Robusto: Constance Meyer e o desejo de trabalhar com Gérard Depardieu e Déborah Lukumuena

"Robusto" estreia nos cinemas nacionais a 19 de janeiro

(Fotos: Divulgação)

Com carreira no teatro e um conjunto robusto de curtas-metragens, a suíça Constance Meyer estreou-se nas longas-metragens em 2021. Uma estreia auspiciosa, na Semana da Crítica do Festival de Cannes, juntando dois atores de gerações bastante diferentes: Gérard Depardieu e Déborah Lukumuena.

E se o primeiro é repetente na sua filmografia (participou nas curtas Frank-Étienne vers la béatitude, Rhapsody e La belle affaire), já Déborah Lukumuena teve em “Robuste” (Robusto) a sua primeira colaboração com a cineasta.

No filme, que nasceu do desejo de filmar duas personagens robustas e de trabalhar com Gérard Depardieu e Déborah Lukumuena,  seguimos George (Depardieu), uma velha estrela de cinema em decadência e desencantada com a vida. Quando o seu assistente e único amigo se ausenta durante várias semanas, será Aïssa (Lukumuena), uma pragmática praticante de luta livre semiprofissional, com dificuldades em gerir a sua vida amorosa, que é nomeada para o substituir. Apesar das diferenças entre a guarda-costas e o ator, entre os dois começa a formar-se um vínculo quando descobrem que as suas vidas são mais semelhantes do que esperavam.

Foi por Zoom que falámos em 2022 com a cineasta suíça, a qual nos explicou um pouco mais sobre o projeto.

Constance Meyer

Como definiria a relação entre a guarda-costas e o ator que vemos em cena?

É um encontro profissional, mas que depois torna-se mais íntimo quando passam um mês e meio, mais ou menos, juntos. Os momentos do filme que mais me agradam são aquelas para os quais dificilmente encontramos definição, até porque este é um encontro de duas pessoas que vêm de universos muito diferentes. De um lado temos homem branco a envelhecer e do outro uma jovem negra. A única coisa que têm em comum é uma presença visual forte, mas de certa maneira são gémeos. No fundo, um é o espelho do outro e as suas trajetórias são alteradas depois desse encontro.

Este é um encontro de duas pessoas um pouco perdidas….

Sim. Aquilo que chamo de envelope corporal de ambos, a forma robusta como são vistos por fora, difere daquilo que vai dentro deles. O Depardieu, como ator e como pessoa, carrega nele essa contradição. Aquela imagem de masculinidade máxima e robusta, mas com toques muito femininos e poéticos noutros elementos. Por exemplo, quando anda parece um dançarino. E no fundo também é como um bebé grande. Tudo isso interessou-me na sua figura. Com a Deborah foi igual. Ela tem um físico imponente, mas é extremamente feminina.

E como foi a sua abordagem de trabalho com estes atores?

Deixei-os serem bastante livres nas filmagens. Não gosto muito de falar nos sets e explicar tudo de forma interminável. 

Neste caso, como eram dois atores muito intuitivos e essa liberdade tinha ainda mais sentido. O meu trabalho de mise-en-scène é extremamente orquestrado, mas a direção, a imposição de ritmo, não faz parte de mim. E também não entro pelo campo da psicologia na minha abordagem com os atores. Ou seja, organizo como se olham e posicionam – nisto sou bastante precisa -, mas não dou explicações emocionais de como têm interpretar as cenas.

Quando escreveu o filme, pensou no Gérard imediatamente?

Escrevi o papel a pensar nele. O que é interessante é que, quando conheces um ator, encontras facilmente nas suas palavras ele mesmo. O Depardieu por natureza é maior que os papéis que tem e quando se aproxima desses mesmos papéis cria uma espécie de alteridade.

E no caso da Déborah. Há muito dela na personagem?

Inspirei-me muito na Déborah, mesmo que ela me diga que a sua personagem não tem nada a ver consigo. Tenho a sensação que em todos os filmes, os atores documentam-se em si próprios para assumir as personagens. Nem que seja o olhar ou a voz. 

Tenho uma ideia dos atores como seres que se lançam de forma muito vulnerável aos papéis e que vão buscar a si elementos nessa construção. Nunca quis tratar o Gérard e a Déborah de forma diferente, mas apoiei-me numa quase autoficção no caso dele e na ficção completa, no caso dela. 

O “Robuste” foi a sua primeira longa-metragem. Normalmente, os realizadores dizem que a segunda é sempre mais complicada de realizar. Depois da presença do “Robuste” em Cannes e do seu sucesso, sente uma pressão extra para o seu próximo projeto?

Sim, será mais complicada a segunda longa-metragem porque frequentemente damos muito de nós ao primeiro filme. Num segundo filme temos de recomeçar todo o processo, fazer um novo caminho.

Estou na fase de escrita do meu segundo filme e forçosamente será diferente. Mas nem todos os filmes têm de ser extraordinários. Cada filme é, à sua maneira, uma fotografia do momento que vives. Por isso muitas vezes olhas para trás e dizes: “que raio estava na minha cabeça nesta altura” (risos)…

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