Com três décadas de carreira, “minados” de temas sociais e – consequentemente – políticos, os belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne regressam aos nossos cinemas com “Tori e Lokita”, uma história de amizade que viaja entre o filme de aventuras, o filme noir e o drama para contar a história de dois migrantes jovens que para sobreviverem entram pelo mundo da clandestinidade na Bélgica.
Foi em Paris em janeiro que nos sentámos à mesa com os realizadores de filmes como “Rosetta”, “O Filho” e “O Rapaz da Bicicleta”, descobrindo o que os move no cinema e como chegaram até “Tori e Lokita”.
Após estes anos todos de carreira no cinema, vocês continuam energeticamente a lutar contra as injustiças sociais. Porém, nesse mesmo período, a extrema direita e a sua agenda cresceu um pouco por toda a Europa. O que acham que falhou?
É um combate desigual. Explorar o medo nas pessoas funciona sempre. É isso que acontece. Se juntarmos a crise económica e energética, as pessoas permaneceram pobres. Com isto, cria-se um clima de insegurança do qual o populismo de extrema-direita se aproveita e sai por cima.
O cinema, perante isto, não tem força. Nós falamos (com os nossos filmes) aos espectadores através de imagens e esperamos que, através das nossas personagens, as pessoas sintam que estes migrantes não são uma ameaça nem um benefício. São duas pessoas. O que esperamos é que as imagens desses dois indivíduos, negros, possam criar uma empatia com o espectador. Ser seus amigos.
Mas voltando acima, este é um combate desigual, mesmo que nós, como cineastas, ao longo da nossa carreira, tenhamos mostrado que não fazemos um filme por fazer.
Mas falando no poder da imagem e do cinema, não sentem que existe uma perda de força dessas imagens com a excessiva exposição de todos a elas? Por exemplo: todos vimos o drama dos refugiados sírios, e até crianças mortas numa praia depois de tentarem fazer a travessia para a Europa. Essas imagens deveriam ser suficientes para combater as ideias de extrema-direita, mas de – certa maneira – banalizaram e perderam a força que tinham antes.
Sim, existe uma profusão terrível de imagens, mas o que queríamos para o nosso filme era enfatizar a conexão do espectador com aqueles dois indivíduos, Tori e Lokita. Só eles nos interessam e nunca pretendemos que sejam representantes de todos os outros migrantes. São eles que têm de se destacar no meio frenesim dessas imagens e combater estereótipos.
Com a carreira imensa que têm, como é que escolhem hoje em dia os projetos em que trabalham? Intuição ou método?
Não temos um método. O “Le gamin au vélo” (O Miúdo da Bicicleta) vem de uma história que uma juíza nos contou no Japão quando fazíamos a promoção ao “Le Fils” (O Filho). Ela contou-nos que no seu trabalho teve de lidar com um miúdo, agora adulto, que foi abandonado pelo seu pai num orfanato. E quando saiu do sítio encontrou outra pessoa, a figura paternal. Essa história ficou-nos na cabeça e tornou-se no filme. Não é pois um método, mas a construção de algo a partir de um fait divers que se tornou algo mais.

E como surgiu esta ideia de fazer o “Tori e Lokita”?
Há dez anos tínhamos um projeto sobre três migrantes, uma mãe e duas crianças. Nunca avançamos com ele e fizemos outros filmes. Porém, através da imprensa vimos que existem muitas histórias de migrantes que desapareceram na Bélgica. Ninguém sabe o que aconteceu com eles. Há muitos migrantes que ninguém sabe do seu destino e certamente muitos deles entraram na clandestinidade, na prostituição, tráfico de droga e orgãos, etc. Não é normal que dentro de uma democracia as pessoas possam desaparecer. Foi isso que nos motivou a fazer este filme. Suprimimos assim a Mãe do projeto original, mas estes dois miúdos, ao seu jeito, são a mãe e o pai um do outro. Especialmente a Lokita. Fizemos assim um filme sobre a amizade. O que sustenta a vida de dois migrantes. E não esquecer que normalmente, os migrantes eram sempre adultos, nunca crianças. Por isso havia esse interesse extra.
E estudaram esse mundo? Que investigação fizeram sobre os migrantes, o tráfico de drogas, etc?
Falámos com migrantes, mas para tudo o que estava ligado à clandestinidade e crime tivemos a ajuda da polícia, de um inspector que conhecemos.
Apesar deste ser um drama com a vossa marca habitual “realista”, existe nele também códigos do thriller (que também já vimos antes no vosso trabalho). Como viajam por entre os códigos de cinema nos vossos filmes?
Sim, tem a forma do suspense. O que dissemos a nós próprios é que esta é uma história de amizade. Um deles já tem os seus papéis de residência que permitem estar no país, o outro não. E vão assumir-se como irmãos para que um deles consiga os seus papéis. Esse era o elemento que instiga o thriller.
Quando existem estas situações e os colocamos num universo clandestino, tudo se conjuga para um filme noir e suspense. Temos assim um thriller e personagens para a qual a lei não existe. As regras são as da vida, não as da sociedade democrática. A isto tudo acresce uma toada de filmes de aventuras, em torno das duas vivências, em especial do miúdo. No fundo existe um pouco de filme de aventuras e filme noir em tudo isto. Mas não pensámos de antemão em trabalhar esses elementos. Eles surgiram com o crescimento da história em torno de uma amizade.
O vosso trabalho assenta muito na colaboração com não-atores. Como é trabalhar assim? O que dizem a eles?
Fazemos muitas repetições e o que exigimos é que saibam o texto. Se souberem melhor, senão vamos trabalhar nele no local. A Tori não conhecia, mas em cinco minutos ficou despachada. O Lokita já o sabia nas filmagens. A partir desse ponto podemos modificar o texto, procurando frases e palavras. Esta foi a primeira vez que trabalhámos com dois atores jovens sem experiência. Normalmente temos adultos atores e uma criança sem experiência. Dirigimos a sua posição, movimento, etc, mas nunca dizemos: “faz isto!” Aos poucos eles vão se soltando e perdem o medo de fazer as coisas mal. No fundo, criamos o clima de confiança. É importante eles gostarem do que estão a fazer.

