Faltam 21 dias para a 75ª edição do Festival de Locarno zarpar, à boleia de “Bullet Train”, de David Leitch, e a agenda de Giona A. Nazzaro arde na fervura máxima dos afazeres de diretor artístico, curador e renovador do evento. O perfil pop, com a habitual assinatura autoral carregada de inventividade, endossada com o aplauso da Cahiers du Cinéma, do qual a maratona audiovisual suíça hoje se orgulha, é mérito deste crítico. Entusiasta de Sylvester Stallone, leitor de Marshall McLuhan e espectador de iguarias – do faroeste do Terceiro Mundo de Rogério Sganzerla aos ninjas de Sam Firstenberg, passando por “Viridiana” –, este respeitado teórico fílmico, nascido em Zurique, publicou livros seminais sobre a indústria asiática, entre os quais o obrigatório “Il Dizionario Dei Film Di Hong Kong”. Na entrevista a seguir, via Zoom, ele explica ao C7nema a lógica por trás de Locarno, na disputa pelo Leopardo de Ouro e nos eventos paralelos, que vão de 3 a 13 de agosto.
Em 2021, logo após a vitória de Edwin e “Vengeance Is Mine, All Others Pay Cash”, a Cahiers du Cinéma publicou uma reportagem laudatória sobre a reinvenção de Locarno sob a sua curadoria. A aposta no cinema de género renovou o evento. Mas que desafio o sucesso da edição passada impôs?
O esforço é criar uma programação que possa ser tão interessante quanto a da edição passada e, para isso, é necessário sempre recomeçar do zero. Não acredito em ecletismo. Ser eclético é ter um pouco de tudo e não aprofundar nada. Acredito em ser inclusivo. E incluir requer ter os olhos abertos não apenas para o novo, para as revelações, como para novas potências de vozes autorais já estabelecidas. Isso faz-se com atenção, sem levar as boas intenções em consideração.
No ano passado, essa dimensão das novas potências de autor estabelecidas deu-nos um Abel Ferrara poderoso: “Zeros and Ones”. O que se pode esperar de Sokurov em “Fairytale”?
O que eu posso dizer sobre Sokurov é: temos um filme que vai deixar pessoas de sobrancelhas em pé, pois não tem nada a ver com o que ele fez antes e nada a ver com o que fará depois.
A sua curadoria tornou-se notória por celebrar filmes de género.
Sinto que o empenho aí foi apresentar novos olhares sobre o que é estabelecido, pois não gosto de rótulos. Zé do Caixão é cinema de autor, ponto. Eu tenho este ano, na competição, cineastas cuja trajetória criativa já está fundamentada numa linha criativa, como Mahesh Narayanan, Alessandro Comodin, Julia Murat, Patricia Mazuy e Carlos Coimbra. E temos vozes que estão a estrear-se. Essa troca é importante.
Sim, mas nessa linha, Locarno abriu uma outra perspetiva, que foi jogar os holofotes nas diferentes vertentes de cinema que são feitas na Suíça. Como avalia o cinema suíço atual?
Temos hoje toda uma geração que está conectada com o mundo, além das suas fronteiras, e cria, de maneira talentosa e corajosa. Há uma comédia LGBTQI+ anarquista e insurgente vinda da Suíça na competição, que é o filme de Valentin Merz (“De Noche Los Gatos Son Pardos”). E há muitas vozes para descobrir da produção suíça na sessão de curtas.
O Giona que defendia aguerridamente o cinema de ação asiático modificou-se depois da experiência de Locarno? Se sim ou se não, como? Continua a ser um crítico? Continua a escrever?
Nada mudou. Quando finalizo o meu trabalho, no fim do dia, chego em casa e faço play no blu-ray de um giallo italiano que não tenha visto ou em algum filme de kung fu interessante. Vi um dia destes um René Clément com a Jane Fonda e o Alain Delon, “Les Félins” (“A Jaula do Amor”, em Portugal), que não conhecia, e foi uma experiência incrível. Continuo a escrever para revistas italianas de crítica, pois escrever é uma forma única de exercitar o pensamento, e terminei faz pouco tempo a curadoria de um livro de artigos sobre o Mario Martone e o seu cinema. Ainda sou aquele cinéfilo que compra filmes de todo tipo, que não conhece, demora um bom tempo para mexer neles, mas, um dia, diante da sua coleção, escolhe um de modo aleatório, para ter o prazer da descoberta.
No ano passado, um filme da Netflix, “Beckett”, abriu o festival. E você assumiu a curadoria de Locarno no meio ao boom dos streamings na pandemia. Hoje, somos diariamente bombardeados na imprensa com notícias sobre a retração da produção nas plataformas e sobre crises na Netflix. Se esse setor, o da streaminguesfera retrai, que novos caminhos o cinema pode encontrar?
Sempre que essa discussão é levada à esfera de uma ideia de concorrência com o cinema, de risco para exibidores, há um erro. O cinema não parou e continua a acontecer. A discussão, no âmbito dos conteúdos, deveria ser outra. A pergunta é: quantos “West Wings” viste, e que sejam tão bons quanto o original? Quantos “Breaking Bads” existem e são tão bons quanto o original? Existe, sim, muitas séries. Mas quantas tem a potência de um “Succession”? Nesse tempo, a Netflix deu-nos um novo filme de Scorsese, um novo grande filme de Jane Campion. Falaram mal dos streamings quando eles começaram a fazer séries, e boas. Falaram mal quando eles deram meios ao Scorsese para filmar. E falam mal agora que há questões com as suas ações. As pessoas estão sempre a culpar, a acusar. É hora de avaliar o que foi feito.

