À conversa com Roselyn Sanchez, a nova anfitriã de “Fantasy Island”

“Fantasy Island” estreou a 10 de janeiro no AXN White.

(Fotos: Divulgação)

Bem-vindos à Ilha da Fantasia!”. Esta frase proferida dezenas de vezes por Mr. Roarke (Ricardo Montalbán), de 1978 a 1984, ganha agora uma nova entoação graças à atriz Roselyn Sanchez, a escolhida para comandar o regresso de “Fantasy Island” ao pequeno ecrã.

Esta atualização moderna do projeto da ABC, que se passa num resort de luxo onde literalmente qualquer fantasia solicitada pelos hóspedes é realizada, tem agora à sua frente Elena Roarke, uma mulher que deixou de lado as suas próprias ambições e o amor para transformar as fantasias de outros em realidade.

E se Elena ao seu jeito defende o legado da família Roarke, Roselyn Sanchez tem a árdua tarefa (e pressão) de agarrar o espectador e dar nova vida a um projeto tão acarinhado no passado

Conhecida principalmente pela franquia “Rush Hour” e a série “Devious Maids” (Criadas e Malvadas),  Roselyn falou com o C7nema sobre este projeto e os desafios que ele lhe trouxe. Além disso, abordamos a forma como a televisão e o cinema atual estão a repescar projetos do passado, e como a própria pandemia e os desejos do público atual contribuíram para que esta nova “Fantasy Island” tenha um tom menos sombrio que o original, mantendo o místico na sua abordagem.

Hoje em dia há muitos remakes e reboots no cinema e na televisão, que levaram a uma quebra da presença de produtos originais. Porque crê que isso acontece?

Roselyn Sanchez em “Fantasy Island

É uma pergunta interessante e faço-a muitas vezes a mim mesma. O que aconteceu aos criadores, ao seu poder e à forma como tentam recriar estes formatos antigos? O que aconteceu para isto ser assim? Faço-me essa pergunta muitas vezes, mas lá está… não sou uma executiva, não estou numa posição de poder para saber a razão dessa opção. Mas vamos assumir que eles sabem que estas recriações são eficazes e que existe uma demanda de produtos antigos. Questiono sempre o porquê, mas não me queixo disso pois pude fazer este fantástico regresso da Ilha da Fantasia (risos). Mas será esta uma trend? Ou seja, está tudo a tentar conseguir os direitos de séries do passado e talvez, daqui a uns anos, possamos ver coisas novas. Mas não tenho ideia de como vai ser no futuro. O certo é que muitas vezes existe sucesso nestes reboots, mas às vezes eles também falham. 

E o facto de ser uma nova versão de algo já conhecido trouxe uma pressão extra para si? Que desafios enfrentou para assumir o protagonismo como Roarke?

Sendo honesta, a primeira vez que ouvi falar deste reboot da “Fantasy Island”, quando me ofereceram o papel da Roarke, fiquei muito confusa. Nunca pensei que me queriam para esse papel, ou que essa personagem seria sequer uma mulher. Tive de pensar em como fazer as coisas de forma respeitosa para com o passado e ao mesmo tempo criar elementos novos. Inicialmente fiquei petrificada com essa responsabilidade. O Ricardo Montalbán fez um trabalho maravilhoso. Na verdade, ele tem um currículo imenso, mas as pessoas lembram-se dele por causa do Roarke. Por tal, assumir esta personagem foi algo complexo. Aceitei fazê-la por várias razões, primeiro por ser fã do original, e depois por ser filmado em Porto Rico, que é o local onde nasci. 

É sempre um grande desafio assumir o papel de uma personagem que era tão amada no passado e, ainda por cima, um homem. Tentei perceber como criar essa personagem, como colocar amor nela, tentando simultaneamente capturar algumas coisas que o Montalbán fez, mas torná-la minha. Com isto queria que as pessoas se apaixonassem novamente por ela. Até agora, tem sido uma honra e um prazer interpretar esta personagem.

É curioso mencionar a questão da personagem principal agora ser uma mulher. E hispânica. Quanto da Roarke foi trabalhada em torno de si, da sua persona?

Nunca quis que as pessoas vissem a Rosalyn quando olhassem para a Elena Roarke. Não existiu nenhuma transformação física. Uso a minha voz, o meu sotaque, tudo, por isso tenho de confiar no argumento para me ajudar a construir uma figura bidimensional que faça com que as pessoas pensem que, apesar de parecer ser eu, é diferente. Isso foi algo que retirei do Montalbán, que é alguém sofisticado e elegante. Na série original, a personagem dele continha mais mistério, pois não sabemos se é verdadeiramente humano. Eele é mais como uma criatura mística. A Elena é claramente mais humana, mais confiável. E ainda que confunda um pouco as pessoas com o que sou na realidade, quero que elas me queiram abraçar, que sejam minhas amigas. O meu trabalho tem sido esse.

Sabe, inicialmente a ideia era fazer uma “Fantasy Island” mais sombria, mas depois a ideia transformou-se em algo mais ligeiro e açucarado. Tive de encontrar o tom certo para a minha personagem, pois primeiramente achava que ela seria mais introvertida e difícil de ler. À medida que fui encontrando a Elena, dei com uma personagem que está a lidar com muitas coisas, que esconde um pouco a si mas que ajuda as pessoas.

É interessante que tenha dito que achava que a personagem e a série teriam um tom mais sombrio e não tão “ligeiro” como o que encontramos. Todos nós sabemos que no mundo do entretenimento atual existem test screenings, painéis de audiência, etc. Crê que essa maior ligeireza reflete também os tempos de pandemia que vivemos em que o desejo do público é de ver coisas mais ligeiras, coloridas e não tão sombrias?

Sem dúvida, a 100%. Quando ligas as notícias vês uma pandemia que virou o mundo do avesso. Tudo é tão incerto e confuso que penso que as pessoas desejam especialmente conteúdos que levantem o astral. E acho que isso acontece mais quando és pai. Eu tenho filhos e quero que eles quando vêem desenhos-animados e a tv escapem um pouco a isto tudo. Não quero que participem no drama e caos constante do mundo atual. Acho que é por isto que as pessoas gravitam tanto em torno desta nova versão de “Fantasy Island“. Com as redes sociais, também, temos notificações imediatas das reações das pessoas. 99% desse feedback positivo nas redes sociais está ligado ao facto da série os fazer sentir bem, rir e tocar. Creio que é isso que as pessoas querem hoje em dia. 

Note-se que não tenho nada contra projetos de drama ou terror. Por exemplo, a minha série preferida é o “Succession”, que é sobre uma família terrível e disfuncional. Adoro-a porque tem uma intensidade imensa no que diz respeito a conteúdo. Mas há momentos em que a tua alma deseja algo mais ligeiro e a “Fantasy Island” oferece isso.

Kiara Barnes e Roselyn Sanchez em “Fantasy Island

Usou muitas vezes o termo “conteúdo” e faz-me lembrar aquela questão que o Martin Scorsese levantou, que hoje em dia falamos em “conteúdo” e não em “filmes” ou “séries”. Crê que num momento em que temos “conteúdos” como nunca, e em todo o lado, mais que os próprios autores e criadores, o poder e rumo das séries está no público?

Creio que sim. Nunca tinha pensado nesse sentido, mas tem razão. A audiência tem todo o poder. No final é tudo sobre números (risos), equações para os que têm o poder, ou seja, os executivos, os estúdios e as estações. É o dinheiro deles em jogo e se não entram verbas de publicidade, ou as pessoas não veem essa publicidade, eles decidem. Se a audiência não entrar numa série ou aceitar uma personagem, os criadores nem têm a chance de continuarem a explorá-las para que exista uma resposta diferente das audiências. A série é cancelada. É por isso que às vezes tens um programa ótimo com apenas cinco episódios, mas não atrai audiências e é cancelado. Ou então não tem uma segunda temporada. 

Nós atores, e também os criadores, queixamo-nos sempre para nos darem mais uma chance, mas no final do dia é sempre 1+1=2. Se os projetos não têm audiência, não interessa o quão boa a série é. Não temos o controle disso.

Mas isso para si, como atriz, traz uma pressão extra, especialmente porque neste caso é o rosto principal da nova versão. A sua série pode ser cancelada a qualquer momento…

É o medo de todos os atores (risos). Nos tempos que correm, ter uma série completa é uma satisfação e uma realização tremenda (risos). 

É como quando participas num episódio piloto com a esperança que a uma série tenha uma temporada encomendada. Quando fazes esse episódio com essa esperança, tendes a fazer logo as contas e mapeas o teu ano inteiro em termos de trabalho. Mas depois de diversos contratempos (a série não é escolhida), começas a refletir que o melhor é pensar apenas um dia de cada vez. Neste caso, pensas apenas no episódio piloto. 99% das vezes as séries não se concretizam, por isso tens de pensar num trabalho de cada vez. Fazes uma temporada de 13 episódios com todo o amor e respeito, mas depois disso está totalmente fora das tuas mãos. A vida que os atores, criadores, realizadores e até os produtores executivos vivem é louca, incerta. Quando os estúdios dão luz verde a um projeto é porque acreditam nele e querem que tenha sucesso. Tenho a certeza que é devastador para um estúdio ou uma estação que algo em que colocam tanto dinheiro não tenha resposta por parte da audiência.

Tudo isto para mim, como protagonista da série, que agora é uma mulher, e tendo em conta o sucesso da versão original, é verdadeiramente assustador.  

Bem, ao menos no caso de “Fantasy Island” já temos a confirmação de que haverá uma segunda temporada… (risos)

Sim, graças a Deus (risos).

A primeira parte do trabalho está assim completa. O que podemos esperar de si e da série nessa segunda temporada?

Na primeira temporada é quando encontras o tom e percebes o que funciona e não funciona. Por isso, a segunda temporada tem tudo para ser melhor. Em termos de personagens, agora estou muito mais confortável com a Elena, e a Kiara Barnes com a Ruby. O John Gabriel Rodriquez tornou-se também uma presença regular na série, o que significa que têm a esperança em fazer algo incrível com a sua personagem. 

Certamente que esta segunda temporada será melhor em todos os sentidos, seja nas locações, no design de produção, atores ou guarda-roupa. Agora temos um projeto que temos a certeza que funciona, por isso temos tudo para torná-lo ainda melhor. E sei também que as histórias serão mais cativantes. Numa sala de escrita, quando és showrunner, uma segunda temporada é como a validação de algo que fizeste bem. Por isso, sei que todos eles estão super entusiasmados para fazer algo ainda melhor, mais humano, com mais risos e choros. Creio que vai ser ótimo e Porto Rico é um local maravilhoso para filmar. 

Temos todos os ingredientes para que esta série tenha sucesso durante muitos anos e só temos de esperar que a audiência aprecie. 

Falando nesse futuro em que a série continua durante muitos anos, por exemplo, muita gente conhece o Montalbán pela “Fantasy Island”. Tem algum tipo de receio em ficar para sempre ligada e conhecida por esta série, ou ainda é muito cedo para pensar nisso?

Ainda é cedo, acho que precisamos de umas 7 temporadas (risos). Até agora, toda a minha vida fui associada ao “Rush Hour 2” (risos)

Mas está preparada para isso?

Adoraria. Adoro a minha personagem. Acho-a com muita classe e por isso seria uma benção que as pessoas se lembrassem de mim como a Elena Roarke. Por exemplo, quando fiz o “Devious Maids” fiquei agarrada durante anos à Carmen Luna, que até hoje é a minha personagem preferida. 

Por isso, quando uma pessoa faz o clique e te associa imediatamente a um papel, significa que ele foi bem feito. Se a Elena Roarke se transformar na personagem com a qual me associam, vou adorar.

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