“O Som ao Redor” faz 10 anos e causa barulho no Rio de Janeiro

(Fotos: Divulgação)

Filme de culto responsável pelo prestígio que levou o seu realizador, Kleber Mendonça Filho, a concorrer em Cannes com Aquarius(2016) e Bacurau (Prémio do Júri na Croisette, em 2019), O Som ao Redor comemora os dez anos do seu lançamento em circuito exibidor comercial com um par de exibições, seguidas de debate, no Estação NET Botafogo, nesta sexta, no Rio de Janeiro. Kleber estará no evento, aproveitando uma brecha nos seus afazeres como curador do espaço cultural Instituto Moreira Salles (IMS).

Vencedor de 38 láureas internacionais, incluindo o Troféu Redentor de Melhor Filme do Festival do Rio 2012, “O Som ao Redor” começou sua carreira em Roterdão, na Holanda, de onde saiu com o Prémio da Crítica, dado pela Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica (Fipresci). Na trama, os moradores de um condomínio de prédios de uma área abastada da geografia do Recife têm a sua rotina desestruturada pela chegada de uma milícia de seguranças. Irandhir Santos lidera o grupo de vigias, que circula entre moradores. Lá vivem tipos como o corretor da bolsa João (Gustavo Jahn), recém-chegado de uma estadia no exterior, e o seu avô, Francisco (W.J. Solha). Destaque no elenco para o desempenho de Maeve Jinkings, brilhante em cena, no papel de uma chefe de família incomodada com os latidos do cão do vizinho.

Na entrevista a seguir, Kleber fala ao C7nema dos seus novos projetos e da relevância da sua primeira longa na sua trajetória prestigiante.

O realizador pernambucano fez fama com curtas como “Recife Frio” e construiu uma carreira como curador, em espaços como o Instituto Moreira Salles

A sua vinda ao Rio, que coincide com a projeção de “O Som ao Redor”, envolve tarefas da sua jornada profissional como curador do centro cultural Instituto Moreira Salles (IMS). O que esperar da programação e dos seus próximos projetos como realizador?

Começou uma retrospetiva completa do realizador Adirley Queirós, com curtas e longas-metragens em 35mm e DCPR, sendo que faço o debate na unidade do IMS do Rio no sábado. Tenho um guião novo que se chama O Agente Secreto e tenho um filme ensaio (sobre salas de cinema) em forma de documentário que se chama Os Retratos Fantasmas”.

Na estreia, em janeiro de 2013, “O Som Ao Redor” ainda apanhou o Brasil governado por Dilma Rousseff, pois estreou antes do Golpe de 2016, em meio ao Impeachment que ela sofreu. Que Brasil era aquele? Que Brasil recebe o filme agora, nesta sexta-feira, na projeção no Estação NET Botafogo? O quanto a classe média – e mesmo a aristocracia – ali retratada preserva alguma ressonância com a sociedade brasileira pós Bolsonaro?

Filmei “O Som ao Redor” em 2010 e o roteiro foi escrito em 2008. O filme focou-se em questões de racismo e de classe, mostrando como a sociedade brasileira se organiza fisicamente para viver numa rua e num bairro. Mostrou a deformação da arquitetura para se encaixar em padrões de paranoia e do medo da própria sociedade. O coração do filme está nessas tensões, que fazem o Brasil ser o Brasil, e, nestes últimos 10 anos, não acho que Brasil mudou muito na forma de se comportar consigo mesmo. O que acho que mudou foi o Brasil começar a se comportar muito mal. Chegou a extrema-direita e o fascismo e eles perderam a vergonha. Eles são vergonhosos e se comportam de maneira vergonhosa. Quando fiz o filme, esse tipo de comportamento era discreto. Após 2013, o esgoto foi aberto. Essas pessoas e os seus comportamentos se tornaram padrão, o que levou ao golpe e à eleição de Bolsonaro, que foi o desastre que foi.

O que a carreira internacional de “O Som Ao Redor” te mostrou de mais valioso sobre as estratégias para lançar um longa no exterior?
O Som ao Redor
” estreou na Holanda, no Festival de Roterdão, ganhou o prémio da crítica e foi visto por centenas de programadores e críticos. Venho sendo programador há uns 20 anos e também fui crítico. Acredito que o programador e o crítico estão sempre procurando bons filmes. Sempre prontos a se interessar e se apaixonar por um filme novo. O Som ao Redor começou a sua carreira na Holanda e, depois, passou em várias mostras. Se colocas um filme num festival, ele é visto. Depois disso, o filme começa a desenvolver uma vida própria, o que é fantástico. Com essa minha primeira longa-metragem, não conseguiamos dar conta dos pedidos. Até hoje esse filme continua a ser exibido.

O que o êxito internacional de “O Som ao Redor” representou para a evolução do cinema do seu estado, Pernambuco, e em que situação se encontra a produção pernambucana atual, que acaba de brilhar no Panorama da Berlinale com o êxito de “Propriedade“, de Daniel Bandeira?

Acredito que essa pergunta deve ser feita a observadores que não tenham filmes dentro desse coletivo. Quando você olha para o cinema pernambucano, ele termina sendo um coletivo, por que tem muitas mulheres e homens que fazem cinema aqui, em Pernambuco. Quando O Som ao Redor foi lançado, em 2013, o cinema pernambucano já tinha uma produção muito destacada no Brasil, de longas-metragens e de curtas-metragens. Tinham as minhas curtas: Recife Frio”, “Eletrodoméstica”, “Vinil Verde. Mas tinha O Muro”, de Tião. Tinha o“Praça Walt Disney”, da Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira. Tinha o Texas Hotel”, de Claudio Assis. E existiam filmes da Adelina Pontual, do Hilton Lacerda, da Kátia Mesel, do Marcelo Gomes, da Nara Normande, de Leonardo Lacca, Gabriel Mascaro, Marcelo Lordello, o povo da Símio Filmes, da Filmes da Trincheira, Juliano Dornelles e o Daniel Bandeira, que citas e com quem já trabalhei. Todo esse cinema já existia. O Som ao Redor” fortaleceu o que já era muito destacado, do ponto de vista do reconhecimento por meio de prémios e de críticas. Neste momento em que vivemos a reconstrução do país, não sei como uma produção como a pernambucana irá voltar para os cinemas, mas sou muito otimista em relação aos filmes voltarem a ser descobertos em salas de exibição.

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