Um dos mais elogiados concorrentes ao troféu Candango de Melhor Longa-Metragem no Festival de Brasília de 2021, “Saudade do Futuro” transcende os traumas coloniais ao passear por Portugal, Brasil e Cabo Verde com uma mirada documental pautada por uma onipresente ausência… ora de sentido, ora de revolução, ora de paz. Países ligados pelo mar e pela cultura da falta se desenham na lírica narrativa de Anna Azevedo, cineasta carioca que passou várias vezes pela Berlinale, seja para exibir curtas como “BerlinBall” (2006), “Dreznica” (2008), “Em Busca da Terra Sem Males” (2017), além de ter sido curadora de exposição no Forum Exoanded, em fevereiro de 2020.
Agendado pelo 23º Festival do Rio para uma projeção fora de concurso no Cinépolis Lagoon, este sábado, às 17h, o novo filme de Anna percorre três continentes à caça de personagens marcados por ausências, decorrentes de eventos que transformaram a História, como o fascismo, a colonização e a escravidão. Conversas à beira-mar rendem um envolvente estudo sobre a resiliência cultural.
Como é montar uma narrativa onde a peça central é um ser ausente?
A peça central, penso eu, não é a ausência, mas a presença dessa ausência, personificada nos que ficam e que sofrem a ausência dos que partiram. O grande problema ocidental em relação à morte não está na conta dos mortos e sim como os vivos lidam com ela.
De que maneira a ancestralidade lusa que você regista pode se reinventar poeticamente no nosso cinema?
Uma das descobertas desse filme foi perceber o quão Portugal não está muito interessado em refletir sobre o processo colonial. Tive a impressão de que, mesmo nas escolas, o que se estuda sobre o tema é pouco. Atualmente, a preocupação do país é com o futuro, em se inserir definitivamente nos modos e costumes da CE. Hoje, o dono de uma padaria, no Porto, grita, com o lápis preso atrás da orelha: ‘next, please!’. Então, imagino que caberá a nós, as ex-colónias, fazer essa reflexão. Ao nos debruçarmos sobre quem somos, é inevitável cruzar o Atlântico. A mim não me interessa ir a Portugal e voltar de lá com um filme ‘à portuguesa’. Eu quero voltar com um filme brasileiro. A reinvenção reside, penso eu, em abrir esse retrovisor aqui, no Brasil, um espelho com cor local, e a poesia dessa manobra residirá nesse pé fincado do lado de cá.

Como foi pensada a engenharia de luz de um filme que ilumina o presente com o passado?
Inicialmente, partiu de uma pesquisa muito profunda sobre a história de saudade, sobre os factos históricos que cimentaram a cultura da saudade em Portugal e nas colónias. O pulo do gato, como diz o meu produtor português, foi ter detectado, nas palavras dos pescadores, rastos de uma instrumentalização da cultura da saudade para controle das massas, pelo governo fascista. A partir dessa percepção, o roteiro do filme mudou. Nesse começo de século 21, com tantas feridas expostas por todos os lados, com o Brasil retornando ao mapa da miséria, impossível, pelo menos para mim, ratificar o discurso romântico da saudade
É possível encontrar aí uma conexão com ‘Dreznica’, uma curta sobre a visão, a partir de modos possíveis de investigar as nossas ausências. Que conexão seria essa?
Tanto em “Dreznica” quanto em “Saudade do Futuro”, temos ausências repletas de presença. Lá, a cegueira é banhada de azul. Aqui, ausências que se transformam em luta, em construções para um futuro melhor. “O que a juventude conquistou não tem volta”, diz a jovem poeta de slam, mesmo ciente de que o seu futuro foi temporariamente interrompido pelo estado fascista que tomou de assalto o país.
Mas qual é a falta que nos move e qual é a falta que nos trava?
No caso específico de nós, brasileiros, a falta que nos trava, acredito, é a do futuro. Daí vem o título do filme. E essa mesma sensação de ausência parece ser potente o suficiente para nos mover, pois ela transformou o brasileiro em um ser tristonho, adoentado. A chama, no entanto, não se apagou. Vamos dar a volta por cima, queremos o futuro sonhado, possível, atingível. Em escala global, o mundo sofre desse mesmo estado de coisas. A crise climática nos joga nesse mesmo vácuo de futuro. E esse é o tema do meu próximo filme, ‘À Prova de futuro’, sobre a queda de braço pelo futuro da humanidade.

