Pascal Elbé aborda a perda de audição em “Fomos feitos um para o outro”

(Fotos: Divulgação)

Com cerca de 70 créditos na atuação desde a década de 1990, Pascal Elbé regressou às lides da realização com “On est fait pour s’entendre” (Fomos feitos um para o outro), um drama de toada cómica e uma pitada de romance que depois de ser exibido na Festa do Cinema Francês chegará às salas comerciais portuguesas no próximo dia 3 de novembro. 

Em França existem cerca de 8 milhões de pessoas com problemas auditivos e em Portugal estimam-se valores na casa de 1 milhão de pessoas que já apresentam sintomas de perda auditiva. É nessa perda de audição que o ator e realizador centra as atenções do seu filme, que tem como protagonista Antoine (Elbé), um professor de História que se remete à solidão por não assumir um handicap que o afeta no dia a dia. Quando, por acidente, ele conhece a sua vizinha (Sandrine Kiberlain) e a filha desta, a vida do homem vai mudar, ganhando ele o alento para olhar para o problema de frente e ultrapassar as diversas adversidades que o handicap lhe reserva no dia a dia.

Foi em janeiro que falámos com Pascal Elbé sobre este filme, o qual já está cogitado para ter uma versão norte-americana.

A perda da audição é, de certa forma, um tema tabu na nossa sociedade. Crê que era importante abordar isto hoje em dia através deste filme?

É um tema tabu, pois estamos a falar de um handicap. E podemos rir com isso, essa é a tragédia da vida. Quando fiz este filme foi como uma espécie de coming-out da audição e muita gente escreveu-me e agradeceu-me por tocar neste tema, pois sentiram-se libertados. A perda de audição é algo que não impede as pessoas de fazerem coisas, mas é complicado viver com isso. É algo que, por exemplo, não está integrado na cultura. 

Sabia que este era um filme importante para as pessoas que sofrem disso, mas acima de tudo queria fazer uma comédia e falar de amor. Encontrei uma forma de fazer isso hoje em dia numa sociedade onde existe bastante solidão. E vamos acompanhar alguém assim que vai aprender a escutar.

E como foi o estudo sobre essa condição, a pesquisa para o guião?

 Sim. Li um livro de um autor britânico, David Lodge, que se chama “A Vida em Surdina”. Ele fala em coisas muito precisas que me disseram muito. Pensei muito, durante a execução deste filme, de como mostrar ao público isso, quer graficamente, quer em termos sonoros. E uso muito o som para isso. Inicialmente olhei para o que escrevi e disse: “merda, isto é uma comédia romântica”. Não queria isso, preferia falar de uma personagem que perde o equilíbrio. Um professor de História que transmite o saber, mas não entende o que os seus alunos dizem. Como vai ele transmitir e partilhar o conhecimento, mas que não entende quem o rodeia? Não queria fechar o guião apenas no handicap, mas usar esse mesmo handicap para falar de algo mais vasto. Quer a pequena que vemos no filme, quer este professor, têm os seus handicaps, mas ambos se entendem perfeitamente, ajudando o homem a avançar para o assumir do seu problema.

E pegando no que disse, como foram desenvolvidos os papéis da pequena e da Sandrine Kiberlain, que faz de vizinha do professor e potencial interesse amoroso?

Nunca quis fazer uma comédia romântica, como disse, por isso não as preparei para isso. Acima de tudo a forma como as personagens se encontram é por acidente. No caso do professor, ele fala com a jovem como se ela fosse uma adulta. Ambos têm algo de complicado nas suas vidas que os fará encontrarem-se. Saber ouvir o outro, é o que os une. Além disso, temos personagens adultos já na casa dos 50 anos, em que ele vai redescobrir a palavra, os sons. Passamos de uma relação entre um adulto e uma criança que se sentem mais fortes um com o outro e depois eventualmente a três, com a ligação à Sandrine.

No meu trabalho com as duas, os diálogos estavam escritos, muito detalhados, mas deixo sempre um espaço. Como sou também ator, sei que às vezes temos de fazer uma economia das palavras que estão escritas. O que escrevi, era, a  meu ver, o mais justo para a personagem. Eu estava ao serviço do ator. Mas, claro, quando escrevemos algo, atuamos interiormente o que escrevemos. E quando ensaio a cena em palco, sinto que talvez falte uma palavra ou frase, ou esteja algo a mais. Com elas igual. 

Como é criar esse balanço, esse jogo e interação, quando se é o escritor,  ator e realizador de um filme?

É um trabalho principalmente que acontece antes das filmagens, em que ensaio com a minha colega de cena e tenho de manter atenção ao que faço como realizador. Acima de tudo procuro o prazer quando estou ao lado da Sandrine, e para isso tenho de a ouvir. Na questão de atuar, como escrevi o guião, estava muito bem preparado para o papel e não tinha de explicar o que queria a outro ator, tornando tudo mais simples. 

Pascal Elbé e Sandrine Kiberlain

Qual foi o maior desafio em mostrar, cinematograficamente, a perda da audição. Já falou no seu trabalho com o som, mas que outros cuidados teve?

Queria que estivéssemos constantemente imersos na personagem e o seu handicap. Quis assim seguir sempre o seu ponto de vista, mas senti a necessidade de duas ou três vezes, em cenas específicas, que o espectador tivesse a perspetiva de outras personagens, para que a audiência percebesse onde queríamos chegar. Trabalhei muito com os engenheiros de som para ressignificar determinados sons de forma a serem acessíveis também às pessoas que ouvem bem. Este é um filme sobre a perda de audição, mas também um filme sobre som. E queria mostrar isso em cinema, para o grande ecrã, com o som, imagem e décor (que não são realistas) apropriados para esse meio. Não queria fazer algo realista a todo o custo, mas cinema para mostrar um drama principalmente interior.

Pelo tema, o filme fez-me a certo ponto lembrar “A Família Bélier”, que teve direito a um remake norte-americano (CODA). Crê que o seu filme também poderá ter uma versão norte-americana?

Sim, já fomos abordados por um estúdio dos EUA. É uma história universal e muita gente, de todas as idades, lida com este problema. É um filme que se adapta bem a qualquer mercado, país. Em França existem 8 milhões de pessoas com problemas auditivos. É imensa gente e em todo o lado acontece o mesmo. 

Falou que fez o filme a pensar no cinema. Essa ação é importante para si, isto em tempos em que o streaming ganha espaço?

Sim, sem dúvida. O cinema será sempre cinema. Gosto de séries, mas um filme (para cinema) dá-me sempre emoções diferentes. Um filme podes rever continuamente. Uma série, vês uma vez, ou duas, e acabou. Há outro tipo de emoções  envolvidas, uma outra gramática. São formidáveis, mas diferentes do cinema, onde as emoções são mais puras. São meios de consumo diferentes (…) E com a quantidade de coisas que vemos nas plataformas, a busca do que mostrar no cinema é diferente. Existe uma verdadeira reflexão hoje em dia sobre isso, mesmo que saibamos que desde que o cinema nasceu dizem que vai morrer em breve.

Não quer dizer que não existam bons filmes nas plataformas. Por exemplo, vi o “A Mão de Deus” do Sorrentino na Netflix, que é um filme de autor. Mas por cada filme bom que fazem, encontramos lá 20 mil merdas. O cinema perdeu o seu lugar, mesmo nessas plataformas, ainda que nelas encontremos boas séries e documentários.  Mas o cinema deverá se manter sempre o cinema.

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