Marion Cotillard: “Desejo trabalhar com pessoas que têm uma urgência em se expressar através do cinema”

(Fotos: Divulgação)

Atriz notável no panorama do cinema francês e internacional, famosa por papéis dramáticos em filmes como “La Vie en Rose“, “Dois dias, uma noite” e “Inception -A Origem“, Marion Cotillard tem em “Astérix & Obélix: O Império do Meio” uma rara oportunidade de surgir num papel cómico. E logo como a famosa Cleópatra, a rainha egípcia que – no filme de Guillaume Canet – faz a “cabeça em água” do imperador romano César (Vincent Cassel).

Foi em Paris, em janeiro passado, que nos sentámos à mesa com a atriz e percebemos como ela gostaria de fazer muito mais comédias do que aquelas que tem no seu vasto currículo. Aqui ficam as suas palavras:

Qual a sua ligação à Astérix? Conhecia as bandas-desenhadas?

Li as bandas-desenhadas. O meu pai era fã e tínhamos a coleção completa dos livros. Li tudo com os meus irmãos. Gostava principalmente das personagens com características muito francesas, das aventuras que viviam e aquilo que podíamos aprender de outras culturas. Havia um grande encontro com outras culturas e um lado cómico nisso.

Existem vários elementos modernos no guião, como o “não comer carne”, o Tofu, etc. Houve uma troca de impressões com o Guillaume Canet na introdução desses elementos ou já estavam no guião?

Quando li o guião jjá estava completo. Essas ideias, deles não comerem carne, do tofu, etc, foram acrescentadas por ele. O que é curioso e divertido nesta franquia é que podes realmente adicionar elementos muito modernos e temas contemporâneos. Mas não houve uma troca de ideias na realidade. O guião e o que está nele foi todo escrito por ele.

E como viu a sua personagem de Cleópatra no campo da comédia?

A minha banda-desenhada preferida no universo Astérix era aquela com a Cleópatra. Sempre adorei esta personagem, o seu poder e a sua dinâmica na banda-desenhada. Não faço muitas comédias, por isso foi divertidíssimo assumir este papel nesse registo. É sempre preciso um ritmo e uma dinâmica diferente nas comédias: o de assumir uma postura de caricatura, o de “palhaça”. É algo que gosto de fazer, mas não faço muito. 

A personagem da Cleópatra é hilariante, mesmo que só tenha um par de cenas. E aquela sua companhia escultural, por quem ela segue sem o César, é interpretada por um nadador olímpico francês, o Florent Manaudou. Ele é tipo o Zlatan Ibrahimovic das piscinas (risos).Durante as filmagens eu e o Cassell estávamos sempre a olhar para ele com admiração, do género: “olha, é o Florent”. Foi ótimo trabalhar com ele e foi maravilhoso voltar a reencontrar o Vincent numas filmagens, pois é alguém com quem gosto muito de trabalhar. E gosto dele como ator e como homem. Fizemos um filme juntos, há uns anos atrás, juntamente com o Xavier Dolan. Era um drama e fazíamos de um casal. Desta vez trabalhamos juntos numa comédia, o que foi ótimo.

No fundo, gosto de explorar coisas que nunca fiz antes. Só por isso, para mim é perfeito encorpar alguém, uma personagem, diferente de todas as que fiz. As comédias não são de todo a minha zona de conforto, por isso adoro experimentar algo novo que não sei se consigo agarrar. E gosto da autenticidade das personagens num encontro com o seu lado tolo.

Fazer comédia é muito difícil. Na comédia temos de encontrar o balanço correto, a linha certa para  encontrar o riso na pessoa, sem perder nisso a autenticidade. Fazer comédia é muito, muito interessante.  

Disse que gostava de fazer mais comédias do que as que faz. Porque acontece isso, ou seja, existe uma maior apetência ou uma intuição que a leva mais para o campo dos dramas que das comédias?

No mundo dos dramas, mesmo que cada filme seja um recomeço, nunca sabes o que vai atingir como ator num papel. Na verdade, essa primazia em fazer dramas não é uma escolha, mas o que mais me oferecem. Gostaria mesmo de fazer mais comédias…

E conheceu o Zlatan Ibrahimovic nas filmagens?

Sim, e pedi para tirar uma selfie com ele (risos).  Ele criou uma personagem fantástica, esta espécie de Deus Zlatan. Tudo isto é um jogo para ele, pois no dia a dia é uma pessoa super amável. Claro que tem aquela confiança toda porque é um dos melhores no seu jogo, mas é uma pessoa muito ligada a todos. Na Première éramos uns 30 atores, mas no final girava tudo em torno dele (risos). 

Todos perguntavam onde estava o Zlatan (risos). Quando o Guillaume disse que o queria para o filme, todos pensavam que era impossível. Mas ele conseguiu. Porém, dois dias antes das filmagens, ele lesionou-se. Mesmo assim, o Zlatan quis filmar, mesmo contra as indicações dos médicos, que exigiam repouso absoluto. Acho que ele se divertiu muito.

Nota-se que ele se divertiu nas filmagens e até paródia consigo próprio naquela personagem. 

Sim, o papel foi escrito especificamente para ele e no final ele estava muito feliz com a sua presença no filme. 

Voltando um pouco atrás, há pouco falou de zona de conforto. Essa tentativa de fazer comédias é de certa maneira uma fuga a essa zona de conforto? Podemos também considerar uma saída da zona de conforto a sua aposta na produção de filmes?

Encontrei na produção um lugar muito semelhante ao do ator num projeto: fazes tudo o humanamente possível para transformar o sonho de um criador em realidade. Produzir é isto. Fazer o possível para tornar um projeto possível, seja um filme de ficção, seja um documentário. Isso é algo que gosto muito de fazer e que tenciono fazer mais e mais.

O seu filho (e do Guillaume Canet) estreou-se no cinema com este filme? Como foi essa experiência para ele e qual foi a coisa mais surpreendente que ele lhe disse sobre essa participação?

Quando somos pais nunca sabemos se o nosso filho realmente vai ser bom em algo. Quando pensamos em atuar, existe um nível de dificuldade específico. Ele já tinha tido uma pequena experiência noutro filme do Guillaume (Nous finirons ensemble) e adorou. Só tinha uma fala, mas amou. Por isso, ele quis repetir a experiência e surgiu novamente no grande ecrã neste filme. 

Como mãe, gostaria que ele se tornasse um ator profissional?

Não sei (risos), mas será sempre a sua escolha. Ficarei feliz com a decisão que ele tomar, seja que profissão fôr. Estamos aqui para o apoiar e  ajudar a encontrar o seu lugar no mundo. Se for na atuação, ficarei feliz com isso, ainda que tenha consciência das dificuldades que vai encontrar pelo caminho. Por um lado temos sempre o instinto de proteger os nossos filhos, mas simultaneamente queremos que façam o que desejam fazer. 

Tem sempre a perceção do que se segue, em termos de fases da sua vida, ou segue intuitivamente sem pensar muito nisso?

O meu objetivo de vida é sempre viver o presente. Não crio expectativas além de experenciar a vida inteiramente, estar rodeada de pessoas com o mesmo pensamento e ser feliz. Sei que nem tudo será bom no futuro, mas quero passar por isso com as pessoas que amo, compartilhar com elas os momentos, bons e maus, que aí vêm.

E nesse futuro vamos encontrá-la a trabalhar tanto em blockbusters como este ou filmes mais pequenos e íntimos?

Sim. Não os distingo. O que importa são as pessoas com quem trabalhas e o que elas fazem. Desejo trabalhar com pessoas que têm uma urgência em se expressar através do cinema.

E nesse futuro está na sua mente passar para a realização?
Sim, mas não um filme como este “Astérix”, pois acho que não tenho know how para isso (risos). Adoro trabalhar com atores. Como tal, seja num palco ou num set de filmagens, vejo essa possibilidade e imagino que seria algo que gostaria de experimentar.

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