Cerca de dois meses antes da Europa se fechar por causa da pandemia Covid-19, encontramo-nos com o alemão Claus Drexel em Paris para falar de “Sob as Estrelas de Paris“, um drama que o realizador filmou com Catherine Frot no papel de uma sem-abrigo, entregue à dureza das ruas, que acolhe um jovem migrante de 8 anos.
Esse filme, que de certa maneira funcionava como uma continuação da história dos sem-abrigo que o realizador retratava no seu documentário “Au Bord du Monde” (2013), acabaria por ver a sua estreia adiada até agora, estando finalmente marcada a sua estreia nas salas nacionais para o dia 10 de fevereiro.

E esse adiamento derivado da pandemia foi tal que o projeto seguinte que Drexel filmou, “Au Coeur du Bois”, até chegaria mais cedo a Portugal, tendo sido exibido no último Indielisboa (agosto/setembro 2021).
Mais vale tarde que nunca e “Sob as Estrelas de Paris” merece ser visto no grande ecrã pela urgência da sua temática, até porque a pandemia não facilitou (bem pelo contrário) o combate à miséria e pobreza na cidade das luzes.
“Sob as Estrelas de Paris” não foi a sua primeira experiência a falar dos sem-abrigo, pois antes já tinha feito um documentário (Au bord du monde, 2013) sobre o assunto. O que o atrai a esse tema?
Vivo em Paris, observo-os frequentemente e questiono sempre: quem são estas pessoas? Há muitas reportagens sobre os sem-abrigo, mas não é costume falarem da pessoa em si, mas da sua condição. Por isso fiz um documentário onde ouvimos as pessoas. Não há uma análise da sua condição, deixamo-los simplesmente falar. Filmei isso durante um ano e essa experiência transformou-me. Poderia fazer um filme divertido, mas não podemos fechar os olhos ao mundo em que vivemos.
Depois desse filme fiz outro documentário, sobre as eleições americanas (América, 2018), onde falava muito do que apelidam de “rednecks”. Quando fiz odocumentário de 2013 a questão da imigração não estava ainda tão presente, mas quando visitei novas áreas (Calais) recentemente pensei que devíamos falar sobre o tema. Pensei novamente num documentário, mas com a ficção poderíamos sintetizar muitos dos problemas.
Esta não é de todo uma história baseada em pessoas específicas?
Não. Pego em várias histórias e junto-às numa só. Fiz um pouco um conto como os irmãos Grimm, onde uma sem-abrigo toma conta de um pequeno imigrante. Um dos objetivos, meu e do meu coargumentista (Olivier Brunhes), era mostrar que muitas vezes são as pessoas com maiores problemas e dificuldades que se envolvem na ajuda aos outros. Isto que vou dizer é diferente da história que contamos, mas em Calais encontrei senhoras bastante pobres, que vivem com muito pouco dinheiro, que todos os dias ajudam os migrantes. Acho magníficos estes pequenos gestos e conto isso na nossa história. Uma mulher que vive nas ruas e que mesmo assim vai ajudar um pequeno migrante.
E como trabalhou com a Catherine Frot para criar e desenvolver a sua personagem?
O tema tocava-lhe muito. Ela viu o meu documentário e imaginamos um filme em que podíamos trabalhar juntos. Queríamos uma história muito próxima da realidade, mas com a forma de um conto. Algo que soasse credível na Paris de 2020, mas simultaneamente mágico, como se ela fosse uma espécie de feiticeira. Ambos amamos a pintura, vimos muitos quadros e ilustrações dos contos dos irmãos Grimm de forma a criar algo de 2020, mas simultaneamente intemporal.
E a escolha do pequeno ator? Foi um casting?
Sim e foi muito longo. Tivemos muita sorte em encontrá-lo. Inicialmente, a minha ideia era ter um verdadeiro imigrante, mas isso revelou-se muito complicado, até porque muitas vezes os pais destas crianças não estão em França, ou não têm licença de trabalho [são ilegais]. Fizemos assim um casting nas escolas, nos locais onde se praticava desporto, nas ruas. Encontrámos um rapazinho, Mahamadou Yaffa, que é fantástico. Ele já cresceu em França, mas os pais ainda falam na sua língua original.

E foi fácil dirigir uma criança sem experiência?
Vimos nesse casting mais de 100 crianças. Fizemos várias etapas na seleção e, na última, a Catherine entrou em cena. Essa interação com o Mahamadou, através de jogos, etc, foi bastante bela. Senti que havia uma conexão. Ele teve uma coach com quem trabalhou, principalmente as emoções: o “tenho frio”, “tenho medo”, etc. Como nos comportamos fisicamente quando sentimos essas coisas? Foi assim que ele trabalhou nos ensaios e depois nas filmagens fizemos algumas repetições.
E podemos dizer que a Paris do seu filme é também ela uma personagem. A forma como filma os espaços é bastante interessante, até porque é uma Paris muito longe do que estamos habituados a ver nas telas. Como foi esse trabalho?
Não importava muito o sítio onde íamos filmar, mas Paris é sempre um símbolo das luzes, do esplendor, etc. Por isso, o contraste que vemos é muito forte, o mostrar a miséria. Queria filmar a Paris bela que conhecemos, mas igualmente o menos conhecido, como os seus subterrâneos. Como fiz antes o documentário, já conhecia bem esses locais da cidade.
E estes temas sociais vão continuar a marcar o seu futuro?
Sim. Como disse antes, depois de fazer o documentário sobre os sem-abrigo mudei a minha forma de ver as coisas. Sim, podemos fazer filmes de entretenimento, mas não podemos ficar indiferentes ao que nos rodeia. Por exemplo, sou um grande fã do Werner Herzog. Ainda por cima é um alemão, vizinho de onde venho. É alguém que admiro muito.
É uma influência?
É um modelo. Mais louco que eu (risos), mas ambiciono ser louco como ele (risos). Um poeta não tem o direito de desviar o olhar do mundo. Acredito nisso que ele diz e pensei bastante no tema antes de filmar. Todos os tópicos que irei abordar no futuro terão sempre um espectro social. Por exemplo, neste momento estou a filmar um documentário sobre a prostituição no Bosque de Bolonha (Au Bois de Bologne, 2021), um bordel a céu aberto. Passo os dias lá com as/os prostitutas/os. Pessoas de quem temos uma visão péssima, mas são super afáveis e simpáticas. Quero mostrar isso, fugir da ideia que são horríveis e o seu mundo muito negro. Não quero mostrar a/o prostituta/o, mas o ser humano.

