Tereza Nvotovà brilha com “A Sereia da Noite”: “Não quis demonizar os homens”

“Nightsiren” (A Sereia da Noite) estreia a 1 de agosto

(Fotos: Divulgação)

Já com uma longa-metragem, “Spína” (Filthy), estreada em Roterdão, a eslovaca Tereza Nvotovà conquistou o júri da secção Cineastas do Presente na edição 75 do Festival de Locarno com “Nightsiren”.

O sucesso de ‘Spina’ trouxe-me uma grande pressão para o meu segundo filme”, disse-nos a realizadora numa entrevista esta sexta-feira. “O meu primeiro filme foi feito numa perspetiva de ‘vamos ver se consigo’. Ninguém tinha expectativas. Mas como teve sucesso, para o segundo já surgiu a pressão e muitas pessoas no processo davam a sua opinião de como as coisas deveriam ser. Ideias sobre filme de género, ou não. E eu ali no meio. Foi um bocado louco.”

Em “Nightsiren”, Nvotovà procura dissipar mitos ultrapassados ​​em torno da feminilidade, impondo ao espectador uma história que demonstra como as antigas superstições misóginas estão a ressurgir no mundo moderno. No filme seguimos uma mulher que volta onde cresceu para fechar as contas com a sua infância problemática. Porém, quando chega, rapidamente sucede um escalada de problemas e conflitos que levam todos a considerá-la indesejada.

Já não queimamos mulheres nas fogueiras, mas continuo a crer que elas continuam a ser demonizadas”, diz a jovem cineasta. “Se a mulheres fizerem isto ou aquilo podem ser chamadas de putas, ou demasiado ambiciosas, etc. Chega ao ponto de tudo o que faças nunca ser aceitável como o é para os homens. Antigamente queimavam as mulheres e diziam que elas eram bruxas, agora é diferente mas mantém-se uma diferença de tratamento. Por isso falamos hoje em dia de Patriarcado (…) Só para dar um exemplo, na Eslováquia, 1 em cada 3 mulheres são abusadas fisicamente ou sexualmente. Isso claramente vem de uma ideia que os homens têm uma espécie de poder sobre as mulheres.”

Para Nvotovà, o caso do regresso das leis restritivas ao aborto nos EUA é um exemplo claro de como estamos a regredir nos direitos das mulheres sobre o seu próprio corpo. “Não existe nenhum problema com masculinidade ou feminilidade, a questão está na toxicidade e o achar que se tem o direito de controlar outra pessoa, de decidir por ela. Há muitos homens que viram o filme e questionam porque não apresentei bons exemplos masculinos nas personagens. A verdade é que existem vários filmes onde as mulheres são assim ou irrelevantes e ninguém nunca questiona isso (…) Chamam aos meus filmes femininos, mas porque diabo não dizem que o ‘Top Gun’ é um filme masculino?’.

“Nightsiren”

Estética de luxo ao serviço da narrativa

Sobre os aspectos formais do filme, que Nvotovà coescreveu com a sua amiga e colega Barbara Namerová, a cineasta confessa que não gosta particularmente da estrutura em capítulos, mas que optou por ela após 8 meses de intensa ‘luta’ na sala de montagem. “Esses capítulos ajudaram-me muito em termos estruturais a contar a história que queria, a manter o filme abaixo das duas horas, ajudando assim também a cativar mais a audiência.”

Quanto à estética e ao trabalho da fotografia de Federico Cesca, a realizadora confessa que procurava alguém que trabalhasse bem com a luz natural e com um sistema de câmara na mão (handheld). “Queria que o filme fosse como a vida, com grande autenticidade. Estávamos a trabalhar com ideias muito loucas, por isso queria transmitir uma maior autenticidade. Trabalhar com o Fed foi ótimo. Filmámos uma cena, mudávamos a perspetiva. Isto permitia também aos atores serem mais naturais. Quanto às cenas mais loucas na floresta, uma inspiração foi o pintor Hieronymus Bosch. Outra foi o Sabbat das bruxas, mas transformado numa espécie de fantasia lésbica com o medo incluído. Juntamente com um coreógrafo e a responsável pelo guarda-roupa, em equipa fomos acrescentando ideias, como os néons, que trabalhámos no pós produção“. 

Violência, sensualidade e erotismo

Há uma cena particular em “Nightsiren” que começa com a violência de um homem perantes mulheres e crianças, continua com uma tentativa de violação, e termina com o potencial violador a ter sexo com a própria esposa, acabando ele também por ser sexualmente forçado pela mulher. Esta viagem, em poucos instantes, com diferentes retratos de violência e poder, que passam de uma personagem para outra, tem particular impacto no filme e na mensagem que a cineasta quer passar: “Queria mostrar esta personagem masculina, sexualmente frustrada, mas também uma mulher (a protagonista) que não tem medo dele, que não é vítima. Depois de resistir, passa a ser vítima de um ato sexual não consentido. Ela consegue escapar e ele vai libertar a sua frustração na esposa, que por sua vez o usa para aquilo que pretende. Quis mostrar um círculo vicioso. Não quis demonizar os homens, mas mostrar uma dinâmica doentia que criamos como sociedade. O conseguir o que se quer através da manipulação.

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