Fernando León de Aranoa: “Espero ser um bom patrão”

(Fotos: Divulgação)

Já com uma extensa carreira na realização, com vários dos seus filmes como “Às Segundas ao Sol” a tocarem no mundo laboral, Fernando León de Aranoa regressa aos cinemas entre o drama e a comédia com “O Bom Patrão”, no qual Javier Bardem é dono de uma fábrica e tem de lidar com inúmeros problemas, e contradições, no dia a dia.

Falámos com o cineasta sobre este filme, qual foram as suas motivações e o que prende a questão ligadas ao trabalho e à falta dele.

É realizador e produtor deste filme, logo um “patrão”… Considera-se um bom patrão? (risos)

Terias de perguntar às pessoas com quem trabalho (risos). Creio que, como o protagonista do filme, todos nos vemos como um bom patrão. O que não garante que o seja, como vimos. Gosto muito de trabalhar em equipa e trabalho há muitos anos com as mesmas pessoas. Sinto que as coisas vão bem e nós entendemos. Espero ser um “bom patrão”, mas não sou a melhor pessoa para o dizer.

Falas muito do trabalho, da falta dele, e das condições laborais nos teus filmes. É um tema que te atrai? Como chegaste a este “O Bom Patrão”?

Sim, é verdade. Já no “Às Segundas ao Sol”, que já tem vinte anos e filmei também com o Javier Bardem, falava desses temas. Falava do desemprego e de identidade quando alguém se encontra nessa posição. Já este filme funciona como um espécie de contraplano, pois aborda a questão do emprego e das relações laborais deterioradas dentro de uma empresa média. Uma fábrica onde seguimos as interações, não só do patrão com os empregados, mas entre eles. O filme segue a despersonalização das relações, a ausência de uma identidade de classe,e a falta de solidariedade entre os trabalhadores. Por isso mesmo, os trabalhadores estão mais sozinhos nas lutas. São essas questões que me interessam.

Apareceram perto de mim algumas histórias reais, tanto de trabalhadores como de patrões que se comportam de forma semelhante ao que vemos no filme. Em termos de ficção, a primeira ideia que tive foi o partir da personagem interpretada pelo Bardem. Seguir alguém que se vê a si mesmo como um bom chefe. Mas queria mostrar a forma como ele se intromete na vida das pessoas com um certo paternalismo, amizade e afetividade, quando na realidade o que quer é que o seu negócio funcione.

Surgiu-me uma história muito próxima sobre um chefe assim e a partir dela fiz o filme. Queria falar das relações laborais, mas com um toque de comédia. Criar uma personagem tragicómica que se intrometesse na vida dos trabalhadores, como quando ele vai falar com a esposa de um deles. Isto é algo terrível, mas também divertido. Foi o que mais me atraiu.

Creio que disse em San Sebastián que, nos tempos que vivemos, o melhor que temos a fazer é rir…. 

Sim, o humor é uma forma de decifrar e explicar as coisas. Com o humor podes dizer muitas coisas que com maior seriedade as pessoas não ouviam. Com o humor consegues ter um efeito catártico junto do espectador. De pegar em algo da realidade que não gostas e fazer com que as pessoas que vivem situações semelhantes se riam e pensem no assunto. O humor pode ser revolucionário. 

Uma das ideias que me ficou igualmente na mente é que a própria personagem do Bardem não tem noção do seu privilégio. Por exemplo, numa das cenas, ele valoriza tudo o que tem pelo trabalho e esforço, mas relembram-no que herdou a fábrica do pai…

Este género de cenas são muito importantes no filme e estão no centro de tudo. Criam conflitos entre as personagens e geram discussão entre os atores. Permitem-lhes ver a posição da personagem no mundo e a sua visão dele.

E há também muitas subtramas que evocam outros temas, desde o assédio laboral, relações entre empregados, etc. Como introduziu essas subtemáticas em algo maior?

Quis falar de formas distintas de abuso de poder. No caso da personagem da jovem, queria mostrar a forma como ele aborda as estagiárias. No caso do homem que foi despedido, quis mostrar um conflito laboral num microcosmos. Este homem representa de certa maneira as lutas sindicais. Ele grita “o povo unido jamais será vencido”, mas está só, ninguém o ajuda porque todos têm medo. Tudo isto são formas de abuso das relações laborais, mostrando relações pessoais corrompidas. Isto acontece entre empregados e o patrão, mas também entre os trabalhadores, onde existem igualmente abusos e rivalidades. Estes temas foram surgindo progressivamente durante a escrita e vais integrando-os: a questão sexual, a intromissão na vida das pessoas, o paternalismo, as redes sociais e a vida privada.

E escreveste a personagem do Blanco a pensar no Bardem?

Quando escrevi não tinha clara a ideia dele, mas é verdade que o Bardem passa-me sempre pela cabeça. Sou argumentista há muitos anos e por isso não posso pensar muito em atores quando escrevo. Tento evitá-lo para ser mais livre.

No caso do Blanco, escrevi-o e foi ótimo ver o Bardem a entrar nele e a fazê-lo crescer. A personagem que escrevi desaparece e fica o que o Javier fez dela. Ele acrescentou muitas coisas. A Força, o carisma, a sua capacidade de se emaranhar em problemas, o humor. Apetecia-me muito experimentar e explorar a comédia com o Bardem. Ele é alguém que quando entra num projeto e gosta dele dá muito A começar pela fisicalidade, a maneira como se move e caminha, como se relaciona com outros atores. Por exemplo, ele toca muito nas pessoas e dessa maneira mostra também um sentimento de posse. A forma como caminha demonstra autoestima, como alguém que é dono da fábrica. Estas coisas enriquecem muito o filme. 

Como achas que “O Bom Patrão” iria reagir à pandemia? (risos)

Acho que ele não ia acreditar muito no teletrabalho (risos). E se na paisagem em que decorre a película já existe tanta falta de apoio entre os trabalhadores, com o teletrabalho, o não ver a cara do colega e saber os seus problemas do dia a dia, vai fazer a situação piorar. Trabalhando em casa, como te vais preocupar com alguém com quem nunca partilhaste um espaço? Creio que isso é algo que pode acontecer e temos de estar atentos. Provavelmente, o Blanco iria tirar partido disso.

Como vê o sucesso do filme, ou seja, 20 nomeações aos Goya, pré-seleção aos oscars?

Muito feliz. O filme foi muito bem recebido em San Sebastián, quando estreou. Há quatro meses que está nas salas espanholas, o que é quase um milagre. Quando chegaram as nomeações, esperávamos de certa maneira esse carinho, mas não com tantas indicações. No que diz respeito aos Oscars, o filme está pré-selecionado com outros 14, dos quais ficarão cinco. É impossível saber o que vai acontecer. O importante é sabermos que o filme tem muito prestígio e nome, mas será sempre difícil ficar nas cinco escolhas finais. Vamos ver.

O Blanco certamente faria tudo para o filme estar nos nomeados(risos)

Está a trabalhar num novo projeto?

Sim, numa série limitada. Tenho sempre muitas coisas alinhadas para ver o que avança, até porque algumas caem pelo caminho. É nessa série estou a trabalhar mais afincadamente. Tenho também um documentário que estou a finalizar, sobre um músico espanhol, o Joaquín Sabina. Já está no pós-produção, na montagem.

Últimas