Juliette Binoche: “O sucesso dos filmes não faz parte dos meus cálculos”

Nos cinemas a 24 de março

(Fotos: Divulgação)

Crítico de cinema e escritor (Limonov; Pesadelo na Neve; Bravoure e Le Royaume), Emmanuell Carrère estreou-se na 7ª arte com “Retour à Kotelnitch” (2003). Depois disso, adaptou o seu próprio romance, “La Mustache/Amor Suspeito” (2005), com Vincent Lindon e Emmanuelle Devos no elenco, sendo precisos 16 anos para se voltar a sentar na cadeira de realizador. 

Esse regresso foi com “Ouistreham- Entre Dois Mundos”, adaptação livre do livro “Le Quai de Ouistreham, da jornalista Florence Aubenas, que teve a honra de abrir a Quinzena dos Realizadores de Cannes em 2021.

No filme, Juliette Binoche é uma escritora que se infiltra num grupo de trabalhadoras das limpezas para reunir documentação e testemunhos sobre as dificuldades e invisibilidade dessa vida na região de Caen. Mais uma atuação tremenda de uma atriz que a cada papel nos surpreende e que desta vez teve de atuar ao lado de não-atores, todos eles profissionais no trabalho que os vemos fazer em cena. 

Estas pessoas estão nas margens da sociedade e o ato de trabalhar aquelas seis horas na limpeza é uma questão de sobrevivência, disse-se a atriz numa entrevista em janeiro, no qual estavam presentes outras duas jornalistas. Uma conversa que originalmente iria ser presencial, mas que afinal teve de decorrer por Zoom devido a nova explosão dos casos de Covid-19 e o consequente confinamento. Nada de “novo” ou grave, quando já estamos em 2022, mesmo que um gato tenho tomado conta da câmara da jornalista italiana, durante uns segundos, gerando enormes gargalhadas em todo o grupo.

No filme retrata uma escritora que se faz passar por mulher da limpeza. O que extraiu de toda esta experiência?

Aprendi algumas coisas, como a quantidade de quilómetros, por vezes a pé, que estas pessoas fazem todos os dias. Também não sabia que os coletes amarelos chegaram a ser para elas uma dificuldade suplementar, com as suas manifestações, que as impediam de ir trabalhar. Estas mulheres estão nas margens da sociedade e o ato de trabalhar aquelas seis horas na limpeza é para elas uma questão de sobrevivência. Entendi também que entre elas existe uma enorme solidariedade, especialmente com a tensão e stress da limpeza daqueles ferries. No fundo, consigo imaginar a vida destas empregadas da limpeza em algumas particularidades, mas não consigo captar todo o coletivo das coisas porque passam. Questões como os problemas físicos que podem ganhar com a sua profissão, ou alergias e problemas respiratórios devido aos produtos tóxicos com que lidam diariamente; problemas nos ossos e até nos dentes. É todo um conjunto de circunstâncias que mostram uma dureza tremenda da sua profissão.

O filme tem uma forte componente política e social no mostrar a dureza dessas vidas. Sendo uma atriz, é importante usar a sua profissão e notoriedade para abordar a vida destas pessoas, tomando um partido e assim marcar uma posição social?

Sim, sem dúvida e foi por isso que insisti com a Florence Aubenas para adaptar o seu livro a filme. Quando o li achei que fazia uma ligação brilhante entre mundos diferentes, ou que dificilmente convivem. E o facto do Emmanuel Carrère ter escolhido não-atores, mas profissionais daquela área, foi uma forma de fazer justiça a estas pessoas.

Porém, coloca-se a questão da legitimidade de um ator estar ali, neste caso eu. Sou uma jornalista que constrói uma identidade paralela para entrar nesse mundo. Mas, para mim, era muito importante mostrar este mundo sempre em crise e com uma discrepância  cada vez maior entre ricos e pobres. E isso vai continuar com o clima que está também a mudar. É essencial falar dos mais frágeis. Urgente, mesmo.

Tem uma carreira em França e também a nível internacional. Como balança esses dois mundos? O que lhe interessa são os papéis ou existem outras questões na decisão?

Não tento necessariamente manter um equilíbrio no que faço, pois o local onde faço os filmes não importa assim tanto. Quando me oferecem papéis, em francês ou inglês, analiso o cineasta ou o tema. Tudo é muito relativo. Podes fazer um filme em inglês que ninguém vê, ou fazer um filme em francês que é muito visto e tem uma carreira internacional. O sucesso dos filmes não faz parte dos meus cálculos.

Fiz recentemente um filme no Mississippi, “Paradise Highway”, onde sou uma camionista. É um primeiro filme, mas gostei do guião, do tema e da realizadora, mesmo que lhe faltasse experiência à partida. Além disso, a perspetiva de interpretar uma camionista nos EUA era algo que nunca pensei que iria fazer!! Fui atraída pela incongruência e por uma ideia de aventura. Como atriz, é emocionante não saber se conseguirás, depois de um projeto, aterrar de pé, tal como um gato depois de uma queda de seis andares. Temos de tomar certos riscos. Se apenas procuras segurança, é melhor trabalhar num escritório.

E neste momento continua a dar uma atenção privilegiada ao cinema ou já pensa no streaming e na TV?

É uma boa questão. Fiz um episódio do ‘Dix pour cent” (2017), mas não conta porque foram apenas três dias de filmagens. No ano passado fiz a minha primeira série completa (“The Staircase”), realizada pelo Antonio Campos, um cineasta norte-americano que faz filmes e séries de TV. Fiquei surpresa inicialmente com o processo, pois são muitos episódios e começámos por filmar o fim! Eu vou fazer outro projeto de TV em breve. 

Mas sim, é algo que estou a pensar. É difícil fazer cinema hoje em dia, a todos os níveis, seja distribuição ou financiamento. É complicado. Por isso aceitei fazer outra série de TV, pois permite-me poder fazer filmes mais pequenos. No final do ano estarei num projeto do Lance Hammer, que fez o “Balast”. É alguém de quem gosto muito e estou muito excitada para o filmar. Depois, no início de 2022, vou participar na primeira longa-metragem de um realizador francês, que antes fez uma curta-metragem muito boa. E gostei também muito do guião. 

Por isso, posso dizer que fazer trabalhos para um meio não me impede de trabalhar noutro.

Sente que as mulheres estão a ganhar terreno e importância na indústria cinematográfica?

Tenho essa sensação. Em França há mais realizadoras, é um facto. Nos EUA é ainda uma batalha. Acabei de trabalhar com a Anna Gutto no filme do Mississipi. Ela é norueguesa, mas mora nos EUA há 20 anos. Ainda assim, não foi fácil para ela embarcar nesse projeto e essa foi uma das razões pelas quais quis fazer este filme com ela.

A Juliette investe de tal maneira nos filmes que participa- por exemplo, lutou pelos direitos de adaptação deste – que alguma vez pensou em passar para o outro lado das câmaras, produzir ou até mesmo realizar?

Queria produzir o “Ouistreham- Entre Dois Mundos”, mas o Emmanuel Carrère não desejava isso. Isso magoou-me e senti-me humilhada, mas como estávamos num filme sobre mulheres invisíveis e humilhadas, achei que era melhor eu participar na mesma. [Essa humilhação] foi uma boa preparação para a minha personagem. 

[Neste momento, a sala de Zoom ficou um pouco espantada com a frontalidade da atriz]

Digo isto com humor, mas às vezes também magoada. Não guardei rancor dele. O Emmanuel não me conhecia e acho que se agora lhe [pedisse] para fazer um filme comigo, estando eu como produtora, ele aceitaria. No fundo, senti que estava neste filme ao serviço de algo maior que eu. Não para me servir, mas para servir.

E tem outros projetos em mente que gostaria de fazer?

Tenho ideias para filmes e isso faz-me querer dar o salto, até porque começo a entender mais sobre a mise-en-scene! Mas, ao mesmo tempo, tenho a sorte de trabalhar com cineastas que têm seus próprios mundos e identidade cinematográfica, além de cineastas emergentes que ajudamos a guiar, sem imposições. 

Os cineastas habitam os filmes que criam, mas precisam sempre de atores para encarnar as personagens e dar vida aos seus guiões. Nas filmagens, eles têm de “desencarnar” o filme deles e precisam dos atores para isso. Há algo tão visceral e sensual quando um ator encarna internamente uma personagem, algo que dá profundidade ao filme. Isso é insubstituível. Portanto, é sempre importante saber como podemos contribuir para uma obra. Penso que me posso tornar realizadora e essa ideia é excitante.

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