Já com uma longa-metragem, “Spína” (Filthy), estreada em Roterdão, a eslovaca Tereza Nvotovà conquistou o júri da secção Cineastas do Presente na edição 75 do Festival de Locarno com “Nightsiren”.
“O sucesso de ‘Spina’ trouxe-me uma grande pressão para o meu segundo filme”, disse-nos a realizadora numa entrevista esta sexta-feira. “O meu primeiro filme foi feito numa perspetiva de ‘vamos ver se consigo’. Ninguém tinha expectativas. Mas como teve sucesso, para o segundo já surgiu a pressão e muitas pessoas no processo davam a sua opinião de como as coisas deveriam ser. Ideias sobre filme de género, ou não. E eu ali no meio. Foi um bocado louco.”
Em “Nightsiren”, Nvotovà procura dissipar mitos ultrapassados em torno da feminilidade, impondo ao espectador uma história que demonstra como as antigas superstições misóginas estão a ressurgir no mundo moderno. No filme seguimos uma mulher que volta onde cresceu para fechar as contas com a sua infância problemática. Porém, quando chega, rapidamente sucede um escalada de problemas e conflitos que levam todos a considerá-la indesejada.

“Já não queimamos mulheres nas fogueiras, mas continuo a crer que elas continuam a ser demonizadas”, diz a jovem cineasta. “Se a mulheres fizerem isto ou aquilo podem ser chamadas de putas, ou demasiado ambiciosas, etc. Chega ao ponto de tudo o que faças nunca ser aceitável como o é para os homens. Antigamente queimavam as mulheres e diziam que elas eram bruxas, agora é diferente mas mantém-se uma diferença de tratamento. Por isso falamos hoje em dia de Patriarcado (…) Só para dar um exemplo, na Eslováquia, 1 em cada 3 mulheres são abusadas fisicamente ou sexualmente. Isso claramente vem de uma ideia que os homens têm uma espécie de poder sobre as mulheres.”
Para Nvotovà, o caso do regresso das leis restritivas ao aborto nos EUA é um exemplo claro de como estamos a regredir nos direitos das mulheres sobre o seu próprio corpo. “Não existe nenhum problema com masculinidade ou feminilidade, a questão está na toxicidade e o achar que se tem o direito de controlar outra pessoa, de decidir por ela. Há muitos homens que viram o filme e questionam porque não apresentei bons exemplos masculinos nas personagens. A verdade é que existem vários filmes onde as mulheres são assim ou irrelevantes e ninguém nunca questiona isso (…) Chamam aos meus filmes femininos, mas porque diabo não dizem que o ‘Top Gun’ é um filme masculino?’.

Estética de luxo ao serviço da narrativa
Sobre os aspectos formais do filme, que Nvotovà coescreveu com a sua amiga e colega Barbara Namerová, a cineasta confessa que não gosta particularmente da estrutura em capítulos, mas que optou por ela após 8 meses de intensa ‘luta’ na sala de montagem. “Esses capítulos ajudaram-me muito em termos estruturais a contar a história que queria, a manter o filme abaixo das duas horas, ajudando assim também a cativar mais a audiência.”
Quanto à estética e ao trabalho da fotografia de Federico Cesca, a realizadora confessa que procurava alguém que trabalhasse bem com a luz natural e com um sistema de câmara na mão (handheld). “Queria que o filme fosse como a vida, com grande autenticidade. Estávamos a trabalhar com ideias muito loucas, por isso queria transmitir uma maior autenticidade. Trabalhar com o Fed foi ótimo. Filmámos uma cena, mudávamos a perspetiva. Isto permitia também aos atores serem mais naturais. Quanto às cenas mais loucas na floresta, uma inspiração foi o pintor Hieronymus Bosch. Outra foi o Sabbat das bruxas, mas transformado numa espécie de fantasia lésbica com o medo incluído. Juntamente com um coreógrafo e a responsável pelo guarda-roupa, em equipa fomos acrescentando ideias, como os néons, que trabalhámos no pós produção“.
Violência, sensualidade e erotismo
Há uma cena particular em “Nightsiren” que começa com a violência de um homem perantes mulheres e crianças, continua com uma tentativa de violação, e termina com o potencial violador a ter sexo com a própria esposa, acabando ele também por ser sexualmente forçado pela mulher. Esta viagem, em poucos instantes, com diferentes retratos de violência e poder, que passam de uma personagem para outra, tem particular impacto no filme e na mensagem que a cineasta quer passar: “Queria mostrar esta personagem masculina, sexualmente frustrada, mas também uma mulher (a protagonista) que não tem medo dele, que não é vítima. Depois de resistir, passa a ser vítima de um ato sexual não consentido. Ela consegue escapar e ele vai libertar a sua frustração na esposa, que por sua vez o usa para aquilo que pretende. Quis mostrar um círculo vicioso. Não quis demonizar os homens, mas mostrar uma dinâmica doentia que criamos como sociedade. O conseguir o que se quer através da manipulação.”

