Depois de ter estudado música e pintura, além de administração, o chinês Li Ruijun iniciou o seu percurso na sétima arte, evocando frequentemente temáticas que mostram o desaparecimento de formas tradicionais de vida e a consequente transformação do indivíduo inserido numa sociedade cada vez mais polarizada nas cidades.
E depois de filmes como “The Summer Solstice“, “Fly with the Crane“, “Walking Past the Future“, entre outros, Li Ruijun regressou à sua cidade natal, Gaotai, na região chinesa que faz fronteira com a Mongólia Interior a nordeste, para filmar “Return to Dust“(Regresso ao Pó), um dos mais belos filmes vistos na 72ª Berlinale, também exibido no LEFFEST e no Festival do Cairo, inserido no Panorama Internacional.

No filme acompanhamos dois solitários, Youtie Ma (Wu Renlin) e Guiying Cao (Hai Qing), unidos por um casamento de conveniência, atravessando o difícil percurso da vida rural, especialmente quando o governo decide demolir a sua casa precária e os relocalizar num apartamento numa cidade. “Os meus heróis, Ma e Gujing, levam vidas tão protegidas como difíceis. Ele é um humilde agricultor numa cooperativa rural, o último da sua família a permanecer solteiro, e ela é deficiente e infértil, e já passou da idade considerada para casar na China rural”, explicou o cineasta em Berlim ao C7nema. “O casamento arranjado que vemos em cena reúne duas pessoas habituadas ao isolamento e à humilhação. Embora pareça que um relacionamento forçado possa tornar as suas vidas ainda mais miseráveis, eles aproveitam a oportunidade para se superarem a si mesmos e descobrir um destino compartilhado. Nisto, aprendem a se tornar companheiros íntimos, a falar, a cuidar um do outro e até a rir. Tudo isso apesar do trabalho árduo exigido pela sua conexão essencial com a terra e apesar das provações que os aguardam na jornada comum (…) Eles são duas pessoas numa bicicleta a perseguir um comboio de alta velocidade.”
Enquanto aborda a história de uma relação encomendada que se torna apaixonante aos poucos e poucos, Li Ruijun, que na juventude trabalhou nas colheitas da própria família, toca igualmente em diversos assuntos que traçam o retrato económico e urbano da China moderna, e a morte de diferentes formas de vida no campo. “O título chinês significa “escondido na terra da poeira e da fumaça”. Num nível filosófico mais profundo, este título sugere que o tempo e a vida que passou, não se foram, mas estão escondidos na poeira. O que não podemos ver, não significa que não exista. No filme, também observamos a exploração dos trabalhadores rurais, a urbanização forçada e a erradicação das tradições e da pobreza no meio rural.”

Li Ruijun opta por usar vários não-atores no filme, estando presentes em cena alguns familiares, como nos contou: “Os meus pais e parentes também estão neste filme, porque conhecem muito bem a vida tradicional das aldeias ao redor de Gaotai. O ator principal do filme é o meu tio, Wu Renlin, e o seu filho interpreta o segundo sobrinho. O meu irmão e o meu pai já trabalharam comigo anteriormente, tornando-se verdadeiros “atores“.
A escolha da região de Gaotai como locação, e o passar do tempo, foi pensada ao milímetro pelo cineasta: “A China tem dezenas e dezenas de milhares de salas de cinema, mas raramente o público pode ver as vidas do povo de Gaotai, e é importante que elas sejam vistas e compreendidas. O que existe de melhor das tradições locais centenárias desta região está a desaparecer devido à rápida urbanização. O meu filme documenta as rápidas mudanças que acontecem e presta homenagem à terra que alimentou a minha vida e a minha alma. É a principal fonte de inspiração para os meus filmes (…) Trabalhei tudo isto seguindo as mudanças sazonais, o ciclo de vida das culturas e até a estação das aves migratórias. Passámos quase seis meses a preparar um plano detalhado e o cronograma das filmagens. Devido à pandemia, o trabalho foi dividido em cinco partes. Filmamos um total de 85 dias, de março a outubro de 2020. Até hoje, foi a filmagem mais longa que tive. A pandemia atrapalhou muito e, para mim, todas as quatro temporadas foram importantes para mostrar a realidade da vida e do tempo, mas também o desenvolvimento do amor entre os protagonistas. Além disso, também tivemos que cuidar de todos os animais e das colheitas para garantir que elas cresciam bem”.
Evocações sobre cinema
“Manifesto fã do cinema de Abbas Kiarostami, que de certa forma representa uma referência, o chinês deixou ainda algumas considerações sobre a 7ª arte: “Dizem que o cinema é a arte do tempo. Nesse sentido, o trabalho de um realizador de cinema é essencialmente o mesmo de um agricultor – depende do clima. No cinema, enfrentamos constantemente os problemas do tempo e da vida. Os agricultores confiam na terra e no clima com as suas colheitas e meios de subsistência, então os cineastas confiam na terra e no clima para os seus filmes. Palavras no papel são como sementes que no final crescem como uma colheita. Com as imagens captadas pela câmera, elas transformam-se naquilo que perpetuamos nas nossas memórias mais distantes”.
“Regresso ao Pó” terá estreia comercial nas salas portuguesas.

