Quando Benoît Jacquot conheceu Marguerite Duras, em 1972, na sua casa em Neauphle-le-Château, iniciou-se uma amizade que durou até à morte da escritora, ensaísta, realizadora e dramaturga. Porém, na adolescência, Benoît Jacquot confessa que não gostava nada dela, nem do seu trabalho. Tudo culpa da “misoginia de um rapaz de 16 anos”, como confessou ao C7nema numa entrevista em janeiro passado.
A ocasião dessa conversa era o seu mais recente filme, “Suzanna Andler”, o qual adapta uma peça escrita por Duras em 1968 e que chega aos cinemas esta semana.
No filme acompanhamos uma mulher (interpretada por Charlotte Gainsbourg) que, agastada com o casamento com o seu marido rico e infiel nos anos 1960, decide ir para uma casa de praia na Riviera Francesa com o seu amante (Niels Schneider), lidando com a separação pelo telefone, enquanto equaciona igualmente como será a sua vida após essa rutura.
Um trabalho soberbo de um cineasta habituado a assinar filmes com personagens femininas marcantes, mas que agora encontra um novo nível de excelência e de ambiguidade na transmissão de emoções para o espectador.

Li numa entrevista que quando leu pela primeira vez a obra de Marguerite Duras, odiou. Depois disso colaborou várias vezes com ela, adaptou alguns dos seus trabalhos, incluindo este “Suzanna Andler”…
Sabe que quando respondemos em entrevistas, temos tendência a exagerar (risos). É verdade que quando li pela primeira vez o livro da Marguerite Duras, numa época em que era adolescente e não a conhecia pessoalmente, não gostei absolutamente nada dele. São os filmes dela que me fizeram aproximar dela e da sua literatura. Só depois de ver os seus filmes e de gostar deles é que decidi me aventurar nos seus livros, vindo também a amá-los.
Creio que posso dizer que quando tinha uns 16 anos detestei os livros da Marguerite apenas por misoginia. Um rapaz de 16 anos, naqueles tempos, tinha sérios problemas de misoginia. É uma doença que tentei tirar do corpo toda a minha vida (risos).
Curiosa essa luta contra a “doença”, até porque muito do seu cinema girou em torno de personagens femininas marcantes, interpretadas por nomes como Catherine Deneuve, Isabelle Huppert, Léa Seydoux…
As melhores das melhores.
E agora a Charlotte Gainsbourg…
A melhor das melhores (risos)
Porquê essa escolha?
Para começar, adoro-a como pessoa e como atriz. Só isso era uma boa razão para fazer um filme com ela. Já tinha tentado fazer um com ela e, quando surgiu a hipótese de adaptar esta peça da Margueritte Duras ao cinema, foi praticamente imediata a ideia de ter a Charlotte no papel dessa personagem. A Charlotte não conhecia bem a obra de Duras, mas o pouco que leu do projeto fê-la sentir que esta personagem era boa para ela. De uma forma quase musical, ela sentiu que podia “fazer a sua própria música” a partir da partitura de Duras.
E como foi o diálogo com a Charlotte para transmitir o que pretendia dela para a personagem?
Foi também musical. Vivo em Paris e ela em Nova Iorque. Fui lá para trabalhar o texto com ela, mas de forma musical. A pronúncia, o ritmo, a duração, as acelerações, tudo coisas musicais.
Psicologicamente, no que diz respeito à personagem, a Charlotte sentia-se capaz de transmitir tudo, de a encarnar realmente.
Tendo em conta o seu passado com a Duras, a relação de trabalho e amizade, sentiu uma pressão e complexidade extra para esta adaptação?
Acima de tudo, esta adaptação é resultado de uma espécie de promessa que lhe fiz. De filmar a sua peça. Por isso, houve sempre um sentimento e uma necessidade de ser um homem diferente do que eu era na altura em que lhe prometi fazê-lo. Só agora me senti pronto para isso. Se eu não mudasse, nunca teria feito este filme.

E como foi, em termos estéticos, a construção da Mise-en-scène, movimentos de câmara, a passagem da peça a cinema? Como foi pensada esta reencarnação?
Nunca coloco essa questão nesses termos. A partir do momento em que pego numa peça, nunca penso nessa espécie de tradução de peça a filme. Parto sempre do princípio que podemos filmar tudo. Posso filmar uma cadeira ou uma peça da Marguerite Duras. Tudo é possível e tudo é feito também de um jeito musical. Trabalho uma partição cinematográfica a partir da peça, não diferente da forma como escrevemos uma ópera ou um guião.
Uma das coisas que também disse numa entrevista é que o mais difícil de trabalhar com a Duras era a técnica…
Sim, a técnica não lhe interessava para nada. Ela olhava para a técnica de filmar mais como um inimigo que um amigo. E que se a técnica exigisse dela algo mais, ela devia recusar isso. Era como um princípio, algo que apreendi dela.
E alguma vez ponderou adaptar a peça dela aos nossos tempos?
Nunca, mas se olharmos bem, aquilo que está em jogo na peça não se podia passar dramaticamente no tempo de computadores portáteis, de smartphones. Por exemplo, boa parte do filme/peça obriga ao estar num telefone fixo, o que não aconteceria hoje. Quisemos manter a veracidade da peça aos tempos em que decorria.
Especialmente na cena final, em que a Charlotte diz algo, mas os seus olhos parecem dizer outra coisa, existe uma ambiguidade que parece querer dar ao espectador. O que significa para si essa cena e o que quis dizer?
Não sei. Acima de tudo, deixar um tom enigmático. Se vamos ao fundo dos sentimentos, encontramos um mistério. É para isso que, para mim, ela olha…
E o que se segue na sua carreira? Tem um novo projeto?
Tenho um projeto para filmar no Japão há um ano…
O Covid estragou-lhe os planos?
[A pandemia] é um problema global. Espero há um ano conseguir filmar no Japão (…) a protagonista é japonesa, ao lado de um ator francês, o Melvil Poupaud.
Tenho falado com alguns cineastas que me disseram que a pandemia mudou a sua forma de ver o mundo e agir? A pandemia também o mudou?
Não, pessoalmente não. O mundo mudou, certamente, mas não a forma de o habitar. Sabe, e vou dizer isto de forma provocadora, houve muitas coisas favoráveis que surgiram com a pandemia…
Mas para o cinema foi terrível, não?
Um desastre. Mas era um desastre esperado há anos. A pandemia acelerou as coisas, com a chegada de resultados desastrosos, obrigando todos a olharem para o problema de frente de forma séria. Foi duro e vai continuar a ser…

