Noomi Rapace: “a terra redefine todos os conceitos morais que nos cercam”

(Fotos: Divulgação)

Quem avisou foi Friedrich Nietzsche: existe um paralelismo histórico de complementaridade entre o cordeiro e a ave de rapina, em que um é a medida do outro. Historicamente contestado, o aforismo do autor de “O Crepúsculo dos Ídolos” ganha uma espécie de tradução audiovisual na relação entre a protagonista do premiado “Lamb (Cordeiro), disponível na MUBi do Brasil e previsto para estrear em Portugal no dia 31 de março, e a criatura que torna este provocante filme islandês uma jóia da seara da fantasia.

Para a sueca Noomi Rapace, revelada mundialmente com a franquia “Millennium”, em 2009, a longa-metragem de Valdimar Jóhannsson serviu quase como uma redefinição de carreira, por se tratar do seu trabalho mais impactante em anos, e fora dos milhões da Hollywood que desperdiçou o seu tempo em pseudo filmes de culto como “Prometheus”.

Venho de uma origem rural, criada numa quinta cercada de animais que me ensinaram o quanto a terra redefine todos os conceitos morais que nos cercam. E, em anos recentes, o cinema escandinavo surpreendeu-me com filmes que flertam com o que existe de mais encantatório nas forças naturais à nossa volta, como foi o caso de ‘Border’, de Ali Abbasi. Por isso, fiquei muito feliz de estar nessa história do Valdimar”, disse Noomi ao C7, via Zoom. “O que ‘Lamb’ me deu foi a chance de explorar o fascínio da Natureza naquilo que ela tem de mais potente: o mistério, a capacidade de ir além do nosso controle, da razão”.  

Lamb (Cordeiro)

Vencedor de nove prémios em diferentes países, “Lamb” foi revelado no ano passado em Cannes e laureado por lá com o Prémio de Originalidade, na secção Un Certain Regard. Trata-se de uma exótica história de maternidade envolvendo uma mulher e um cordeiro, bem parecido com o da alegoria de Nietzsche.

Procurei aproveitar o facto de as narrativas de género estarem em alta e testar os limites da suspensão da descrença para testar aquilo que o cinema pode contar a partir de um embate com o realismo”, disse Valdimar Jóhannsson ao C7 via Zoom. “Podemos esgarçar limites”.

Amparado por uma fotografia requintada, “Lamb” deu a Noomi o prémio de melhor atriz no Festival de Sitges, o mais prestigiado canteiro do cinema fantástico, celebrado anualmente na Catalunha. A longa-metragem saiu de lá ainda com a láurea de melhor longa-metragem e com o Prémio Citizen Kane de Revelação na Realização, dado a Jóhannsson.

A sua sombria narrativa acompanha a rotina de um casal, Maria (Noomi) e Ingvar (Hilmir Snær Guðnason), que vivem sós numa quinta remota na Islândia. Perturbados por uma perda recente, eles têm a sua rotina abalada pela descoberta de uma misteriosa criatura recém-nascida entre as suas ovelhas.

A Natureza está sempre a um passo de nos engolir. Esta é a sensação que criamos quando nos alienamos nela. Esquecemos que somos uma só coisa com a vida animal e vegetal”, disse Jóhannsson. “Fiquei feliz com a vitória de “Titane” na disputa pela Palma de Ouro no mesmo Festival de Cannes em que estreámos, pois foi uma celebração do cinema de género, do olhar para o mistério, da possibilidade de explorar a Natureza e a condição humana pelas vias da fantasia, desafiando convenções”.

Estreante na realização de longas–metragens, com experiência em equipas técnicas de fotografia, tendo trabalhado no “Fausto” de Aleksandr Sokurov (Leão de Ouro de 2011), Jóhannsson escolheu Noomi pelo que a atriz simboliza para ao audiovisual da Escandinávia.  “A criatura que aparece em ‘Lamb’, faz-me pensar numa ideia de pureza”, diz a atriz. “Pergunto-me em que ponto do processo civilizatório se interrompeu o processo de pureza que havia na natureza ao nosso redor”.

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