na Terra é impedir que a tal porta se abra. Aberta, ela vai castigar a população japonesa com os cataclismos mais cruéis. Para piorar, há outras portas! E para piorar ainda mais, um deus em forma de gato transforma o rapaz numa cadeira, e de apenas três pernas!!

Na entrevista a seguir, Shinkai explica ao C7nema como usar uma parafernália pop para discutir as dores do luto.


O guião de “Suzume” combina vermes gigantes, um deus-gato, portas flutuantes… Há muita fantasia, mas há também um tom melodramático essencial na sua dramaturgia. Que mestres do melodrama japonês foram influências para este filme?

Não acho que fui muito influenciado pelo melodrama japonês. As minhas principais influências estão na literatura japonesa contemporânea, como Haruki Murakami, e na obra de animação de Hayao Miyazaki. Suponho que “Kafka à beira-mar” (Kafka na Praia br), de Murakami, teve uma influência particularmente forte em “Suzume”. No início da sua carreira, Murakami escreveu prosa e romances poéticos, mas, mais recentemente, ele gradualmente mudou a sua estética, para escrever romances com uma estrutura narrativa mitológica. Sinto que isso é semelhante às mudanças pelas quais eu mesmo passei. Os meus trabalhos anteriores eram semelhantes à prosa, mas, desde “Children Who Chase Lost Voices”, comecei a ter consciência de uma estrutura narrativa mitológica. Sinto que o desejo de levar histórias para um público mais amplo, na tentativa e no erro, foram as razões para tal mudança.

Makoto Shinkai na Berlinale

Que elementos religiosos e mitológicos estão por trás dos seres mágicos (o gato, o verme, as portas místicas) no filme?
O gato falante é um símbolo da natureza. A natureza é muito inconstante. Por exemplo, um belo mar pode de repente se tornar num tsunami. É algo que os humanos não compreendem nem podem controlar. Quando pensei no que seria um símbolo para tal coisa, pensei num gato. A minhoca foi inspirada pelo grande peixe-gato da mitologia japonesa. Há muito tempo, os japoneses acreditavam que os terremotos eram causados por peixes-gato gigantes que viviam debaixo da terra e abanavam os corpos. As portas são um símbolo de ruínas, mas também da vida quotidiana. Todos os dias deixamos a casa com a porta aberta e voltamos para casa com a porta fechada. É uma repetição diária do Ittekimasu (expressão nipónica que sugere partida) e do Okarasama (ideia de regresso). No entanto, desastres como terremotos podem perturbar esta rotina. Portanto, pensamos que uma porta seria um símbolo apropriado para este filme sobre o tema dos desastres.

Como avalia a importância do anime para a formação de novos públicos? Que resposta você teve das crianças e dos adolescentes com “Suzume” no Japão?
Sinto que “Suzume” atraiu mais audiências jovens do que as plateias mais velhas. A geração dos liceus apreciou especialmente o filme. Eles são a geração que não tem muitas lembranças do Grande Terremoto do Japão Oriental de 2011, que foi o motivo do filme, ou a geração que nasceu após o desastre. Uma das razões pelas quais fiz este filme foi para conectar as memórias do desastre aos públicos mais jovem. Por isso, fiquei muito feliz com o resultado.Também acho que este resultado foi possível porque “Suzume” foi um filme de animação. Espero que os filmes de animação possam desempenhar um papel na sociedade que só pode ser desempenhado por um formato narrativo que seja popular entre as gerações mais jovens.

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