50 anos de “Deep Throat”: efeméride que Il Cinema Ritrovato engole com prazer

(Fotos: Divulgação)

Cercado de mais holofotes do que habitual, ao exibir um filme inédito da aclamada Alice Rohrwacher (“Le Pupille”), apresentar um documentário sobre a atriz Leila Diniz (“Já Que Ninguém Me Tira Para Dançar”) e redescobrir pérolas de Pier Paolo Pasolini, Douglas Sirk e Jean Renoir, o festival Il Cinema Ritrovato vai desafiar tabus europeus esta quinta-feira e sábado, excitando o público de Bolonha com uma cópia restaurada do maior clássico do cinema pornográfico de todos os tempos: Deep Throat”. O nome em português é a tradução literal: Garganta Funda.

La Vera Gola Profondaé o título em italiano da produção de 25 mil dólares (alguns sites falam em 47 mil), realizada por Gerard Damiano (1928-2008) com Linda Boreman (1949–2002), aka Linda Lovelace, no papel principal. A estreia aconteceu em 1972 e estima-se que, entre vetos das alas moralistas, patrulhas ideológicas e problemas com o circuito exibidor, o filme tenha arrecadado 50 milhões de dólares. Há mesmo fontes que atiram estas cifras às estrelas e falam de 60 milhões, uma vez que o seu lançamento se deu numa época sem aferição digital ou mecânica da venda de bilhetes. Os bilhetes que vendidos eram contabilizados manualmente em borderôs, que poderiam ser adulterados de modo a declarar aos produtores menos do que, de facto, foi acumulado.

Valores à parte, ninguém contesta a relevância da abordagem bem-humorada e erótica idealizada por Damiano, que iniciou a partir dali um império, dando à indústria porno marcas de excelência que ela desconhecia. Inclusivamente um star system. Não por acaso, no dia 10 de junho, em Nova Iorque, o Festival de Tribeca organizou uma exibição da longa-metragem, mediada pelos herdeiros do realizador, Christal e Gerard Damiano Jr., além de Robin Leonardi, ativista da liberdade de expressão que lidera a produtora Damiano Films.

O nosso empenho é preservar o filme, sem que ele seja deturpado, pois ‘Deep Throat’ deu às mulheres uma onda de positividade nos anos 1970, que desafiou a objetificação e ampliou o nosso orgulho, ao libertar o desejo”, disse Christal ao C7nema via Zoom. “O sucesso que o meu pai alcançou vem de um retrato que desafiou o moralismo de uma época na qual o clitóris era uma palavra proscrita”.

A discussão que Christal levanta é um painel histórico, pois no tempo das filmagens de ‘Deep Throat’, a figura de Linda Lovelace representou um levante da força feminina, seminal para que nós nos orgulhássemos da nossa identidade”, acrescenta Robin. “A Linda criou uma personagem doce, genuína em busca por prazer, num período de amor livre. No porno, houve um momento em que toda a gente com uma câmara de cinema e com um cartão crédito, passava a se achar e sentir um realizador. O Gerard mostrou que não era bem assim”.

Copiado à exaustão nos anos 1980 e 1990, inspirando franquias de sexo explícito como “Buttman Goes to…”, “ButtWoman”, “Buttslammers”, “Takin’ it Into The Limit” e “Panteras”, “Deep Throat” depurou a ideia de que o cinema pornográfico poderia ter um enredo que fisgasse o espectador não apenas pelas hormonas mas, também, pela inteligência. No enredo criado por Gerard, Linda Lovelace, uma mulher sexualmente frustrada, pede conselhos à sua amiga, Helen (Dolly Sharp), sobre como alcançar um orgasmo. Helen recomenda que Linda visite um psiquiatra, o Dr. Young (Harry Reems, hilário). Investigando de maneira consentida a anatomia da sua paciente, o médico descobre que o clitóris de Linda está localizado na sua garganta. Ele sugere então que ela desenvolva as suas habilidades sexuais orais, aprimorando-se na felação. Mas algo vai mudar quando ela encontrar alguém que lhe ofereça mais do que apenas orgasmos.

O nosso empenho em levar essa narrativa em festivais como os de Tribeca e de Bolonha é que ele seja encarado como um produção arthouse, dando ao meu pai um reconhecimento póstumo como o realizador-autor que foi”, explicou Damiano Jr., que planeia uma tournée mundial com a cópia restaurada de “Deep Throat” passando ainda por Berlim, Seattle, Los Angeles, Miami, Chicago, Montreal, Amsterdão, Roma, Londres, Tóquio e Paris. “Queremos que as pessoas vejam este filme pela ua potência cinematográfica e não apenas como pornografia. Hoje, a internet oferece sexo a quem aceder a um site. Há filmes pornográficos por todo o lado da web. Mas não existe a experiência de se ver uma narrativa sobre desejo, como aquela, numa sala de cinema, em coletividade. No meio do puritanismo da América, trazer este filme à tona de novo é um desafio. Assim como foi desafiante preservá-lo de modo a que o som e a fotografia ficassem da maneira como o meu pai idealizou o projeto”.

Gerard Damiano, o rei do cinema pornô

Damiano, Christal e Robin aplaudem o movimento #MeToo por onde passam, citando a importância da equidade de géneros e do respeito às mulheres nos sets. “Tudo na indústria do sexo só funciona com respeito e segurança”, diz Robin, relevando a importância de Lovelace como um símbolo da libertação do corpo. “Estou a trabalhar agora para restaurar outros filmes do Gerard. Serão seis ao todo. E quero fazer uma retrospetiva dessa obra”.

Pioneira no sexo hardcore, “Deep Throat” foi além das salas grindhouses dos EUA (no Brasil, elas são chamadas de “cinema poeira”) e fundaram a noção do Porno Chic, abraçada pelos europeus a partir do lançamento de “Emmanuelle” (1974), que será refilmado por Audrey Diwan com Léa Seydoux.

Antes de ‘Deep Throat’, o nome do meu pai não podia aparecer em nenhum filme, por causa da patrulha [moralista] que existia. Depois do sucesso deste filme, o nome dele virou uma estampa de qualidade”, diz Damiano Jr., que andou pelo Museu de Cinema de Amsterdão à cata de cópias de qualidade que pudessem servir de matriz para o restauro. “Hoje, podemos circular por eventos em Tribeca e na Europa porque o cinema analógico, em película, virou um fetiche. Hoje em dia, as projeções que são interrompidas por problemas de projeção são romantizadas“.  

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